Salve, JH de novo por aqui. Vindo da Bahia, Jovem Dex surgiu como um verdadeiro fenômeno no trap nacional com milhões de visualizações logo em seu primeiro single, “NAV”, e uma legião de fãs antes mesmo de completar a maioridade. Depois, mais outros diversos singles dropados, vários hits, destaque no maior festival de hip-hop do país e um grande público formaram indícios de que é chegada a hora para se firmar com um projeto real e, antes de seu álbum, veio seu primeiro EP. O problema é que o trabalho faz mais mal do que bem seguindo essa direção.

A caneta apresentada na maioria dos singles iniciais deixava muito a desejar, do tipo que não dava para passar batido, com rimas ruins que muitas vezes nem sequer eram rimas ou faziam sentido. Isso se viu em tracks como “Al Capone” (quero Sprite/ Aumentar os quilate/ Quero iate, girar essa cidade) ou na ridiculamente escrita “Tango”, que ainda conta com um péssimo feat do Predella, na qual o refrão diz “Tango, tango/ Balança a raba pros manos”, nos fazendo questionar se eles realmente sabem o que é tango. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que no estilo musical de Dex a caneta não é realmente muito importante, e ele demonstrava algum potencial nessa área, com one liners inteligentes e engraçadas aqui e ali, por exemplo, em “Fendi” ou na boa “Money”, talvez sua melhor canção até aqui.

Também não é difícil entender o apelo da sonoridade de Dex, principalmente para um público que tem a mesma faixa etária que ele. A cena mais comercial do trap nacional geralmente puxa seu estilo para algo mais melódico e Dex traz um nível de energia muito alto e uma noção para refrões que certamente dão bons hinos de festa, além de ser um excelente performer. O problema é que quando essa energia do artista desaparece não sobra realmente muita coisa interessante nele, e em “TRAPLIST” ela pouco deu as caras.

O projeto começa com “Visionário”, track de verso único de um beat soturno que gira em torno do mesmo loop de piano o tempo inteiro. O rapper tem um tom mais contido e segue num flow lento de trap bem genérico, mas, sem um refrão para aproveitar, a música acaba indo e vindo sem chamar muita atenção, a não ser por botar mais luz nas letras que são fracas e desfocadas.

Ao longo da primeira faixa e do EP como um todo, Dex não consegue manter um pensamento por mais de 4 linhas, recorrendo às buzzwords do trap enquanto quase sempre transita por quatro temáticas gerais: uso de drogas, namedrop de marcas (de carros, moda ou bebidas), o fato dele fazer muito dinheiro e a sua predisposição ao uso de violência. Isso é padrão até entre grandes nomes do trap, mas estes conseguem ao menos dizer algo e focar em uma delas, já Dex pula de uma temática para o outra em questão de segundos.

“Bala Azul” é um pouco melhor, com beat e performance animados, seguindo uma clara inspiração em Young Thug, sobretudo no divertido refrão. A performance vocal, embora não seja muito agradável, é bem passável graças ao flow divertido e mais enérgico do que na canção anterior, escondendo até a fraca escrita. Mas, no final do 2º verso, quando diz seguidas vezes que “ele é o cara” a sua voz fica mais proeminente em oposição ao resto da canção, o que destrói o momento; o mesmo se dá na saída com a repetição de “voz de talismã” (que porra isso quer dizer?).

Temos na terceira faixa “Rolex”, um pouco mais calma e facilmente a melhor do projeto, principalmente por ser carregada pelo convidado, Leozin. O verso do MC carioca é realmente bom e se destaca mais ainda quando comparado ao restante do que temos no EP. Sua voz, mais grossa e muito mais agradável de ouvir que a do anfitrião, é uma boa brisa nesse disco, e só a capacidade de manter a mesma ideia ao longo de seu verso já o faz melhor que todo o resto, com destaque à sua fala no início (Tudo errado/ Tudo wrong/ Enquanto ela mama/ Ouço Wunna), porque é realmente errado ouvir esse álbum do Gunna em qualquer circunstância mesmo. É horrível. O verso de Dex é também o melhor dele no disco, com uma entrega mais forte, boas mudanças de flow e algumas linhas realmente engraçadas (“Nego, meu dentista só trabalha com diamante/ Eu pego essa mina/ E deixo ela igual um hidrante”).

Falando em graça, o disco é encerrado com a hilária “Chanel”, que tem o único beat realmente acima da média nesse trabalho. Infelizmente é preciso dizer: a canção é engraçada porque estamos rindo do Jovem Dex, não com o Jovem Dex. A coisa já começa bem cringe na intro, parecendo uma daquelas sátiras de trap, mas aqui não é esse o caso:

Yeah, yeah
Yeah, yeah
Oh, yeah
Yeah, yeah
Yeah, oh
Yeah, yeah
Wow, yeah
Wow, yeah
Yeah, Wow
Yeah, yeah
Wow, yeah
Wow, yeah
Wow, yeah

Depois disso tem o refrão que é só uma infinita repetição da palavra “Chanel”, uma marca registrada do artista, mas sem o mesmo carisma que temos por exemplo em “NAV”. Seguindo, é difícil não rir logo no primeiro verso:

Duas Glock’ no porte
Rá-tá-tá-tá-tá-tá-tá
Deixo a firma bem forte
Grana é bem fácil lucrar

Ao longo de sua execução, a faixa segue uma sequência de linhas totalmente genéricas, ao parecer que ele apenas pensou na palavra mais óbvia que rimaria com a linha anterior sem se importar com o sentido. JayA Luuck faz do 2º verso algo que só se sustenta por tão fraco ser o primeiro, mas nada de muito bom acontece ali, seguindo a mesma ideia de “só precisa rimar, tanto faz o que é”; isso fica claro quando vemos no final do verso ele dizendo “sou preto rico igual Obama”. Sinceramente, quando Obama foi uma referência de homem preto e rico para alguém?

A gente tanto critica Sidoka, mas pelo menos ele tem um estilo próprio (mesmo que extremamente saturado), um carisma inegável em suas canções e um bom ouvido para beats (usados), o que é o mínimo, mas não é atingido aqui. Ninguém espera de Jovem Dex ou de alguém da sua linha estilística uma caneta afiada e grandes mensagens, mas ao menos escolha um belo beat, nos dê um refrão memorável, nos dê um flow criativo, e não o oposto disso como foi feito em “TRAPLIST”.

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @_jhermogenes