Z aqui. Tivityn meio que correu por fora. Em 2019, enquanto o cenário dava sua cota de atenção para algumas brigas e intrigas, o rapper carioca vinha consolidando alguns lançamentos muito concisos. “É Pela Gang”, cheio de qualidades, foi um dos primeiros singles a furar bulhas e projetar o artista. Conseguiu, assim, ganhar circulação com bastante atenção, por exemplo, o apreço ganho no canal Quadro em Branco. No final, a sua coroação como uma das grandes promessas veio esse ano com sua participação destaque na faixa “Lenda”, do elogiado álbum “BC Raff Álbum”.

Pouco mais de um mês depois de sua colaboração, veio às ruas “Foragido”, seu álbum de estreia. Um projeto de acertos e erros, belas qualidades e também defeitos delicados, de toda forma, sua principal característica é algo que já estávamos vendo Tivityn experimentar, algo que já nos saltava aos olhos em, por exemplo, “Dois Lados”: havia uma ambientação extremamente vívida e violenta das quebradas do Rio de Janeiro, trazendo o crime e o criminoso ao seu primeiro plano, mas com um olhar completamente sentimental e melancólico.

Pois agora, ao fim de 2020, vem a tomar luz o “Olha o 14 Aê”, novo EP assinado pelo rapper. Aqui,  QTZ Tivityn convida QTZ Dlena, QTZ Daglock, QTZ F3 Brasileiro e QTZ Teddy para construir um trabalho que olha para sua própria área, suas irmandades e mergulha, então, em seu cotidiano, de forma que isto não seja apenas um reflexo na produção artística, mas que seja conteúdo dela, para que ela reflita sobre estes.

Se em “Foragido” os feats eram de nomes bem conceituados (Yung Nobre, Klyn e Delatorvi) e passaram sem grandes momentos, aqui as colaborações são um dos grandes destaques. Enquanto artistas da mesma banca, sua sintonia é admirável, além do empenho em criar música juntos, costurando linhas e versos de forma orgânica, brilhando e dando suporte em harmonia.

“Luto”, a faixa inicial, é um posse cut de versos curtos (talvez um à moda do trap) com todos os convidados. Já desembocando no tema mais fúnebre que o discurso tratará, é essencialmente uma escolha interessantíssima para construir um olhar sobre o cotidiano, começando assim já em um clímax sentimental. A participação de todos contribuí ainda mais para essa sensação, quase como se começasse por outra parte que não fosse o começo. Esse tipo de escolha narrativa é definitivamente ousada e não estranha a Tivityn, que desde seus primeiros singles mostra enorme vontade de experimentar em suas criações.

Além da primeira faixa, todos dividem uma track com o dono do EP. As seguintes, “Chuva” e “Passado”, funcionam muito bem juntas e em sua posição, tendo valor individual e na continuação. Com grande destaque, Dlena e Teddy conseguem agraciar-nos com bons versos e bons flows, igualando a performance do anfitrião.

A quarta faixa, “De Verdade”, por sua vez, tem muito mais um tom de abertura que o resto, principalmente pela sua ponte inicial, e depois tem o clima mais ameno e de exaltação entre as cinco tracks. Aqui, F3 possui um belo verso misturando alguns flows, apesar de seu deslize em algumas linhas em especial, o que não chega a ofuscar o resultado geral. Por fim, no encerramento, “Na Minha Área”, é a vez do Daglock ter seu feat ao lado do melhor desempenho de Tivityn ao longo do projeto.

Quanto à produção técnica, o trabalho do Notapanda.rar – que possui uma das tags mais cativantes do rap nacional – ao longo do EP é conciso e centrado, melhorando a condução da identidade musical, dando ares de sua evolução desde “Foragido”. Além disso, a soma do Prod.lif3 nas duas últimas faixas deixa o saldo muito positivo, integrando uma nova dinâmica ao beat.

Há de se falar, entretanto, que apesar de sua simplicidade, até por uma certa inexperiência dos envolvidos ter seu charme e dar força ao trabalho, não há momentos explosivos ou uma curva de ascendência na experiência, o que a marcariam como uma grande audição; não, “corre-se por fora”: mantêm-se circunscrito em sua proposta, atendendo-a é claro, e ao gênero, mesmo que para isso não atinja as fórmulas de sucesso conhecida. Ao todo, é elogiável a potência que ganha com seu frescor, além de ser instigante ao desconhecido destino que futuros trabalhos nos reservam.

Lidando com as complexidades de um cenário que se sustenta a base de hits de singles, é assim que Tivityn nos dá mostras de sua evolução em entregar um trabalho mais longo e completo, cheio de seus sentimentalismos e experimentações, já que ganha agênciaexatamente por suas partes de veracidade e sinceridade. “Olha o 14 Aê” possui, em altas doses, o que há de melhor no Real Trap, ao mesmo tempo que recusa dinâmicas pré-estabelecidas. Eis que Tivityn não é mais uma promessa.

Author: Gabriel Diamantino

Também conhecido como "Z" por essas bandas, sou um jornalista frustrado e acabei por me tornar publicitário por acaso. Fã de música estranha, passo mais tempo do que deveria vendo desenhos.