Ê, rapaziadinha! Meu vulgo aqui é Orubu e estou trazendo de volta a super necessária coluna Drop The Beat! Aqui a gente deixa o rap e a crítica de lado para resenhar sobre música, beatmaking e produção. No texto de hoje, como já está ali no título, vou falar um pouco sobre o projeto ‘’Da Rocinha 4’’, do Sango. Eu queria fazer algo mais detalhado e dissecar aqui faixa por faixa, mas como a falta de tempo é o mal do século vou me dedicar a fazer um panorama geral sobre o projeto e te convencer que esse álbum merece sua audição. Vambora!

Quem conhece o Sango (e quem não conhece, tá sabendo agora) já está ligado que o cara é um norte-americano apaixonado pelas sonoridades afro e tem alguns outros álbuns dedicados a essa paixão. A característica mais marcante desses projetos é a mistura dessas sonoridades com o hip-hop, trap, drill e afins. Muitos desses álbuns são voltados diretamente para a sonoridade afro-brasileira (principalmente o funk) como ‘’Acima’’, ‘’Sangozinho’’, ‘’De mim pra você’’, etc.

Sucedendo os volumes anteriores, “Da Rocinha 2” e “Da Rocinha 3”, o volume 4 é mais um desses projetos voltados para sonoridade brasileira, a grande diferença é que “Da Rocinha 4” abrange uma mistura de ritmos muito maior do que funk + trap. E é por isso que esse projeto merece sua audição. 

A beleza desse disco está na habilidade que o Sango tem de colocar o funk como possibilidade a ser incorporada a diversos ritmos, além do trap, como samba, UK drill, afrobeat, dancehall e pagodão baiano. Imagina encontrar tudo isso num só projeto sem que pareça uma bagunça? “Da Rocinha 4” é isso. O produtor de Washington tem uma capacidade absurda de misturar dois ou mais ritmos, ao mesmo tempo, ao ponto do ouvinte não saber mais que gênero está ouvindo naquele momento.

Vamos pegar de exemplo a faixa ‘’Dia e Noite’’ (vai lá ouvir, vai. Eu espero). Fazendo collab com o DJ 2L da Rocinha, Sango mistura um funk carioca em 160bpm com trap. A track começa com a percussão característica do funk carioca, congas e atabaques misturados com os pontinhos de voz que são muito característicos do funk RJ. No desenvolvimento da música acontecem mudanças muito sutis que vão sugerindo o trap, como o clap eletrônico que aparece em cada terceiro tempo do compasso de funk, trazendo o ouvinte para um compasso mais espaçado que seria o de trap. Em seguida, entra um 808 bem distorcido, que certamente é mais usual em beats de trap do que em beats de funk, e é nesse elemento que a mistura de ritmos acontece de fato. Em 30s da faixa, a mistura acontece de forma tão homogênea que já não há como definir o gênero musical que está sendo entregue ao ouvinte. O mesmo efeito é perceptível na faixa ‘’Da rocinha to King Drive’’ nela o homem mistura o dancehall jamaicano com funk brasileiro.

A timbragem do disco também merece muito destaque porque é justamente nos timbres de percussão, sintetizadores e samples que Sango consegue fazer qualquer fã de funk, trap ou drill se sentir em casa. Como bom ouvinte de funk, a sensação que tenho é de ir a um lugar novo partindo de um que eu já conheço bem. A mistura de percussão do funk 150bpm com teclados e sintetizadores só confirma o que foi dito anteriormente: O funk como possibilidade a ser incorporada a outros ritmos.

A mixagem do álbum carrega uma característica muito interessante que está presente na maioria dos projetos do homem: A voz mixada como qualquer elemento do beat. Sango normalmente usa samples de voz como elementos percussivos ou melódicos, logo a mixagem dessas vozes não é feita para colocá-las em evidência como nos vocais de uma música de rap, por exemplo, mas em “Da Rocinha 4”, o produtor conta com diversas colaborações de alguns cantores da cena nacional como Luccas Carlos, Jé Santiago etc. Nas faixas em que esses artistas aparecem a mixagem deixa o mesmo espaço pra qualquer elemento da música, dessa forma a voz funciona como um instrumento melódico qualquer, como uma guitarra ou sintetizador. 

O disco tem muito mais coisa boa para ser observada, mas vou deixar essa tarefa para vocês, ouçam ‘’Da Rocinha 4’’ que o trabalho tá lindo demais. Fé com fé!

 

Author: Orubu

Coé, eu falo de beat e produção na rapsh!t