Salve quebrada, Shaq de volta e hoje: D2! Mas mantenha o respeito. O Sr. Peixoto, aka MD2, Mosquitinho, Sinônimo Subversão, aquele Maconheiro ou só Marcelo, nos entregou mais um projeto, seu oitavo trabalho solo de estúdio e já o décimo terceiro de sua extensa carreira (contando colaborações e o Planet Hemp); tendo isso em vista, temos muito material para levar em consideração ao avaliar tudo feito por ele. Hoje em diaem um cenário totalmente diferente do que tinha diante de si quando entrou no jogo, o MC carioca continua apresentando sua arte de maneiras variadas, sempre buscando algum tipo de inovação. Pois então, eis o fato curioso e inovador: Marcelo abriu todo o processo criativo, desde o dia um, para o público pudesse acompanhá-lo via live, gerando assim impressões sobre sua construção enquanto o trabalho ainda estava sendo moldado. 

Apesar de nem todos os MC’s demonstrarem como trabalham (ou se de fato trabalham), como são suas sessões de estúdio e etc, isso não deve ser levado como um peso crucial para o projeto final entregue, pois, a longo prazo, o fato do disco ter sido streamado ao ser composto não influenciará nas opiniões de um ouvinte (como faria um disco ao vivo), portanto, fica aqui os parabéns ao D2 pela inovação, porém, há o disclaimer: isso não será considerado nem como um fator aditivo ou regressivo nesta avaliação. Tendo isso sido posto, sigamos.  

Como um churrasco em um domingo de verão. Essa é a forma que D2 nos recebe com a faixa “Bem Vindo Meus Cria” no início do seu mais novo disco “Assim Tocam os Meus Tamboresque, aliás, tem um belo título de referência a muitas fases da carreira de Marcelo. Uma recepção calorosa e que também atualiza as preocupações do MC com a situação do país em geral; cita também o fato estar isolado em uma situação pandêmica de proporções globais e como isso influencia na criação de sua arte. Ainda, apesar disso tudo, Marcelo nos convida à sua casa e nos dá boas vindas, não com uma track forte e marcante como em “Nada Pode Me Parar” ou com um manifesto como em “Amar é Para os Fortes”, mas sim, apresentando colagens e referências claras de sua vivência de rua. 

Logo após a intro, temos uma mudança brusca de ambiente, em “Rompeu o Coro”. Aqui, podemos apreciar um belo sample de atabaque e uma levada que tira da sonoridade de religiões afro-brasileiras. A produção fica por conta do Nave, que, como já citado, usa e abusa de influências das músicas de candomblé e umbanda. Com versos de BKAnelis Assumpção e Baco Exu Do Blueso destaque principal é mesmo para o MC anfitrião, que carrega o primeiro verso e a track nas costas, sendo auxiliado pelo lindo refrão de Juçara Marçal. A primeira música per se do trabalho seta uma barra muito alta que não é novamente alcançada durante os 38 minutos de reprodução, essa musicalidade que referencia celebrações de religiões afro-brasileiras, com muitos elementos sobrepostos e um refrão de vozes em coro fechou muitíssimo bem com o estilo de D2, que poucas vezes explorou essa pegada na carreira. Podemos observar também uma leve mudança na entrega, que soa bem mais assertiva e agressiva do que o costumeiro e uma dedicação menor na dicção das palavras, influencia que veio dos roles de D2 no samba. Isso deixa muito claro que, por vezes, em produções de compasso mais acelerado que samba, não cabem dicções perfeitas e dessa vez o MC não derrapou nessa curva. 

É chover no molhado dizer que Marcelo D2 tem muito tempo de uma consolidada caminhada e um enorme conhecimento de musica e cultura brasileira. Em projetos como esse, é possível perceber a vastidão dessas influências sobre o MC carioca, desde a apresentação de samples de grandes cantores do passado que ficaram pouco conhecidos com o passar do tempo até a utilização de reportagens de MPB dos anos 70 em recortes para definir o clima de uma track. De fato, os tambores de D2 servem também como uma grande educação musical, como por exemplo em “A Verdade Não Rima”, onde auxiliado novamente pelo produtor Nave, o artista traz à luz dos dias atuais Fátima Guedes, grande cantora do fim da década 70, num recurso que ele já usou em trabalhos anteriores (vide: “Desabafo”, também produzida pelo Nave). Algo semelhante é visto em “4ª as 20h.”, em que um trecho de depoimento policial de Gilberto Gil é usado na preparação para o back-to-back (dessa faixa com “A Verdade Não Rima”) que fomenta uma atmosfera de insurgência com relação ao clima sociopolítico do país e, em contrapartida, exalta a onda provocada pelo cigarro de artista (pedágio obrigatório em qualquer álbum do Sr. Peixoto). Podemos ver uma clara insatisfação com a hipocrisia de uma sociedade cada vez mais emburrecida que se considera dona da razão em diversos assuntos, entre eles, o proibicionismo. A track ainda conta com um dos melhores versos de D2 nos últimos dez anos, provocado pela versatilidade de Ogi e produção de um boombap muito classudo do Kamau, obrigando o anfitrião a subir seu nível. 

