Oi gente, Go aqui de novo e, dessa vez, com uma proposta diferente do que vocês estão acostumados a ler por aqui. Vou falar um pouco sobre a identidade visual do álbum “A Rima é Imã Vol.2” da dupla Rato e Ralph.

Não é de hoje que sabemos o poder de influência da cultura de HQs sobre o Hip Hop, sem ir muito afundo na história, conseguimos trazer nomes como MF Doom e sua persona inspirada no vilão Doutor Destino da Marvel, e até as claras referências que o histórico grupo Wu Tang Clan trazia em suas rimas, como na faixa “Protect Ya Neck” integrante do primeiro álbum do grupo, “36 Chambers” de 1993, onde Inspectah Deck cita o Homem Aranha em seus versos.

Em solo nacional, temos diversas outras referências, como a dupla formada por Aori e DJ Babão, intitulada Inumanos, que, para quem não conhece, é o nome de um povo, também do universo Marvel, criado a partir de modificações genéticas dos Kress em seres humanos.

Agora que sabemos o quanto esses dois universos andam juntos, podemos começar a falar sobre a “A Rima é Imã Vol.2”. Toda a identidade visual desse material ficou por conto do grafiteiro Mild, que, com maestria, transforma o enredo do álbum em uma verdadeira história em quadrinhos, com bastante energia através de seus traços.

Logo na arte da primeira faixa do projeto, conseguimos ver diversas referências a um estilo de capa clássico dentro deste universo. Para facilitar essa visualização, vou fazer um comparativo com a clássica capa de “Kryptonite Nevermore” do Super Man de Denny O’Neil, Curt Swan Murphy Anderson (1970-71), ilustração essa que faz parte da década de bronze da DC:

Item 1: A chamada do título com a clássica construção: “As Aventuras de Rato e Ralph” são  dos primórdios das histórias em quadrinhos.

Item 2: Os brasões no topo esquerdo de ambas as artes são referentes às suas editoras que, no álbum, ficou como Colmeia, a produtora cultural responsável pela produção executiva do projeto.

Item 3: A clássica chamada de volume da história, presente na mesma região a qual muitas das HQs traziam em seus primeiros layouts.

Outro ponto destacável presente na capa do álbum é a transformação dos MCs  em seus personagens que viverão as aventuras dentro deste projeto: Ralph vira um apicultor e Rato, bem, virou um rato.

 

Cada faixa do álbum leva consigo uma arte única que aumenta ainda mais a sensação de se estar folheando uma história em quadrinhos, onde os personagens trocam seus figurinos de acordo com o decorrer da narrativa. Todas essas pequenas modificações ajudam na criação do imaginário presente no universo do trabalho. Abaixo, as artes das faixas “RAP é o OM”, “Planeta de Ilusões”, “O Inimigo (RapFlowJazz)” e “Magnum Ops”:

Outras artes das faixas se destacam pelo enorme número de referências a elementos da cultura pop, como “Anos 90” e “Sociedade dos Poetas Livres”:

As tipografias usadas para os nomes das faixas carregam elementos de uma estética comum dentro do grafite, com contornos bem escuros e seus formatos que não necessariamente necessitam de padrões para sua construção, o que liberta o artista para o uso do potencial máximo de sua criatividade dentro do desenvolvimento do projeto visual. Além disso, outro recurso muito usado nos quadrinhos, o uso de onomatopeias, é presença frequente neste material:

A imersão por dentro do universo das HQs é tão grande que não fica apenas em sua identidade visual. Segundo o próprio Ralph, o álbum conta com vinhetas de vozes de personagens com a adição de um Jazz ao fundo como na faixa o “O Rap é o OM” e produções feitas usando a trilha sonora de He-Man. Obviamente, imersas nas próprias letras, também encontramos citações a super-heróis que marcaram a história dos gibis, como na já mencionada “Planeta de Ilusões”:

“Nesse Planeta de ilusões

Madrugada sinistra, ruas, vilões

Quem somo nós?

Heróis ou anti-heróis?

Falo que pra mim defender quem me escraviza dói

Capitão América nada fechei com MF Doom

Me inspirei em Yasiin Bey

Terrorista de um lugar comum (Bum!)”

“A Rima é Imã, Vol.2” é o suprassumo de uma identidade visual construída nos mínimos detalhes, onde ganha seu valor de destaque ao considerar a proposta musical do álbum junto a uma pesquisa muito densa de um universo no qual os MCs transpiram suas referências, trata-se de um projeto visual bem construído que enrique a obra como um todo.

O que acharam da análise? Encontraram alguma referência que marcou a infância de vocês? Até a próxima 🙂

 

Author: Go

Engenheiro mecatrônico, designer gráfico, amante de arte e tecnologia, apaixonado pela cultura hip-hop e boêmio demais!