Salve, JH na área e, se me permitem, eu tenho algo a dizer. Quando vi pela primeira vez que havia saído essa releitura de uma das canções mais clássicas da história do país, “Voz Ativa”, por Dexter, Djonga e Coruja, pensei “po, isso merece um single review”. Mas, vendo repetidamente o clipe e ouvindo a track, ficou claro para mim que esse som era algo mais.

Em 1992, quando a versão original saiu no EP “Escolha O Seu Caminho”, segundo trabalho do Racionais MCs, a zona sul de São Paulo era literalmente o lugar mais perigoso do mundo. Em meio à criminalidade e ao racismo, o rap nacional se criava como forma de protesto, como voz daqueles que não possuíam uma. Mesmo que houvesse espaço pra sons mais descontraídos, divertidos e com outros propósitos além das mensagens sociais desde o início da cultura no país, este não era o foco do rap nacional e não chegava perto de ser a maioria do que se produzia.

Na década de 90, a cena nacional seguia um caminho em bifurcação com o que acontecia nos EUA: o gangsta rap de N.W.A e Ice-T (entre outros) levou o hip hop ao grande sucesso comercial, batendo de frente com rock e pop. Baseado na exaltação à criminalidade, ao tráfico e às conquistas (materiais ou não). Essas abordagens não eram replicadas em massa aqui, onde seguíamos usando o rap majoritariamente com os ideais anteriormente citados. Hoje, em 2020, a gente vê um caminho inverso ser trilhado.

Antigamente, dizia-se muito que “o rap não é bagunça”, mas atualmente isso não passa de uma mentira. Eu (e esse site como um todo) fico bem longe de ser um “guardinha”, mas, numa época em que estamos vendo tanta merda acontecer, ficamos muito tempo dando corda para discussões sobre quem foi o primeiro a se apropriar de alguma estética estrangeira, para repetição do maior número de gírias estadunidenses possível numa música e demais coisas pouco relevantes, enquanto não se dão os louros aos nossos verdadeiros pioneiros.

Sobre a música, Coruja disse: “Dexter e Brown escreveram páginas muito bonitas na história do rap. Foram páginas que eu li muito. Sempre que eu vou escrever algo, tento olhar para essas páginas que me inspiraram”. Se pergunte: de onde a maioria dos MCs da atualidade tiram inspiração? Daqueles que deram a fundação para o rap nacional ou de trappers gringos que tem uma estética comercial? Muito se pede para “valorizar a cena nacional”, mas esta ao menos valoriza a cena que a antecedeu? As respostas que eu daria a estas perguntas não são agradáveis.

O clipe de “Voz Ativa 2020” retrata imagens fortes, protagonizadas por gente preta e situações que o nosso povo conhece. O rap, como cultura, sempre foi uma forma de expressão desse povo, pois ele é, antes de mais nada (embora alguns não gostem de ler isso), um dos principais braços da cultura negra. Sua limitação à apenas um gênero musical da cultura pop tira de vista tudo o que foi construído, as vidas que mudou e o quanto ele foi importante para o povo preto no Brasil para que se dê espaço a qualquer humorista, ator pornô ou playboy branco com dinheiro o suficiente a fim de conseguir relevância.

Obviamente, há sempre espaço pra diversão, para músicas românticas ou quaisquer trabalhos que não sigam o caminho do que se fazia nos primórdios da jovem história do hip hop no Brasil. Isso não é, de forma alguma, um texto contra trap, drill ou qualquer coisa do tipo. É muito relevante a pluralidade de ideias, subgêneros, estéticas e formas de ver a música e a cultura, desde que essa arte seja feita com respeito e valorização pelas bases do hip-hop, e não ignorando-as por completo enquanto os únicos objetivos do que se faz são realizações pessoais. Tem muita gente aqui, como por exemplo Ebony, Vandal e Febem, seguindo essas vertentes enquanto possuem noção de suas responsabilidades e que demonstram apreço por tudo o que foi construído, mesmo que não sigam as mesmas bases artísticas.

Uma das problemáticas é que na cultura de massa as formas de arte são esvaziadas de significado e há uma preocupação excessiva com sua forma. Aqui, inclusive, nós da Rap Sh!t fazemos parte disso, por vezes focando demais em outros aspectos. O hip-hop é uma cultura enorme, importantíssima, e ultimamente o foco da cena tem sido apenas no lado artístico, o que abre caminho para irresponsabilidades e apropriadores. Os Gu$tavo$, Djonga e Coruja, mesmo que sejam passíveis de erros (como todos são), carregam o DNA do hip-hop nas veias, e suas participações nesse som são só mais uma amostra disso. Precisamos de mais pessoas como eles e menos Fabios Brazzas, Murilos Coutos, Japas ou quaisquer estrangeiros que venham apenas para surfar no nosso hype.

Dando um pedacinho de crítica do som, já que é o que os nossos leitores estão acostumados, a música é excelente e deve ficar em qualquer lista de melhores sons do ano. O beat, refeito para ser algo mais conectado com a sonoridade atual, seria destaque mesmo sem o contexto histórico. A percussão é perfeita, o baixo se faz muito presente no fundo e a corneta e scratches são encaixados com maestria na track, o que é raro e difícil de ser feito em 2020, mas quando bem feito temos excelentes beats.

Os back and forths entre os MCs rolam com muita química também, fazendo jus aos feitos durante toda a história do Racionais. Os convidados encaixaram muito bem nos espaços dados, com destaque pra entrega mais “raivosa” de Coruja em seu verso, roubando a atenção pra si em sua curta passagem. Os depoimentos dos artistas no fim só tornam a obra mais carregada de significado, sendo um som memorável e uma chamada de volta à realidade. A cena inteira deveria ter parado para esse som.

“Não podia fazer isso sozinho. Me preocupo muito com o futuro, com o que está acontecendo com aquilo que veio da periferia e é nosso. Isso me despertou o interesse em resgatar algo do passado que pudesse conversar com as pessoas sobre a responsabilidade de ser e fazer”. As palavras de Dexter são importantes para nos lembrar que o hip-hop não nasceu em 2010 e não é posse dessa nossa geração que tem até 20 e poucos anos. Se formos copiar algo da cena estadunidense, é bom lembrar algo: os antigos são muito mais valorizados por lá. E quanto mais perdemos isso, mais difícil fica dizer que ainda temos Voz Ativa.

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @_jhermogenes