Já faz um tempo, né? Mas agora, a nossa série escrita do Descobrindo está de volta para sua quinta edição e a primeira no ano de 2021. São cinco nomes de muito talento e que merecem mais espaço no cenário que nos chamaram a atenção. Se liga aí!

AYA – Ainda É Tempo (EP)

Desprender-se das próprias inseguranças para se entregar a um sonho é um processo pelo qual todos os artistas passam. Não que isso o torne fácil, é claro, mas é nessa identificação quase universal que se encontra o apelo de “Ainda é Tempo”, da cantora e compositora Aya, natural de Ribeirão Pires (SP). Em pouco mais de 20 minutos, temos tudo o que se pode esperar de um bom cartão de visitas: uma produção coesa, que consegue potencializar a introspecção e a esperança que permeia todo o trabalho; letras que conseguem dialogar com diferentes ouvintes, ao passo que também demarcam a identidade e o momento pela qual a artista se encontra; além, é claro, de uma performance de tirar o fôlego.

Ainda sobre ela, é bem impressionante o cuidado com a pronúncia de cada palavra. Apesar do rap também dar uma certa atenção nesse quesito, é no soul e no R&B onde sentimos a potência de uma entrega mais intensa, em especial pelas suas sílabas esticadas e variações na entonação. E o melhor exemplo dessa intensidade se encontra em “Caos”, que, além de inserir um grave mais abafado para “antagonizar” o seu eu lírico, também apresenta pequenas mudanças no tom e no flow para transmitir o quão árdua é a luta para se libertar das próprias travas.

Também vale destaque a penúltima faixa, “Sei que Sou Mais Um”, não apenas pelo ótimo verso da lendária Stefanie, mas por todo o contraste entre a performance melódica da anfitriã e a lírica da convidada, já que a primeira captura o sentimento de solidão pela qual todos já passamos um dia, para a segunda terminar pontuando quem é essa personagem e o tipo de solidão que ela está sofrendo. Transições entre o macro e o micro não são um recurso inovador, mas sempre que bem executadas, criam passagens memoráveis num disco.

Se Aya pretende seguir por esse caminho ou não, só o futuro dirá. Mas, com o que já foi apresentado nesse EP, é grande o nosso interesse em continuar ouvindo. E se tem algo te prendendo agora, esse disco foi feito para você também.

-Valtinho

Disco Rebel & CIANO  – Wavyshit

BH é um dos grandes berços do rap brasileiro atualmente, e é de lá que vem Disco Rebel. Lançando projetos desde 2018, no fim de 2020, o rapper mineiro dropou “Wavyshit”, seu projeto mais completo até agora. Os beats, feitos em quatro mãos em parceria com o produtor CIANO, elevam o nível do trabalho, a sonoridade do disco mistura influências de diferentes vertentes, unindo trap, cloud rap e até o rap de Memphis.

Esbanjando bom humor e carisma, a lírica de Disco Rebel é criativa e cativante. Seja para falar de crime, de drogas ou fazer referências à cultura pop (para homenagear um jogo clássico como Starfox 64, que dá nome a um dos destaques do álbum, ou até mesmo para falar mal de BBB), as letras apelam para uma simplicidade que funciona principalmente pelos diferentes flows exibidos durante o projeto. 

Com todas essas características, é impossível não mencionar as similaridades com o som de Yung Buda desenvolvido na série “Músicas Para Drift”. Porém, as ideias desenvolvidas pelo rapper mineiro nas suas letras possuem uma personalidade própria, tornando óbvio que, mais do que marcar a posição do MC no underground brasileiro, Wavyshit veio mostrar o potencial de um artista com capacidade para continuar evoluindo.

-Ravi

Jojo Baby – Sonho-Miragem (EP)

Lançado em janeiro, o novo “EP SONHO – MIRAGEM” de Jojo Baby traz 3 faixas com batidas experimentais e um audiovisual psicodélico com imagens análogas. Esse é o primeiro dos três eps planejados para serem lançados esse ano pelo produtor e beatmaker.

O primeiro e principal som em parceria com Kel, carrega o nome do EP. Já a segunda track, “Requisitado ft. PiátheKid e Aggin” fala sobre altos e baixos que são enfrentados na vida do artista. Terceira e última faixa “556 / Ysl” com três participações especiais, Yung Drum, Relboy e Yung Dolffo vem com uma pegada do trap music.

