Ascencio aqui. “Your reign on the top was short like leprechauns”, desde que Big cuspiu essa barra na lendária “Kick in the door” de 1997, Nas mesmo que indiretamente tenta provar o contrário, não bastando a fortuna crítica póstuma ter elevado seu “Illmatic” ao topo dos clássicos da cultura em detrimento de outros grandes títulos, inclusive os de Notorious. Os ecos dessa poderosa linha, aparentemente, reverberam na carreira do MC de Queensbridge em toda essa autoafirmação imperial e culminam em “King’s Disease”, seu décimo terceiro álbum de estúdio.

Gota, a doença dos reis, relacionada aos excessos de luxúria e gula por tratar-se de uma intoxicação de chumbo presente em alimentos e no vinho, causou problemas a grandes nomes de nossa história como Alexandre, o Grande, Carlos Magno, Leonardo da Vinci e Julius Rock, o pai do Chris. Ao tratar sobre essa temática, Nas procura se elevar a tais personalidades e superá-las, já que demonstra ter sua própria cura. Para isso, se vale muito da nostalgia enquanto tenta, dessa vez de forma mais simplista (o que é positivo) e superficial (algo já mais negativo), distribuir aos seus ouvintes uma série de mandamentos e conselhos que os façam seguir o mesmo caminho vitorioso.

A produção conta com o nome principal do extremamente bem sucedido Hit-Boy e, sem sombras de dúvidas, trata-se da melhor escolha em anos feita pelo MC, sempre criticado pelo seu Toque de Midas reverso para os instrumentais. Longe das amarras de Kanye em “Nasir”, um projeto com ares de feito às pressas e assincronia entre vocais e bases, aqui, rapper e produtor conversam mais entre si em belíssimas produções de atmosferas clássicas.

A faixa homônima abre o projeto em um convencional papel de statement. O ambiente musical é fino e minimalista: soul hip hop, loops e bom espaços para uma métrica confortável. Nas assume seu ponto alto de onde fará amplas observações com seu já conhecido bom repertório de multis enquanto aborda temas como longenvidade, sucesso e problemas. O início se relaciona ao desfecho mais pela semelhança de abordagem e estética. Apesar da intro possuir o nome da doença e a track final carregar em seu título a cura, o MC falará sobre ambos os extremos de forma mais direta em um terceiro ponto do projeto. No entanto, “The Cure” representa não sua definição em si, mas o estado benéfico em que se encontra alguém curado. Uma produção maravilhosa que varia pitchs de mais um sample de soul em recortes belíssimos, a bateria chega completa para o beat switch em seu meio tempo com Nas atento às mudanças adequadas de suas linhas, acelerando-as ou reduzindo-as. Voltando ao tema do início, Nasir reflete de forma confiante sobre sua carreira e discorre sobre o cabo de guerra entre ser fiel à sua arte e atender as demandas de mercados, com linhas a um opositor subliminar que cedeu à segunda tendência. A ligação entre o começo e o final ocorre em “The Definition”, um Synth Funk com mais soul, metais e pianos distorcidos. Em um flow mais rápido de boas sílabas, o rapper irá definir tanto a doença quanto sua cura, esta se encontra na sua própria arte, enquanto aquela, habitará os prolíficos, como ele próprio demonstra ser.

Além da relação início-fim, existem mais três núcleos: o saudosista/nostálgico, o racial e o romântico. Enquanto bem demarcados garantem um saldo positivo, quando se espalham para outras faixas, compartilham de um mesmo problema. O terreno passadista é explorado em três momentos: “Blue Benz” irá tratar do luxo e violência do universo gangsta dos anos 90, o instrumental se inspira no jazz e alterna na ocupação de espaço entre piano e bateria de forma talentosa; “Car #85” é de produção mais lenta com tudo que uma atmosfera clássica tem direito: progressão de piano, baixo para o groove e bateria chiada, criando um espaço satisfatório para o storytelling de Nas sobre o dia a dia das ruas em sua adolescência, a trama é amarrada pelo serviço de taxi que também era usada para manter o mundo do crime em NY. Além de tudo isso, Charlie Wilson brilha com adlibs mais melódicos nos espaços dos versos, e desenvolve de forma satisfatória refrão e outro; “27 Summers”, apesar do tema, com direito a adlibs de “ice” e tudo, se diferencia completamente na estética em sua roupagem contemporânea do trap — em muito remete a algo feito na parceira com Kanye, principalmente no que diz respeito à mudança timbres e melodia dos refrões. O trunfo da track é não se prender somente ao passado dos 27 verões que separam “Illmatic” do novo projeto, mas também refletir sua vitória em prosperidades presentes.

