Z aqui. Fazia já algum tempo que não havia um lançamento dramático oriundo do litoral paulista. Pois no final do ano passado veio a percorrer os streamings o “2000s: Um Álbum de Allure Dayo”, uma grata surpresa vinda do produtor e rapper que assina o disco já no título.

É o tipo de álbum feito todo intrincado, de forma que seu maior mérito está em uma audição que valorize o todo, que seja de cabo a rabo, portanto. Desse modo, o trabalho já alcança méritos em sua coesão conceitual: uma história íntima do autor marcando seu fim de ano. A narrativa ganha forma e ritmo na própria voz do Allure contando seu dia para seu sobrinho, atingindo tons de uma quase reflexão sobre os acontecimentos. Durante o percurso teremos momentos para visitar o passado, uma espécie de flashback, utilizado como uma ferramenta que explora e expande a significância dos acontecimentos, enriquecendo o drama geral.

Se do ponto de vista da caneta e das letras temos esse fluxo, quanto ao beat, o álbum tem qualidades muito próprias dos trabalhos em que rappers assinam também a produção. A principal é a naturalidade que os instrumentais acompanham a história, ora com mais força, ora com menos, mas sempre marcando o ambiente. As transições acabam sendo incríveis, por exemplo, quando vamos de algo mais ao trap em “HB20kids” com o grave marcante, para um quase R&B em “Y&C” com uma melodia romântica no baixo.

O grande problema do disco se concentra justamente em seu apelo conceitual: na busca por contar uma história o álbum passa por demais a impressão de que há mais trilhas de áudio (as falas dos personagens) para interligar as faixas do que música propriamente dita. Há um certo ensinamento que percorre nos meios que contamos histórias, como cinema ou literatura, que é “Não conte, mostre”, e aqui o paralelo se faz muito necessário. Allure demonstra tremendo desenvolvimento em sua habilidade de contar uma história ao rimar em “Yung Arthur”, ou ainda nas “HB20Kids” e “Allura “, se mostra muito confortável brincando com o eu-lírico; e, mesmo assim, se vale do recurso dos áudios de forma excessiva (o contar), necessário apenas pela ausência desse conteúdo nas faixas (o mostrar), tornando o álbum cansativo e isso vai se tornando mais e mais sensível a cada audição.

“Yung Arthur” então, uma faixa longa com quatro versos, conseguindo ultrapassar os nove minutos de duração, é o coração do disco e onde tudo se amarra. O clímax é a revelação da tragédia que envolve o sobrinho e que marca o protagonista com um misto de sentimentos que moveria o resto da trama até aí e que dá um novo significado as atitudes tomadas. O resultado acaba sendo formidável, já que o embalo das características do trabalho, para o bem e para o mal, elevam ela ao ápice.

O grande destaque fica com “@Sabrinon”, a faixa mais simples do disco, marcando como um acontecimento de esperança na felicidade e na vida, é exatamente Allure mostrando algo acontecendo. Aqui temos a consonância de todos os elementos entrando em harmonia: o flow quase falado cai como um luva no beat de poucas camadas em loop. As linhas cheias de referências a símbolos pop dos anos 2000, como séries e animes clássicos, ganham rimas sutis que soam bregas, quase adolescentes, descobrindo uma força única. O refrão marcante, que implora para ser cantado junto, ganha elementos humanos, como as palmas marcando o tempo, tornando-o quente e próximo. O rapper consegue, assim, demonstrar muito conforto em produzir muita força e resultado com tão pouco.

Há um outro elemento não citado até agora que faz parte da essência do trabalho: o fato de Allure ser um homem bissexual e integrar o movimento LGBTQ+. Dentro de uma perspectiva social no mundo de invisibilizar a dinâmica amorosa de uma pessoa bi, é cativante por demais ver como a narrativa marca esse encontro, lidando com os diferentes pares românticos.

É necessário, também, falar sobre a participação mais icônica do disco: JuPat. Além de um trabalho incrível em seu trecho de áudio, com uma atuação radiante e visceral, entrega uma participação, enquanto principal elemento da música, em “Kkk Traveco”. Se essa música possui algum defeito é sua curta duração, mas nem isso é o bastante para diminuir a força do verso que JuPat consegue emplacar em apenas oito linhas.

Ao final, temos um excelente resultado e uma grata surpresa. Allure Dayo com seu primeiro disco consegue nos dar bons momentos e fisgar todo interesse que poderia para sua carreira, tal qual um MC repleto de potencial deveria ao desabrochar.

Author: Gabriel Diamantino

Também conhecido como "Z" por essas bandas, sou um jornalista frustrado e acabei por me tornar publicitário por acaso. Fã de música estranha, passo mais tempo do que deveria vendo desenhos.