Sendo o primeiro trabalho lançado pelo artista, o flow que constitui o ep traz para aqueles não acostumados com uma mistura de hip hop e música psicodélica algo inusitado. Mais que isso, essa mistura torna as faixas agradáveis de serem ouvidas, além das letras que nos levam a pensar sobre sua trajetória. “Sonho – Miragem” segue o estilo de outros trabalhos lançados pelo beatmaker, todos em parceria com o músico Kel, firmando o primeiro passo para uma carreira promissora na música e uma grande aposta para esse ano. 

-Yasmin

Meroerro – Parsec (EP)

Vindo diretamente de São Bernardo do Campo, Daniel Costa, que tem um papel de protagonista na cena do rap da região do ABC Paulista, apresenta o EP “PARSEC”, um projeto com 5 músicas e pouco mais de 15 minutos que nos faz embarcar na mesma nave, passeando pelo espaço e pela mente do artista, refletindo sobre sua carreira e vulnerabilidades pessoais que o acompanham.

Com um conteúdo bastante introspectivo, a sinceridade e capacidade de mesclar seus sentimentos com alguns termos até técnicos – como o próprio nome-título – se une a toda a identidade visual trazida e mostra um lado às vezes raro no cenário nacional: os projetos temáticos com um conceito muito bem aprofundado. A produção é excepcional e os refrãos chiclete nos introduzem ao mundo do artista de uma forma completamente espontânea. Meroerro mostra que busca seu lugar no mainstream e traz um trampo “DIGNO” (vide a inicial das faixas) que mostra sua capacidade para isso. Como diz em “Instinto”: “Muito longe pra voltar, e sério eu nem quero voltar, quanto mais me afundo nisso, mais me elevo nisso”; e se “Parsec” é uma unidade de distância para representar distâncias estelares, o artista mostra seu potencial para ser destaque no estrelato do rap brasileiro.

-Enzo

Stevan – A Queda do Céu

Vindo do interior de São Paulo, mais precisamente São Carlos, Stevan já se intitula eclético por não se apegar a nenhum sub-genero explicitamente, e “A queda do céu” deixa isso bem claro. Cria de uma cena underground de batalha, desde 2017 vem tecendo inúmeras influências como um mosaico que gerou o álbum lançado em 31 de Outubro de 2020. 

A primeira faixa do álbum é um trap que flerta com um pop muito bem construído musicalmente, a voz do rapper combina com o beat e canaliza uma sensação conhecida logo na largada, com participação de Hello Ramos e produção do Gorfo de Panda, a vibe relaxada já prepara o ouvinte para um projeto bem versátil do artista. 

A colagem de referências e intertextualidades não segue um mesmo contexto, por não pertencer a nenhuma vertente específica, você se pega em uma teia de retomadas a discursos, versos, personagens e figuras conhecidas. Vilões da Marvel, artistas do rap nacional, séries e figuras históricas se complementam e fazem sentido em uma diversidade de sonoridades. É necessário ressaltar como Stevan não teve receio em colocar várias participações em seu álbum, de Hello Ramos a Sara Donato, MC Primitivo, entre outros… esse vozeado é completamente compreensível em um álbum tão múltiplo. 

A produção também é algo compartilhado, com nomes como, Nobre Beats, 808 Luke, o já mencionado Gorfo, PX, Ávila e @rideblan33. Essas diversidades de assinaturas fica notável em faixas como “Katyusha” e “Gold Experience”. “O doce gosto do fracasso” e “Nagini” são faixas bem “low key”, enquanto “Dionísio (Feiticeira)” e “Vampira” preenchem o papel de Love song muito bem. 

Para um debut, o álbum entrega muito bem a proposta do artista, além de apresentar todas as suas facetas como rapper. Depois desse pontapé, talvez seja bacana Stevan focar mais em recortar e contextualizar melhor seus projetos, evitando fragmentar suas composições, entregando um álbum mais redondo e um pouco menos construído em participações, já que por si só o artista oferece tanta versatilidade.

-Isabela

Gostaram das indicações? Temos vários outros nomes de muita qualidade do nosso underground na playlist Descobrindo, no spotify. Não deixe de acompanhar lá! E você pode também dar uma olhada nas edições 1, 2, 3 e 4 desta série.