Salve, JH aqui. Tyrone William Griffin, o Ty Dolla $ign, se tornou um dos artistas mais requisitados da indústria musical nos últimos anos. Dono de lindas harmonias e versatilidade vocal para conduzir um refrão, entregar um verso ou assumir apenas vocais de apoio, o artista tem colaborações que vão de Kendrick Lamar até MC Lan, passando por Maluma e Fifth Harmony. Essa habilidade gerou uma piada que tem um fundo de verdade: as pessoas amam músicas com “feat. Ty Dolla $ign” do que músicas feitas pelo mesmo. Esse meme foi incorporado de forma positiva, dando o título ao seu, extremamente colaborativo, novo álbum.

É difícil imaginar um artista de sucesso no hip-hop dos anos 2010 que não tenha colaborado com Ty de alguma forma. Qualquer nome que você pensar já trabalhou com o homem. Esse acesso a toda a indústria certamente seria utilizado aqui: são 21 convidados em 25 tracks, com alguns aparecendo duas vezes. Tendo quase todo artista de sucesso ao seu dispor, era de se esperar uma das duas coisas: que TD$ ou buscasse um álbum grandioso e criativo, ou tentasse a coisa mais genérica possível, em busca de hits e posições em playlists. Infelizmente ele foi para a segunda via.

I told Ye to drop the OG “New Body” (Body)
I told Ye to run for president (President)
He said, “Dolla, you too good to put your voice on that generic shit”

Essas linhas de “Status”, segunda faixa e primeira música de fato do disco, dizem muito. Embora Kanye esteja certo sobre “New Body” ser uma canção genérica, ainda é mais inventiva que quase tudo que temos no “Featuring”. Não consigo pensar em muitas coisas mais genéricas que o refrão de ” Nothing Like Your Exes”, single do disco; “Spicy” é o protótipo do hit padrão de 2020, que mistura pop e trap a uma vibe latina em flow e cordas, o que tanto aparece nos charts recentemente com artistas como Drake, J Balvin, Cardi B ou o convidado dessa track, Post Malone (o homem perfeito para o trabalho). Ao contrário da anterior, tediosa e sem substância, ao menos a última não é uma faixa ruim, só não tem nada de diferente ali.

Uma pequena parte do álbum aposta, em seus refrãos , num pop R&B que pouco difere do padrão, com várias faixas que poderiam ser ouvidas nas vozes de uma Ariana Grande ou um Justin Bieber. “Temptations” é um exemplo com nada de interessante rolando em termos de flow, escrita ou vocal e Kid Cudi vindo e indo sem chamar muita atenção, tendo como ponto positivo apenas o bom beat. “Lift Me Up” é outra faixa que se assemelha não só no estilo do refrão, mas no desperdício de feats: Young Thug é quem cuida dessa passagem, deixando a desejar tanto por ela não casar bem com sua voz, quanto por ele não entregar nenhum verso; por outro lado, Future tem um verso bem longo, mas que não impressiona. “By Yourself” é outra faixa que segue essa linha, sendo extremamente desinteressante não apenas por Ty, como também pela convidada, Jhene Aiko.

Outra parte genérica é a enorme frequência de traps melódicos, algo que Ty fez bem ao longo da carreira mas aqui, assumindo a posição primária, contabiliza mais erros que acertos. Em “Freak” ele morde claramente a sonoridade de Lil Uzi Vert, enquanto Quavo traz uma participação que nós já ouvimos pelo menos dez vezes vindo dele. “Expensive” com Nicki Minaj é o trap de Atlanta padrão, com nada de especial vindo do anfitrião e um verso até que bom de Nick, mas numa temática extremamente repetida: deve ser a centésima vez que a MC fala sobre ser caro se relacionar com ela e que o cara não pode ter pau pequeno.

É incrível o desperdício de talentos ao longo de todo o disco, tanto por parte do dono do álbum como por parte de seus convidados. O melhor é exemplo é Kanye West, que tem duas aparições aqui. “Track 6” tem ye com uma que, seguramente, é uma das contribuições menos marcantes de toda sua carreira; Ty tem um flow até que bom no começo, mas Kanye quebra todo o momentum; Anderson .Paak, o cara mais consistente da indústria, traz mais uma bela performance após uma mudança de beat, no entanto, ela é cortada abruptamente. Para piorar, o excelente Thundercat aparece com alguns meros segundos na outro e algumas curtas linhas durante a faixa.

A outra aparição de ye ocorre em “Ego Death”. É impressionante como quatro excelentes artistas (também estão na faixa Skrillex e FKA Twigs) colaboram e, sob a liderança de Ty, o que sai é uma versão barata de “Fade” (faixa do TLOP com TD$ e Post), onde Kanye entrega um verso ruim e Twigs, assim como foi com Thundercat, é relegada à saída, sem muito tempo de microfone. O mundo precisava de colaborações de Kanye com .Paak e Twigs e você arruinou as primeira experiências, Ty. Muito obrigado. (nota do editor: se não conhece, ouça os últimos álbuns tanto da FKA Twigs quanto do Thundercat).

Para não falar que é tudo ruim, temos algumas exceções. “Tyrone 2021” é realmente interessante, onde Ty reconta a história de “Tyrone” de Erykah Badu da perspectiva do amigo do namorado que foi dispensado na original, uma amostra de criatividade que mal apareceu no disco. Big Sean tem talvez o melhor verso do álbum nessa track, sendo o (absurdamente tóxico) ex, com remorso em cada palavra. Double R traz Ty em uma ótima performance, com um excelente flow para um trap construído em um ótimo beat de Di$, e Lil Durk chega com mais um feat de qualidade para seu catálogo recente. “Butterfly” é a melhor track solo, com um beat mais contido que dá espaço para ele explorar seu ótimo range vocal.

O álbum tem, na reta final, em meio a tracks esquecíveis, dois diamantes. “Real Life” traz Ty em sua melhor escrita, falando sobre seu crescimento na vida, partindo de “tentar fazer um dolar com uma moeda” até “ter uma canção com Jay-Z e Beyonce” (embora sejam apenas vocais não creditados em “BOSS”), tudo isso explorando sua excelente voz num belo flow; no segundo verso, Roddy Ricch vem e mata tudo, esbanjando carisma em flows que mudam várias vezes em um minuto. Ele realmente foi a melhor coisa a acontecer no trap em anos. Depois temos “Your Turn”, facilmente a melhor do álbum. Apenas sobre uma guitarra na primeira metade, Ty tem sua melhor e mais interessante performance vocal, sendo mais profundo na escrita do que em todo o resto. Depois que entra o instrumental, Musiq Soulchild, Tish Hyman e 6LACK possuem todos belíssimas performances, seja atingindo notas mais altas ou em palavras faladas.

Com 25 faixas em 60 minutos, o álbum é uma bagunça. Apenas cinco delas têm mais de 3 minutos (todas entre as dez últimas) e sete têm menos de 2 minutos, com vários skits/interludes e algumas com finais abruptos demais, como “Burna Boy Interlude”, “Track 6” ou “Triple R”. Além disso, as sequências fazem pouco sentido, parecendo faixas jogadas de qualquer forma. No fim das contas, o álbum se parece com uma daquelas playlist com muitos seguidores: tem faixas (na maioria das vezes) confortáveis de se ouvir, com poucos riscos e pouca invenção. Dá pra ouvir tranquilamente no carro, numa festa ou em casa, mas não se destaca de fato em quase nada, e isso incomoda principalmente por vir de alguém tão talentoso como é Ty Dolla $ign. Ao invés de fazer o melhor álbum, ele decidiu pelo mais seguro.

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @_jhermogenes