Salve! aka Panther na casa novamente. Depois de um longo hiato após lançar “Eletrocardiograma”, álbum prestigiado pelas críticas, Flora Matos, artista brasiliense, dropou, no finalzinho de 2020, “Do Lado de Flora”. O trabalho anterior consta como tema central de um dos nossos episódios do Defecast, vai lá dar uma sacada e conhecer mais a fundo! A cantora, produtora e rapper sempre deixa um gostinho de quero mais já que a qualidade dos lançamentos são sempre elevadas, e, nesse meio tempo, vem aparecendo apenas em feats com Willsbife, Filipe Ret e outros singles soltos como “Piloto”. Indo além das plataformas de streaming convencionais, Flora sempre usou o soundcloud para publicar novidades, beats e remixes. Uma coisa é certa, a mulher nunca para de produzir.

O álbum analisado aqui é como um bolo bem recheado, de longe pode parecer simples mas, ao cortar, percebe-se que o interior possui bastante substância. Ao ouvir a primeira vez, a produção parece simplista, porém, é nas audições seguintes que você vai descobrindo sons e mesclas que antes não ouvira, como camadas de recheio. A música nunca será apenas um trap, ou um boombap, vai carregar outras facetas em suas viradas, momentos de silêncio e entoação dos instrumentos (que são vários), na forma como ela oscila entre cantar e dizer as palavras, no uso de sintetizadores e efeitos sonoros.

Na primeira track, “TOCA DISCOS”, segue aquela velha fórmula que sempre funcionou, de versos + refrão, sendo este último grudento. Há uma compensação no beat, que começa num sample de piano e intercala junto a voz entre melody/no melody. O beat, apresenta atmosfera abafada, as melodias são as que mais se destacam, enquanto o boombap ao fundo é singelo e quadradinho. Música avançada mas que demora para o ouvido se acostumar com a disposições dos sons numa oscilação constante, que poderia ter a bateria ou as melodias num volume mais baixo. Essa vibe vai funcionar bem na quinta track, “ÁGUA DE CÔCO”, a melhor do disco, tanto em produção como em letra, o beat mistura drill com funk e também o techno (na melodia), com pouco grave – exceto pelo 808 bem ao fundo – e cheio de hihat e kicks. Mesmo de caráter também cíclico, é maior no quesito tempo, o que a deixa mais embalada e instigante. Ao contrário da primeira, não fica desconfortável, pois acerta em cheio na mixagem, o grave e a bateria de funk são outros diferenciais, além da voz cheia de marra que ela usa junto ao efeito de “echo”.

Na segunda, “CONVERSAR COM O MAR”, como para compensar a letra simples da primeira, Flora demonstra o oposto, o beat de bateria muito mais altas e melodia em segundo plano começa dando pista de que a música se encaminhará para um axé/pagodão, mas vira num trap. A letra chega ao auge no segundo verso, onde a MC apresenta um ótimo speedflow repleto de storytelling, resgatando memórias da cantora na Bahia, dando total sentido ao trapaxé. A música é completa contando com colaboração de Willsbife na produção, ou seja, quando ela quer ousar, ela consegue. 

Quando era pequena

Minha vó ficava sentada na sala

Naquela cadeira de balanço

Enquanto o bairro balançava

Ao som da quebradeira eu subia e descia as ladeiras do bairro

E quando amanhecia era uma poesia

O sol nasce de frente pra laje

E ali era o auge, auge das brisa que eu tinha […]

Infelizmente o feat de Mv Bill, um dos mais versáteis quando o assunto é flow, é o único diferencial da track que se segue, o MC aparece num verso curto mas que combina muito bem com o conceito da música, em que o casal vive os corres cotidianos, para ao fim dizer que o dia “VALEU” ao se encontrar. A forma (sempre falo no sentido lírico) é a mesma das músicas anteriores, entre anseio, cotidiano e lovesong, verso seguido de refrão, sem medo de demonstrar sua vulnerabilidade. Por isso, na próxima, “MEDITO E ME ACALMO”, há uma sensação de novidade, o beat de boombap não tem sido muito explorado atualmente, então o fato de Flora sempre rimar em ao menos um boombap dá o tom de nostalgia, a música se destaca principalmente por esse motivo dentre as demais. Até a letra vai se apresentar livre, remetendo a um freestyle, com assunto mais amplo, além de contar com uma ponte, elemento que se ausenta nas demais.

