Salve, JH aqui. “But I don’t write reviews ’cause that’s something y’all do, something y’all type” é a terceira linha do novo e primeiro álbum oficial de Rico Nasty, uma das mais promissoras MCs americanas, membro da excelente classe de 2019 da XXL. Depois de algumas mixtapes no seu catálogo, com mais notoriedade em seu último trabalho, o excelente “Anger Management”, collab com o produtor Kenny Beats, ela já começa seu primeiro álbum com uma linha certeira, já que, bom, reviews são algo que nós fazemos.

A rapper de Maryland surgiu no meio da geração emo-trap do soundcloud, mas se destacou depois por sua atitude muito mais potente, com crossovers entre rap e punk, gritos em suas músicas e flows agressivos, ao mesmo tempo que explora ao máximo sua voz. Nesse novo disco tenta ir além disso, mesmo que para tal, lá no meio do caminho, acabe soando sem foco, não superando assim o seu projeto antecessor.

Na primeira metade do álbum, ela morde um estilo após o outro sem nenhuma vergonha. “Candy” tem logo de cara uma cópia gritante do flow manjado e repetitivo de DaBaby, o que só vale a pena por ela entregar com isso uma track melhor do que quase tudo que o MC já fez em seus três trabalhos. “Don’t Like Me” parece algo saído diretamente do “So Much Fun”, não só pelo beat com sintetizadores mais brilhantes que apareceram com frequência no álbum, como também pelo refrão com as entregas mais agudas; aqui, embora seja uma música um tanto cativante, nada de muito interessante vem da anfitriã ou dos convidados, Don Tolliver e Gucci Mane. “No Debate”, um pouco mais a frente, segue essa toada, sendo um pop rap com beat e refrão pegajosos, mas nada de memorável. “Own It”, já no final, é outra faixa que pode levar a mesma descrição.

Ainda no início do disco temos “IPHONE” que é uma surpreendente viagem a um hyperpop, com uma faixa que soa extremamente como algo do 100gecs (e é produzida por Dylan Brady, metade do duo). Embora Rico faça isso bem, é um tanto aleatório nesse álbum. E essa é a atmosfera por boa parte dessas mordidas em estilos diferentes: bem feitos, porém aleatoriamente distribuídos na tracklist. “Back and Forth” é uma ótima track romântica com a participação de Aminé, mas tem todas as características de uma faixa do cantor, que carrega a maior parte do refrão e o verso mais longo, fazendo mais sentido sua inclusão no álbum recente do convidado. O beat é bem interessante, apostando em flauta e cordas para dar um clima aconchegante à track, onde ambos falam sobre uma relação complicada e sensual, entregando excelentes versos e um bom refrão.

Ainda existem duas faixas que apelam ao pop trap mais comum: a completamente esquecível “Loser”, que poderia ser facilmente cortada, com beat, flow e refrão que você encontra em qualquer mixtape-de-trapper-mediano-que-empilha-números e um feat também esquecível de Trippie Redd, tedioso ao longo das mudanças vocais (assim como ele tem sido em tudo que lançou recentemente). “Pussy Poppin” é uma faixa daquelas para, digamos, soltar o tesão acumulado (não atoa ela foi ouvida pela primeira vez no OnlyFans da artista). É uma canção mais esperada de se ouvir de uma rapper como Cardi B do que de Rico (e ela mesmo admite no refrão “I don’t really talk like this, I know/ But this nigga got a real big woo for sure“), mas acaba sendo uma canção muito boa, entregando um refrão engraçado e bons versos, que também são bem explícitos. Bonk.

He like it when I bend it over and I arch my back
He tap me on my shoulders, I said, “Yeah, I like that” (Woah)
This pussy don’t purr, this pussy’ll bite back
And that woo so good, I sound like his hype man
Now that woo got me doing all the nasty things I said I wouldn’t do
We can do it in the car or we can take it to the room
Pull the panties to the side, watch a movie and make it two
We just finished number one, but I’m ready for round two

Embora Rico saia bem na maior parte dessas músicas, quando focada em seu som, a rapper encontra o seu melhor, soando ameaçadora e visceral em cada linha. Para por em termos que todos entendam: Rico é uma besta enjaulada com ódio. Duas faixas produzidas por Dylan Brady/100gecs se destacam nisso: “Let It Out”, apoiada num beat mais industrial com um sintetizador feroz na linha de frente, apresenta a MC de volta ao trap-punk, com gritos no bom refrão, braggadocio e ameaças ao longo dos dois verso; e “OHFR?” que não tem tantos gritos na entrega, mas segue na mesma temática, apostando em rimas internas e na força em seu delivery. O duo entrega os melhores beats do disco, e com exceção dos já destacados no texto, nada mais impressiona, no máximo dando o campo para o destaque de Rico

Embora faixas como “10Fo” e “Check Me Out” sejam boas bangers, o destaque deve ser dado a “STFU”, onde Rico pula num beat de grime e domina a estética mais do que quase qualquer americano que tenha tentado, uma combinação natural devido ao ódio e força de delivery comuns na artista. Entre refrãos gritados e contagiantes, a MC solta versos com um flow incrível, sobretudo o segundo.

O último grande momento vem no fechamento, com “Smack A Bitch (remix)”, apesar da versão original da track, lançada em 2018, estar desnecessariamente colada como bônus no disco. O beat é inacabado, com o mesmo riff se repetindo o tempo inteiro, mas é impressionante como Rico se mostra com um ódio latente, sobretudo no refrão, e mesmo assim consegue encontrar outras rappers para bater a mesma energia. Rubi Rose e Sukihana chegam bem, mas ppcocaine rouba a cena ao entregar um verso potente com uma voz que soa infantil e gritando, parecendo mais com uma personagem de Rugrats ou Rocket Power (mas realmente raivosa).

You bitches making me mad and it’s gettin’ real sad (Sad)
Actin’ like a bitch nigga ’til you need a pad (Are you bleeding?)
You fuckin’ talk too much, I don’t listen, give a fuck (Give a fuck)
Bitch, I’ll run you over in my fuckin’ Tesla truck (Vroom, vroom)
Kill these hoes, stab these hoes, bitch
Pop these hoes, smack these hoes (Big), bitch
I know I fuckin’ shouldn’t, but she make me hella mad
Smack that bitch and her mama and I’ll even smack her dad

Apesar de já termos ouvido muito material da MC, este é um álbum de estreia e Rico Nasty faz o que se espera de MCs talentosos nesse momento: mostra sua versatilidade (“IPHONE”, “Don’t Like Me”), sua viabilidade comercial (“Back And Forth”, “Own It”) e sua autenticidade (“Let It Out”, “OHFR”), tudo isso enquanto deixa claro possuir enorme potencial e talento. Embora “Nightmare Vacation” tenha todos estes atributos, peca pela falta de coesão, e essa é a maior área para crescimento da artista.

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @JHseeghosts