Salve, JH de novo na área. No meio da década passada, já corrido um bom tempo desde “808’s and Heartbreak” ou “Take Care”, raps que se misturavam com performances cantadas, explodindo os muros entre o gênero e o R&B, já eram uma realidade muito vista e aceita na cultura. 2015 foi o ano que marcou a transição de Drake, maior impulsionador dessa estética, de um grande gado (musicalmente falando, já que depois ainda teria toda aquela relação com a Rihanna) para um fake-tough-guy, posando como um rapper durão etc. Nesse espaço que ficou, Bryson Tiller foi a melhor coisa a surgir.

Tiller lançou em 2015 seu primeiro álbum, “T R A P S O U L”, um trabalho que mordia muito do que fazia Drake popular mas, ao mesmo tempo, mantendo uma originalidade, transitando entre R&B e flows mais próximos do trap com um dinamismo incrível. O excelente disco ganhou público e abriu espaço para artistas como Tory Lanez (cuzão) ou 6LACK. Depois disso, seu segundo trabalho foi um passo atrás: “True To Self” (2017) saía de um personagem tóxico em relacionamentos para um cara mais maduro, porém muito menos cativante, além de musicalmente não trazer nada muito interessante. Após isso, deu-se um longo hiato de lançamento, com algumas aparições em feats em geral muito boas, como em “Wild Thoughts” com Dj Khaled e Rihanna ou “Playing Games” com Summer Walker. Enfim, a espera por um full lenght acabou com o lançamento de “A N N I V E R S A R Y”.

O trabalho é obviamente um sucessor espiritual da estreia, explicitado pela capa, a (péssima) estilização do título e a mesma data de lançamento, no aniversário de cinco anos do primeiro. Perdido após um lançamento ruim, Tiller decidiu pela opção mais segura: retornar ao que o lhe deu notoriedade em primeiro lugar. No entanto, não se atentou ao fato de que “Trapsoul” foi incrível por ser inovador em 2015, mas, em 2020, é algo totalmente comum. Artistas como Logic tiveram sucesso nessa proposta de retomar a um trabalho anterior para criar em seu novo disco um sucessor apenas na casca e construir um álbum novo de fato, ao passo que Tiller faz basicamente o que fez no antecessor e, ainda por cima, pior.

O disco tem muito um conceito de tempo, mas ele raramente aparece de forma substancial. A intro, “Time Go By” é promissora, Tiller rima sobre sua ausência do jogo enquanto explora um beat mais acelerado e um flow forte, como vimos nos seus melhores momentos. A faixa seguinte, “Always Forever” possui um hi-hat que dá a impressão de um relógio acelerado, ajudando na ambientação, enquanto fala sobre o tempo de seu relacionamento (I feel the time just (Tick-tick-tick-tick-tick) passin’ by/ Thought this was always forever, so I’m askin’). Seria uma ideia interessante se a faixa não fosse um R&B meloso e padrão à la H.E.R ou Summer Walker e a temática fosse exaurida durante o disco.

A maioria das demais canções segue a mesma performance: alguns versos mais ao rap, com frequentes puxadas na voz a cada 2 ou 4 linhas, longos refrãos cantados e essa ideia sobre o tempo de relacionamento. Além da segunda do disco, temos essa mesma performance em “Things Change”, “Sorrows” (que ao menos tem um bom beat, mais animado e expansivo) e “Next To You”, além de seu verso em “Outta Time”. Essa última, diga-se, é extremamente óbvia e preguiçosa. O beat começa interessante, com uma provável influência de dancehall, mas depois o que se vê é exatamente o esperado de um Bryson Tiller X Drake: ambos trazem seus flows mais cantados e uma escrita com pouca substância, falando de um relacionamento que está em seu fim. Desinteressante ao extremo, assim como a maioria do que está presente aqui.

Mas, claro, também não é tudo descartável. Em seus projetos anteriores, Bryson era matador em interlúdios e aqui atingiu o hat-trick com “Timeless”, um beat com piano e belos vocais de fundo para o artista expor suas inseguranças, sobretudo, sobre a idade, já que o tempo passa e ele estaria estagnado (e com esse disco, está mesmo).

They be like “Do the task right, don’t make no mistakes”

They negated what I sacrificed, think I live a flashy life?

But really life is flashin’ by, twenty-two, go get it now

Twenty-seven, hold it down

“I’m Ready” tem também um bom beat lento sobre sobre o qual o artista passeia, trocando do flow cantado para o rimado de forma mais criativa e natural em que, noutra rara amostra de boa caneta, se põe como alguém tentando conquistar outra garota (trazendo também a aura mais tóxica de antes). “Inhale” peca por sua brevidade, mas tem o melhor beat do álbum ao explorar um sample do trio de R&B dos anos 90′ SWV para seu refrão e um verso bem escrito e performado.

E só. Para um artista que surgiu com um excelente álbum, “Anniversary” é uma tentativa frustrada de retomada, sem nada de inovador. O trabalho soa majoritariamente como uma coleção de B-sides do álbum, faixas que, até as melhores, deixariam a desejar para quase tudo do excelente debut e até mesmo do seu decepcionante segundo trabalho. É um disco que pode ter faixas em playlists aqui e ali, mas nenhuma delas se destaca de fato.

Como acontece com muitos sucessores de trabalhos de destaque, é difícil ver o que dá valor a esse álbum. O que seguraria ele no alto? Não há razão para, passado o efeito de novidade, alguém voltar a álbuns como esse quando o anterior oferece o mesmo tipo de material, mas com um nível de qualidade muito maior. Tiller deveria mesmo se preocupar com o tempo, mas tentar voltar nele não garantirá nada de especial. E “Anniversary” não tem nada de especial.

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @_jhermogenes