Ascencio aqui. No cenário atual, temos poucas performances vocais que são de fato marcantes, Juyè é com certeza uma delas. A presença vocal da MC apresenta suas características mais promissoras e lhe confere notoriedade desde o seu surgimento. Foram um bocado de participações, contando com a incrível e melhor delas em “Gigantes” de BK, singles, um Perfil Pineapple extremamente subestimado e, já no âmbito particular, delicados situações familiares que levaram a artista a colocar seu primeiro trabalho na rua. “Do Desapego ao Amor” é o debut de uma voz promissora pelo selo da respeitada Pirâmide Perdida e, como tal, merece toda a atenção.

Introduções serão sempre a principal impressão do que as segue, seja um primeiro álbum ou faixa por exemplo. Com isso, a primeira faixa de seu primeiro álbum se torna algo extremamente singular, trata-se da apresentação não apenas da ideia por detrás do projeto, mas também apresenta uma nova faceta do artista. Sob essa ótica, “Convite”, track que abre o disco, funciona muito bem. A música tem a coragem para ser explícita e dizer a que vem, desde o título até o desenvolvimento, isso não abre espaços para interpretações distantes que podem mascarar defeitos em pseudo-subjetividades artísticas, Juyè opta por jogar luz ao que pretende dizer e, mais do que isso, à forma como pretende dizer, o que dá mais valor ao seu acerto nessa boa escolha de início, ao abrir uma tracklist de maneira corajosa e forte.

Muito dessa força vem de sua técnica. A cantora estabelece verdadeiros diálogos com o instrumental, desde a dualidade com o saxofone da música de abertura, passa pelo conversa com o piano de “Lago Luciana”, onde segura bons agudos, e vai até a sincronia de velocidade com os pratos abertos e fechados de “Carolina”.  Em todos os momentos a voz da MC, carregada de seus picos de tom mais palatal, imprime sua marca e confere extremo valor à performance.

Essas características todas desfrutam em bons momentos de entregas que tendem mais ao cantar que ao rimar. “Do desapego ao amor”, “Beija-me” e “Menina”, trinca da parte final do projeto, demonstram alguns pontos do que se espera de um álbum predominantemente mais cantado, ou seja, apresentam bons exemplos performáticos de estéticas que sincronizam de fato com a atmosfera da produção. No primeiro exemplo, Juyè modula muito bem seu tom, vai a notas mais altas e volta com naturalidade; no segundo, há o refrão de potencial melódico cativante por meio de uma repetição de palavras que cria um ritmo interessante, embalado pelas harmonias da produção; já no último, talvez o melhor deles, além de mais um bom refrão, a MC entende com maestria as mudanças e viradas da produção e retira delas o melhor em suas adaptações vocais.

Do lado da composição, no entanto, há certa fragilidade. A qualidade técnica da caneta não é o foco do trabalho e isso é obvio, porém, tratando-se de recorrência temática, a maior parte dos assuntos abordados são lugares comuns da composição amorosa que aborda relacionamentos em níveis mais superficiais ao ouvinte. Talvez, certo distanciamento entre o real catalizador de seus sentimentos e as metáforas postas nas linhas tenham seu peso nessa equação. No geral, e aqui vale também para o projeto como um todo, poucos deslizes ocorrem porque pouco se arrisca. Apesar disso, o que mais se destaca nesse setor é a boa ideia de aliar a temática amorosa a comparações que servem também de shout outs, em uma mescla de respeito e agradecimento aos companheiros de selo feita em “Ex-amor”, faixa que encerra a tracklist com essa interessante proposta.

Encerramento esse que conta com a boa participação de DJ Ciara nos scratchs do refrão. As outras contribuições externas ao projeto são de CHS que, além de seu verso, larga uma bela ponte em parceria com a dona da track em uma interessante oposição de vozes, o que poderia ter acontecido mais vezes, visto o bom resultado; Laura Sette que também segue essa receita de contrapontos e apresenta uma voz extremamente leve e doce em oposição à presença mais marcante de Juyè; Thiago Jamelão com ótimas dobras e entregas melódicas que se equiparam a MC;  Ainá, outro nome para se ficar atento, mas que aqui teve um pouco de dificuldade em acertar os espaços de suas linhas, fazendo com que a métrica escapasse em alguns pontos e, por fim, BK, que talvez devesse ter esperado um pouco mais ainda para voltar a falar de amor, uma vez que teria sido eclipsado completamente por Thiago e Juyè não fosse o seu nome de maior peso.

A produção ficou com os nomes de El Lif Beatz, Pedro Malcher e Magno Brito. O trio entrega um material extremamente orgânico indo ao Jazz, R&B, Soul, valendo-se também de elementos de Trap lowtempo e cordas utilizadas a exaustão em produções mais pop. Concentram-se nos instrumentais as principais propostas de mudanças e variações do projeto, o que dá certo em momentos como boas viradas de beats entre as estruturas internas das tracks; e principalmente no meio do trabalho, ponto costumeiro de virada de chave das produções executivas, com “Vou querer mais” e “Não vá dizer”. Na primeira, surgem novas sonoridades com os sintetizadores, na segunda, um belo desenvolvimento dos instrumentos já vistos, renovando-os.

No entanto, existem alguns obstáculos, como por exemplo o uso pontual de um pitch mais baixo distorcido em um determinado vocal, onde, seja pela mixagem/masterização, seja pela organização dos elementos, não se entende o que é dito nem sua função na construção sonora. Outro ponto reside no ritmo mais lento que o projeto resolve assumir, não há problema algum nessa escolha que, em boa parte dos momentos, respeita as características de Juyè, porém, com o tempo e, como já mencionado, certa ausência geral de se arriscar para abordagens mais marcantes que aumentariam a singularidade do compilado, essa lentidão que pode dar um ar de classe, flerta com uma atmosfera arrastada, em momentos específicos.

Em seu primeiro álbum, Juyè concentra em um único lugar tudo o que já havia demonstrado de valor em qualidade performática e, apesar dos percalços normais a qualquer início, “Do desapego ao amor” trata-se de um primeiro passo importantíssimo na carreira da artista, além de um bom material para os fãs e apreciadores desta estética mais cantada. Como sequência, resta apenas esperar que tudo conspire a seu favor em um ambiente propício para que possa explorar todo o grande potencial que reside em seu talento.

Author: ascencio

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