 Em “ATOMT”, Marcelo cai no abismo da zona de conforto, repetindo fórmulas batidas ao longo de sua carreira, onde talvez já tenha demonstrado tudo do que sabe fazer. Apesar desta ser uma marca registrada ou até uma homenagem às suas referências do anos 70 – muito bem exploradas – esse aspecto de vinil com lado A e lado B, já foi praticado a exaustão pelo MC. Além de referencias forçadas de samba que por vezes não cabem na proposta ou até saem do escopo. 

Talvez, por apoiar parte de suas criações recentes no audiovisual, D2 tenha deixado de lado um pouco da concisão da sua arte no projeto sonoro em si. Isso faz necessária a sua complementação total, tendo assim uma faca de dois gume: ouça o disco, vista a camisa e veja o clipe, ou não tenha a experiência fonográfica completa. No entanto, apesar disso tudo, o play não é monótono e somos reapresentados a diversas facetas que o MC abdicou-se no seu trabalho anterior, quando possuía um eu lírico distinto.

Ademais das inconsistências apontadas, fato é que D2, por estar já há um período prolongado no mainstream da música brasileira, sabe como dimensionar e administrar um trabalho de rap. Isso fica claro quando vemos (mesmo em uma forma já utilizada) uma construção que conduz o disco estruturalmente. Essa montagem culmina, por exemplo, no fim do primeiro ato em um belo poema sobre mito de criação do mundo da perspectiva congolesa, de autoria do historiador Luiz Antonio Simas, belamente declamado por Criolo. A estrutura casa com a ideia proposta pelo MC e nos carrega pelos diversos pontos de vista de se enxergar o tambor, seja como instrumento musical ou criação divina. 

Além da inovação ao abrir o processo de construção do álbum, temos participações que mesclam escolas. Esses artistas conseguiram se fazer influentes dentro do projeto puxando o anfitrião pra cima, e nesse disco D2 é obrigado pelos convidados a ser mais versátil e apresentar uma evolução na escrita em relação aos últimos projetos. Exemplos claros da subida de nível do veterano são a já citada “4ª as 20h”, quando confrontado pelo também experiente Ogi, ou ainda, para se aproximar dos níveis dos versos de Don L em “É Manhã (Vem)” ou da dupla mais jovem composta por Djonga e Sain na track que fecha o trabalho. Embora essa seja a grande evolução do autor, ainda temos problemas com o delivery e, como já abordado anteriormente, a dicção “muito correta” que, em grande parte das vezes, tira o MC da cadencia e atrapalha o andamento da track; de qualquer forma, também há momentos em que o mesmo mostra uma entrega bem afinada, como na trinca “Rompeu o Coro”, “4ª as 20h” e “Pelo Que Eu Acredito

Posto isso, devemos ressaltar também que, como diz o título do projeto, a intenção é demonstrar as referências do autor e isso é muito bem feito com a utilização de samples e colagens dessas ditas referências. O time de produção é o ponto mais forte do trabalho e foi muito bem escolhido, entregando sons muito diversos e extremamente bem feitos, explorando um espectro bem amplo da músicadesde a pouco conhecida Fátima Guedes, passando pelo consagrado Raul Seixas (salve Barba Negra) e encerrando o disco com um sample de Arthur Verocai, que inclusive já foi utilizado pelo Nansy Silvvs em uma produção para o Baco. 

Num futuro próximo, talvez seja possível, além de um projeto solido e bem feito, um MC considerado da “velha guarda” nos apresentar algo mais pessoal e que seja de grande apelo, mirando em um público mais maduro, tal qual temos  fora. Contudo“Assim Tocam os Meus Tambores”, é um projeto que satisfaz bem, muito fácil de ouvir. Entra na prateleira de cima dos lançamentos de Marcelo D2, ao lado dos já consolidados “Nada Pode Me Parar” e “Eu Tiro é Onda”.  Possui deslizes, mas nada que diminua o replay value das faixas individualmente. Isso é a especialidade do artista: faixas “fáceis”, abusando de samples memoráveis com produções marcantes, e talvez seja esse o grande legado desse novo projeto.