Salve meus casas, Shaq de novo pra dar meus 10 centavos sobre a mais nova empreitada do rapper 21 Savage e do produtor Metro Boomin, que, aliados a Deus aka Morgan Freeman, nos entregam 15 faixas executadas em 44 min de puro suco do gangsta trap de quebradinha. Em “Savage Mode II”, a proposta é simples como a de seu antecessor: aglutinar a maior quantidade de bangers por megabyte de um arquivo mp3 e , já para adiantar, conseguiram. Vamos ver como isso foi feito.

Logo na divulgação do projeto via instagram, a surpresa se deu com a narração posta por Morgan Freeman que, desde aí, já ambientou a proposta do projeto. Com muitas referências visuais à slasher movies e cenas famosas de filme de terror do fim dos anos 80, há de tudo por aqui: o ambiente de grandes casas americanas abandonadas, o assassino a solta que alcança todas as suas vítimas, uma ambientação escura e muito uso de sangue; esse é o ponto de partida para o que viria a ser SM2.

Ao analisar a capa do projeto em relação à proposta e ao ambiente já preparado ocorre uma dissonância que só é percebida ao ter a experiência sonora, tal qual Master P em “MP The Last Don” ou HotBoyz com “Let ‘Em Burn”, pode-se observar o título em destaque cravejado de diamantes que em nada combinam com o ambiente supracitado, porém, é nas letras que surge a sobreposição dos dois temas, aliada a narração de Freeman que conduz o ouvinte durante o projeto. Nesse sentido, muito de uma tradução do pensamento do eu lírico empregado por 21 e das situações abordadas nas faixas é demonstrado. 

Especificamente falando da narrativa, a presença de Deus é fundamental para a coesão do projeto, uma vez que a gama de temas exploradas pelo rapper de Atlanta é primordialmente organizada pelos muitos “interlúdios” contidos dentro das próprias tracks. A narração de Freeman, não só explica o que será abordado, mas também coloca em contexto estas temáticas com a tal personalidade “Savage” explorada durante todo o álbum.

A caneta do rapper está tão boa quanto a de seu projeto anterior (que nada se relaciona a essa parceria com o produtor de St Louis) e também do projeto da prévia união dos autores. Savage abusa de esquemas de rima não tão complexos, porém agradáveis aos ouvidos, por vezes, derrapa ao entrar em campos que não domina, por exemplo a tentativa de storytelling em “Steppin on Niggas”. Porém, em conjunto com o parceiro de duo, sabe aproveitar muito da criatividade do produtor ao dispor sua entrega em variações de bateria que a realçam, isso, aliado à refrãos fáceis entregues no projeto, consagra diversas faixas como candidatas a instant bangers. Um exemplo disso está já na abertura onde, desde a transição da “Intro”, um 808 bate muito firme, enquanto o ouvinte é embalado pelo refrão com “Runnin,runnin/ I leave all my cars…/ Runnin, runnin”.

Poucas participações acontecem no projeto, no entanto, elas são suficientes para atrair ainda mais apelo ao disco. São elas: Drake em “Mr. Right Now”, a track mais fora do escopo do projeto e mais comercial, bem como Young Thug em “Rich Nigga Shit”, a que tem a produção com menos ambiente de trap, mas ainda carregada nas costas pelo verso do convidado e também Yung Nudy em “Snitches & Rats”, com o melhor interlúdio que uma faixa pode ter, ao explicar a diferença entre um X9 e um rato.

No que tange a produção, a maioria das faixas não impressiona, apesar de estarem no catálogo do badalado jovem Metro. Tudo soa muito comum e generalista, apesar de bem feito e combinar bem não apenas com a proposta mas também com as variações de deliverys feitas pelo MC.  Há bons momentos de impacto, como já citado na abertura, ou então, ao samplear “Many Men” de 50 Cent, mas, ainda assim, nada que salta os olhos ou que seja muito elaborado. Há também um grande uso de 808s e hihats, das mais variadas formas, mas que, ao fim, soam exatamente iguais – estruturalmente falando – a tudo que está no top 100 da Billboard.

Apesar dessa certa ausência de características mais fortes, o disco caminha bem. Possui muitos sons de festa e propõe um tema fácil de ser explorado ao entregar uma narrativa coesa em que a maioria das tracks, ora por terem um produto similar, ora por se apoiarem na narração de Morgan Freeman, se completam e formam um todo que agrada. Contudo, vale ressaltar que ocorrem aqui algumas faixas que parecem ser refugo do primeiro projeto, retrabalhadas e entregues como novas, o que não quer dizer necessariamente uma queda de qualidade, porém destoam sim do conjunto.

A união de 21 Savage, Metro Boomin e Morgan Freeman nos trouxe um belo álbum. Bem comercial é verdade, porém muito fácil de ouvir, com várias alusões à dita trap life, diversas referências do subgênero e um estilo de produção que, apesar de genérico (por ter sido mimetizado a exaustão), é bem característico ao produtor. Tudo isso torna este trabalho um disco na média, facilmente consumível muito graças a já citada marcante voz do narrador que eleva o nível no projeto como um todo.  “Savage Mode II” é uma tentativa de diversificar e se distanciar da massa genérica que domina as paradas musicais e, na busca por esse objetivo, possui uma performance inconstante ao falhar e acertar em seu trajeto.