Juntamente com a “ÁGUA DE COCO”, no pódio do álbum está “NENHUM RAPAZ”, introduzida com um coral no lugar da melodia com mais uma vez a percussão de pagodão. Trata-se de uma interseção entre o a capela do gospel (impossível não lembrar de Kanye nessa) com poucas batidas, o que faz dela um trampo único entre as músicas, por exemplo, o aumentar e diminuir do coral não causa o desconforto da primeira música, já que não conta com tantos elementos. “BALANÇO” completa a tríade das melhores, trap raiz, cumpre sua proposta, ao misturar inglês e português e um refrão que quebra justamente no momento do “balançar”. O sample de piano possui uma tonalidade mais original, mix e master bem balanceadas e uma percussão elétrica no fim. Flora também usa mais a voz em alguns trechos, mais rouca e prolongando algumas notas. 

E você dança com a minha música

Mesmo sem entender tudo que eu digo

Eu sei que você vai balançar 

O prêmio de mais ou menos vai para décima primeira faixa, “I LOVE YOU”, que é engraçadinha e exageradamente romântica, acústica que mistura guitarra com samba. O problema da faixa novamente está na pós produção, o instrumento é muito alto e gera um desconforto já se apresenta no instrumental como elemento principal, porém a música com o refrão mais chiclete do álbum, parece piada, de bom gosto.

Seguimos na convicção que Flora Matos não faz trampo ruim, e percebe-se que a rapper não vê problema em seguir tendências, a exemplo de um “Eletrocardiograma” com uma presença bastante forte do trap.  Seu novo trabalho consegue traduzir a identidade da artista e, além do subgênero que dá as caras novamente, há também a música eletrônica, sempre utilizada, além de explorar outras vertentes em alta como samba, drill, boom-bap, reggae, música gospel americana, pagodão. Assim, ela consegue sair do convencional, no sentido estilístico, mesmo utilizando de tendências. Por outro lado, na parte lírica, quando comparados os três álbuns, não há grandes surpresas. Percebemos isso em muitos artistas, quando, a partir de um determinado momento, seus trabalhos se tornam repetitivos ao não explorarem outras formas nesse aspecto. Tanto que são nas mudanças em relação ao que ela costuma lançar, nas experimentações mais ousadas, principalmente na parte instrumental, que se encontra o ouro do disco. Quando fala-se de simplicidade aqui, é apenas enquanto composição, o que não deixa de funcionar em alguns casos, como por exemplo a track “NENHUM RAPAZ”.

Os longos hiatos entre os álbuns, nesse caso, têm funcionado para uma produção coerente e que até hoje não decepcionou. “Do Lado de Flora” continua refletindo a rapper de maneira bastante sincera, no sentido de ter em seus trabalhos um sentimento que poucos são capazes de depositar e, apesar da falta de renovação no sentido lírico, enquanto sua performance de MC, Flora Matos segue se reafirmando cada vez mais como produtora, já que todo o material é feito majoritariamente por ela. O alto nível que os beats apresentam, com estéticas atuais e de qualidade indiscutível, é o ponto alto do trabalho, não fugindo de sua identidade. Deve ser difícil para os haters odiá-la e não poder negar o talento de Flora.

Author: Diana

Aspirante a Arte educadora, uso Rap como ferramenta pedagógica. Historiadora nas horas gerais. DJ e estudante de música nas horas vagas. Crio umas artes também pois multidisciplinar 😝