Salve, JH na área. Rap (e a arte como um todo) é, para muitos, sobre essência. Esse conceito é intrínseco na arte de Tamara Franklin, MC mineira que coloca o que ela é não no plano de fundo, mas em primeira instância, na frente de sua música: mulher afrodescendente diaspórica. Distribuindo raça, etnia e ancestralidade em cada linha e timbre a artista constrói “Fugio”, seu segundo álbum de estúdio.

Esse disco é uma enorme evolução desde o primeiro álbum de Tamara, “Anônima”, lançado em 2015. O álbum de estreia deixava a desejar por soar como um grande compilado de ideias – o que é até certo ponto literal, já que ali estava um apanhado do que a MC, que rima desde os oito anos de idade, havia feito durante sua vida – e pouco conciso, passando por sonoridades e escritas muito distantes. No entanto, o projeto já fez o que possa ser talvez a coisa mais importante em um trabalho de estreia: mostrar ao mundo o talento e potencial do artista, e isso foi certamente visto, sobretudo na excelente caneta. Saindo do debut, a rapper queria construir algo mais coeso, e isso foi totalmente atingido em “Fugio”.

Essa coesão se dá, antes de nada, sonoramente. Nesse quesito o disco é muito anormal para o que vemos no rap, não temos um boombap, um trap, nem nada disso, nem sequer um beatmaker por traz. Com produção de Chico Neves, os instrumentais são extremamente vivos, com uma banda inteira trabalhando em conjunto para cada arranjo. Sem mais flutuações grandes entre diversos gêneros, o foco maior é no Congado, uma festividade religiosa afrobrasileira que dita a musicalidade desse projeto, reproduzida com muita beleza por toda a equipe, aparecendo já na bela introdução que é “Procissão”, que mostra ao ouvinte tanto o plano de fundo da sonoridade quanto da escrita, com a rapper demonstrando com força a revolta e orgulho preto.

O talento lírico de Tamara é colocado em potência máxima não apenas como rimadora, mas também como storyteller. Isso é visto como um ponto alto do álbum logo na segunda faixa, “Cravo e a Rosa”. A narrativa da canção é perfeita, relatando do começo ao fim a construção de um relacionamento machista e abusivo até um final feliz, que, como ser humano educado, não darei spoiler aqui. A instrumentação é linda, carregada por um arranjo de violão de 7 cordas e tambores, dando a dinâmica perfeita pra canção.

“Estupro”, certamente o clímax do álbum, é outra amostra da capacidade da caneta de Tamara. O instrumental inicial, algo mais pra cima, e as letras mais metafóricas são rapidamente substituídas por uma atmosfera mais pesada e direta, de forma a pegar o ouvinte de surpresa. A MC mistura, muito direta e habilmente, o estupro literal que mulheres – principalmente negras, vítimas de 73% dos casos de violência sexual no Brasil – sofrem sempre, com um estupro metafórico, representado pela colonização do Brasil e África (“Dos navios negreiros ao ‘gostosa’ que eu ouço”). A habilidade da MC é muito bem vista também em performance, com passagens rimadas, faladas e cantadas, sempre de forma visceral e emocionante.

Cantar é outra habilidade que Tamara domina muito bem. Em momentos do disco o ritmo diminui e temos faixas cantadas, onde os vocais são lindos. “Da Cor De Deus” tem uma instrumentação mais dramática e vocais simplesmente maravilhosos da artista, que traz uma das narrações mais belas e sinceras de um amor preto real, colocando angústia e paixão lado a lado. Para quem gosta de love song, não tem muita coisa melhor que isso a se ouvir.

O seu olhar me cura então olha pra mim só mais uma vez

Tem algo de ancestral no amor que a gente fez

No amor que a gente faz tem algo de paz

Algo de África. No amor que a gente faz

Memórias ancestrais, sonhos reais, no amor que a gente faz

Tem algo de paz, algo de África

No amor que a gente faz, algo que a gente faz tão bem, tão bem

Meu bem, diáspora

“Fugio” e “Pikena” são outras duas canções mais cantadas, puxando pra um MPB. Ambas se assemelham num instrumental mais calmo, performance vocal mais emotiva e uma escrita novamente muito sincera. A letra da primeira citada traz essa ideia de fuga que perpassa todo o disco, de quem quer fugir de traz da janela e ter tudo o que é negado ao povo negro neste mundo; a segunda é um belo tributo a Thalita Franklin, irmã da MC que faleceu aos 15 anos, em 2011, que é engrandecida pela participação de Dona Bete, mãe delas. As duas faixas servem como amostras de que Tamara é uma artista muito versátil, tendo bons resultados com diferentes abordagens.

“Saúde Pras Irmãs” é outro destaque em termos de rap, sendo, por sua estrutura e instrumentação, uma canção extremamente viva. A intro (que se repete na saída) e refrão funcionam com instrumentais que lembram o resto do disco, mas contando com scratches, baterias mais fortes e sintetizadores (que parecem com uma fase do Mario), aqui temos batidas que se aproximam pela única vez de um rap convencional. Isso se dá para acomodar os feats, executado de forma excelente com cada um dos 4 MCs (Franklin e os três convidados, Colombiana MC, Neghaum e Iza Sabino) tendo um beat diferente para rimar em cima, numa espécie de posse cut em que basicamente cada um dá a sua interpretação do que deveria ser dito a partir do refrão. Destaque maior vai para o excelente verso de Iza, que pega fogo no meio do caminho e “ganha” a track.

O nível raramente cai no disco e nem assim entrega canções ruins. “Encosta Na Parede”, que é precedida pela excelente poesia crítica “E A Cris Vianna?”, entrega uma escrita muito superficial e menos madura que todo o resto, o que se explica pelo simples fato dela ter sido escrita quando Tamara tinha 14 anos, idade para a qual esse nível de composição é de fato acima da média. A canção é salva pelo excelente flow da rapper, um refrão muito bem cantado e por ser completado pela ótima participação de Berê MC, que tira suspiros e risadas em um curto espaço de tempo. É o tipo de faixa que, com esse instrumental, seria uma excelente canção para ser vista ao vivo. “Dona Do Ilê” é uma faixa que vem pra encerrar o álbum em num clima um pouco mais alto e até consegue, com uma instrumentação mais puxada para o funk e fechando o círculo com a religiosidade que abriu o disco, mas nada de grande destaque acontece por aqui.

O saldo final é muito bom, com pontos altos muito acentuados e até mesmo seus pontos baixos sendo elevados. Para além disso, “Fugio” é mais do que a soma de suas partes, sendo uma obra muito boa conceitualmente, com faixas que exploram de diferentes formas a ideia de fuga para algo melhor (o título traz a grafia antiga da palavra “fugiu”, que era usada para denunciar escravos desaparecidos), tendo a negritude como pedra central dessa construção.

Longe dos holofotes e do hype, Tamara entregou um dos melhores trabalhos da música brasileira como um todo neste ano. Se de vez em quando é necessário uma pancada para lembrar de quem o rap é, em sua essência, “Fugio” é um taco de beisebol, entregando um álbum sincero, coeso e completo. Não vemos com muita frequência projetos que mostram, do início ao fim, que tudo ali feito veio da alma, então, quando encontramos isso, temos de aplaudir. E aqui estão os nossos aplausos.

 

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @_jhermogenes