Oi gente, Go aqui mais uma vez! Nos últimos anos, o rapper catarinense Jovem Esco lançou dois projetos fechados: em 2018 a mixtape “Califa Cinza” e em 2019 o EP “Degustando Flores”. O ano de 2020 chegou e com ele tivemos o lançamento de seu primeiro álbum, “Free Esco”, onde, em 11 faixas, o MC transborda sua liberdade acompanhado de uma atmosfera melancólica, criada com base em uma produção repleta de sintetizadores e instrumentais orgânicos de autoria do próprio MC.

A liberdade, sentimento principal por qual o álbum percorre, necessita de uma contextualização. O rapper recebeu a notícia de que vai precisar passar cerca de seis anos preso por conta de uma situação de seu passado, porém, não emitido um mandado de prisão ainda, Jovem Esco está livre para colocar todo esse sentimento de apreensão em sua arte, criando assim “Free Esco”.

É inevitável que, antes do primeiro play, a capa do álbum roube sua atenção. O tom de vermelho extremamente forte e uma clara referência aos óculos de Malcolm X são os primeiros sinais de que seu novo trabalho será cheio de intensidade.

Das 11 faixas presentes no álbum, dez contam com participações de outros MCs, algo atípico para o que estamos acostumados a presenciar, mas que acaba se tornando um elemento de destaque dentro do projeto. Jovem Esco consegue criar uma atmosfera perfeita para que todos seus feats possam explorar o melhor de sua técnica e estética. Exemplos disso estão na terceira faixa, “Glitch”, que conta com a participação de niLL, em uma intro bastante parecida com o que vimos em “Lógos” (álbum lançado em 2019 pelo MC de Jundiaí) e uma musicalidade bastante futurista, com a forte presença de sintetizadores; e também em  “É Hora de Dizer Adeus”, que conta com a colaboração de Victor Moraes, carregada de elementos orgânicos em um tom ajustado para que o convidado performe de maneira bastante fluída pelo beat.

Durante o projeto, vamos encontrar diversos atos do MC e o seu desenvolvimento é um deles. Na primeira faixa, “Blunt de Menta”, que inclusive é a única sem participações, temos a entrega de rimas que resumem bem essas mudanças pessoais:

Desde pequeno me quiseram só pra operário

Sou aguerrido, hoje sou Tony Tornado

Honrando minha família, minha coroa e meu legado

Eles reinando até o aprendizado

O grito de liberdade que ecoa no álbum e reverbera por toda a arte de Esco é disposto em vários versos no decorrer do projeto. Na track “De Lei”, junto de uma lírica destacável, ele transforma isso em elemento fundamental para o conceito proposto dentro do trabalho:

Rap ainda é crime

É a conquista

É a revolta da expressão

Vandal, Musical

Faz real, tua sensação

Nessa cidade sem dono

Nessa noite sem lei

Muito comédia é rei

Mas disciplina é lei

OG segue em silêncio

Conhece o “Homem na Estrada”

Cobras pelo gramado

Ganho asas e me desfaço do chão

Ganho asas, me desfaço do chão

Ganho asas, me desfaço do chão

As faixas passam pela bolha de melancolia criada pelo rapper por meio de suas produções, principalmente, como já citado, pelos sintetizadores que roubam a cena do compilado. “Nada Novo Sob O Sol”, com a participação de Versa, é uma nuvem escura carregada pronta para despejar esse sentimento sobre quem a ouve. Do título da track até as linhas entregues por ambos os participantes, sentimos, a todo momento, essa tempestade melancólica pairando sobre nossas cabeças.

Em “Deserto”, com Zudizilla, temos a música destaque do álbum. Com beat que se vale de um instrumento de cordas para guiar toda a performance lírica dos MCs, ambos em alto nível, entregam uma faixa que te envolve com um turbilhão de sentimentos. No fim, junto de Esco, você também quer dar seu grito de liberdade, e, quando já estamos totalmente envolvidos, o rapper de Pelotas entrega versos potentes, com um flow mais acelerado do que havíamos ouvido durante a tracklist até então.

“Free Esco” peca apenas em faixas que destoam um pouco da premissa do restante. Tracks com temáticas mais festivas, como “Dropa Empina”, cortam a linha de pensamento desenvolvida pelo álbum, além de serem acompanhadas por versos que não soam muito bem, apesar de um refrão que fica na cabeça do ouvinte.

 Pula coelhinha, pula, front na neblina

Força, com carinho, só sentada fina

O cuidado para selecionar e tratar os convidados é tão notável que, não apenas a musicalidade se demonstra adaptável, como também a sinergia entre eles é exorbitante, em “F… Bom”, Esco e Victor Xamã se tornam uma verdadeira dupla de meia e atacante, onde o anfitrião prepara o campo para que o convidado finalize a faixa com suas costumeiras ótimas linhas. Em “É Hora de Dizer Adeus”, track que finaliza o álbum, a dinâmica se repete, mas dessa vez, com Victor Moraes, anunciado em um pequeno interlúdio do dono da casa. O resultado é um álbum que chega ao seu fim com mais uma ótima track e um dos melhores refrãos do projeto: 

É hora de dizer adeus

Pras coisas que ficaram pra trás

No coração só cabe o que é meu

Sei exatamente o que me faz

O que me traz paz e ninguém mais

Correndo as ruas, abaixo do neon

(Um corre aqui e ali) Sempre consta o bom

(Faço a função) Brindo essa contigo!

É notável a qualidade das produções feitas pelo MC de Santa Catarina. Com exímio, demonstrou um belo encaixe dos instrumentos de corda dentro do trabalho, destaque para faixa “Deserto”; e também ocorrem louros aos sintetizadores distribuídos em faixas como “Nada Novo Sob o Sol”, um dos principais elementos para a imersão dentro do álbum, fechando assim com muito sucesso o conceito proposto.

Em um contexto geral, “Free Esco” é um dos projetos mais sensíveis e bem feitos do rap nacional em 2020. Jovem Esco mostra que, ademais de possuir uma ótima lírica, é capaz de rimar em cima de musicalidades diversas que ele próprio produz com excelência, além de conseguir reunir e acomodar um time de grandes nomes para as colaborações. O álbum é um brado por liberdade que ecoa em uma musicalidade muito bem construída, tudo dentro de sua atmosfera melancólica composta por sintetizadores, guitarras e violões. Definitivamente um dos melhores trabalhos deste ano.

 

 

Author: Go

Engenheiro mecatrônico, designer gráfico, amante de arte e tecnologia, apaixonado pela cultura hip-hop e boêmio demais!