Z aqui, largando pela primeira vez em tempos a edição do belíssimo Defecast (você já ouviu o episódio dessa semana?).

Lá pelas tantas de 2012, Joe Sujera lançava o EP “Sola Gasta”, seu segundo trabalho. Ele é ao menos interessante: havia uma intensidade no seu rimar e seu jeito de contar histórias com potencial para atingir algum grau intimista com o ouvinte; o auge com certeza seria a última faixa, em que Joe abre seu coração de maneira inspiradora. Existia uma clara evolução do MC que se apresentou em “O Jogo É Sujo” (2011), com a marcante faixa “Homem de Gelo” que trazia seu amor por Di Melo. Mas, estes ainda eram trabalhos de um jovem rapper explorando seus estilos. Depois, lançaria alguns outros projetos, dentre eles, dois álbuns: “Memórias do Subsolo” (2014) e “Autopsia Não Autorizada” (2017). Além disso, também acabou por ser bem ativo no underground, participando até de grandes discos como o “Dovahkiin” (2017).

É então no ano de 2020 que Joe Sujera se junta ao guitarrista Thiago Ticana para trazer ao mundo seu álbum de rap – e de rock também – “Órbita“. Este novo trabalho é definitivamente encantador: o rapper entrega sua melhor performance ao lado das surpreendentes produções e riffs de Thiago.

Tematicamente o álbum se mostra muito bem construído, uma enorme jornada espacial que sai da Terra (ou da terra) para Saturno. Do lado dos beats – alguns deles assinados tanto por Thiago quanto Babidi –, as criações são bárbaras e as ambientações funcionam idealmente. Já do lado das letras, o MC entrega resultados inteligentes se apoiando em um léxico ideal para criar metáforas em uma performance muito bela a quem o ouve, quase se deixando levar. Além disso, vê-se o rapper aqui-agora bem mais maduro, potencializando sua arte de diversas formas, principalmente no que diz respeito a religiosidades criadas a partir das composições.

“Terra”, “Geografia” e “Big Bang”, as três faixas iniciais, são a introdução dessa odisseia espacial, quase que um primeiro ato. A primeira, enquanto intro, situa o ouvinte em um ponto de partida e introduz levemente a estética do álbum, criando uma boa oposição entre o planeta e o espaço. Já “Geografia” é o único tropeço do álbum, colando bem ao resto do trabalho apenas conceitualmente, para além disso, enquanto rap de mensagem, tem linhas instáveis, ora demonstrando extrema astúcia em seu olhar, ora caindo em lugares comuns da fala política. “Big Bang”, por fim, vem como uma divagação nos minutos iniciais da viagem sobre o passado e quem o levou a estar ali, claramente estabelecendo um jogo com o ouvinte sobre referências e expectativas.

As três faixas seguintes constituem o miolo. “Voar Por Aí”, canção mais alegre do disco, vem com uma letra muito discreta ao falar sobre solidão e tristeza, enquanto trabalha elementos próprios de uma viagem desse tipo. “Atmosfera” é uma faixa instrumental e soa muito bem como interlúdio, colando-se de forma satisfatória na anterior e na posterior ao soar como um momento de respiro antes de engatar para o clímax. Na faixa homônima do álbum, “Órbita”, se dá o momento de crise da viagem, em que o eu-lírico encontra imagens ricas na sua trajetória para expressar suas próprias crises internas.

É então que chega de fato o clímax, com as duas faixas seguintes. “Bruxaria” é o hit do disco e a melhor música apresentada nele.  Toda as religiosidades, mantras e magias apresentadas até agora ganham força nessa composição que vai trazendo uma história de conquista misturada à própria estética expressa. Apesar de ser colocada como um momento de descontração, tal qual um devaneio em meio a viagem, ela cola incrivelmente bem ao resultado geral. “Lilás” seria então o clímax da viagem propriamente dito, em uma música sutil ao narrar sexo de maneira que mescla a temática de viagem espacial.

“Saturno” é a nona faixa e constitui, finalmente, o destino – e será que pode se dizer isso? A música mais enérgica do disco é feita especialmente para o encontro do público com as performances ao vivo, como se o álbum aproveitasse a energia em alta para encerrar o disco e terminar a história com o herói perdido em Saturno, não fosse a faixa bônus. Em “Medo – Bônus” vê-se o real resultado dessa jornada enquanto nosso protagonista se abre colocando para fora seus medos e pensamentos sobre o próprio medo e o viver – mesmo que com medo. E, ainda que seja, talvez, por acidente, essa bônus encerra narrativamente a jornada de forma satisfatória, compondo um bom quadro na contraposição à energia da track anterior.

No entanto, ainda que com tantos méritos, há de se falar, porém, que em alguns momentos Joe, em sua composição, complica um tanto a dicção, o que, de toda forma, acaba passando batido pelo quase-erro ser pontual.  Um exemplo disso é “Geografia”, onde, também apesar do tropeço, é espantoso o planejamento da estrutura narrativa, tendo uma boa noção da experiência do ouvinte em uma curva de ascendência, o que potencializa por demais o clímax.

Esse é um álbum realmente encantador. A escrita de Joe Sujera possui um vigor incrível enquanto mistura seus jeitos de contar história a seus misticismos e também a sua proposta temática espacial, não deixando a desejar no todo. Thiago Ticana, então, faz seu trabalho de maneira impecável, produzindo beats fantásticos para uma ambientação incrível que não fica presa a lugares comum do Sci-Fi. Além de tudo, ainda há suas linhas de guitarra, que injetam vida às músicas de forma surpreendente, obtendo como resultado um organismo que não se sujeita ao papel de figurante no disco. A sinergia dos dois é algo raro de ser ver, quase como se fizessem tudo isso de forma simples, uma boba brincadeira, com resultados vívidos. “Órbita” é um disco assombroso. E, como trabalho inicial dessa dupla colaborativa, só nos faz pensar nas viagens que ainda veremos esses dois fazerem.

Author: Gabriel Diamantino

Também conhecido como "Z" por essas bandas, sou um jornalista frustrado e acabei por me tornar publicitário por acaso. Fã de música estranha, passo mais tempo do que deveria vendo desenhos.