Passando ao recorte racial, “Ultra Black”, single do projeto que exalta temas como “Black Excellence”, “Black is Beautiful” e “Pro-Black”, é uma das melhores faixas do álbum. Totalmente upbeat com uma bateria orgânica e poucas, porém pontuais, notas de piano para demarcar meio e fim do compasso. O que é um ótimo recurso, pois, para acompanhar o instrumento e ao mesmo tempo dar mais força a suas rimas — menos elaboradas aqui — Nas também quebra sua métrica colocando rimas internas e pausas para ambas as entradas do piano, esse é um dos raros momentos do projeto onde o rapper apresenta uma variação de flow realmente considerável, adequando-se ao instrumental e não o inverso. A mesma atmosfera “pra cima” ocorre em “10 points”, com Hit-Boy em seu habitat natural dos bangers, além disso, ótimos metais complementam e acompanham uma entrega do MC que flui naturalmente enquanto a track se desenvolve ao quebrar mitos sobre a vitória do homem negro, com boas linhas de duplo sentido entre cultura pop, streetwear e o mundo das drogas.

When you catch flack, that mean they got they eye on you
Produce great results, they start to lie on you
Is it love for a Queens dude in Supreme shoes
Or did the street code expire with these dudes?

Por último, “Thil the War is Won”, traz a exaltação do lado feminino representado pela necessidade de se valorizar mães pretas, principalmente diante da continua e triste realidade de mães solteiras. A produção volta à estética atual, e para isso conta também com a participação de Lil Durk apresentando rimas aceleradas e espaçadas imersas em autotune, o que proporciona um bom respiro de novidade ao ambiente das entregas, que pouco varia no repertório de Nas.

Enquanto sua faceta amorosa, o álbum apresenta “Replace Me”, “All Bad” e “Full Circle”. Todas falam basicamente sobre uma mesma perspectiva negativa dos relacionamentos, sendo “All Bad” a melhor delas, um Jazz Hop maiúsculo de mais uma bateria viva e orgânica e duas linhas de piano modulando seus pitchs ao mesmo tempo que dispõe suas notas em espaços bem distribuídos; cada sonoridade parece parece em seu lugar ideal.  Como se não bastasse, ainda conta com Anderson .Paak  em mais uma participação exemplar no currículo do artista, variando seus flows entre refrões e verso. “Replace Me” introduz Don Toliver entregando um simples e bom refrão em um instrumental delicado, e Big Sean com um inesperado bom verso. “Full Circle”, por sua vez, conta com a reunião do, até então não muito bem sucedido, grupo de Nas, The Firm, em um possecut de reflexões amorosas. Az, Foxy Brown e Cormega se juntam à faixa que ainda conta com uma participação não creditada de Dre ao final.

O grande problema, citado previamente, se trata da recorrência exaustiva das mesmas temáticas, não quando ocorrem em faixas específicas com o intuito de serem desenvolvidas, mas sim quando usadas de força argumentativa em pequenas passagens aqui e ali, esse artifício contribui negativamente de algumas formas. A primeira e menos problemática reside na baixa originalidade e mesmice do longo material, já somada à certa calmaria do próprio rapper. Por exemplo, não há problema em ser nostálgico em pontos específicos, mas, a recorrência ao passado é tão usada no projeto como um todo para validar uma grandeza presente, que chega a ser cansativo. Agora, tudo fica mais sério quando a superficialidade dos mesmos temas ocorre em pontas soltas, tal como numa mesma linha é valorizada e diminuída a inteligência e pioneirismo dos povos africanas:

The stupidest part of Africa produced Blacks that started algebra
Proof, facts, imagine if you knew that as a child, bruh

Ou ainda, quando o MC se aproveita da temática da mulher negra para, da forma mais absurda possível, ter a coragem de, por meio de um adlib, negar as sérias acusações de violência doméstica direcionadas a ele:

Single mothers, my heart’s bleeding for you
These coward men, that were beating on you (Never me)

O tópico da exaltação das mulheres, visto por essa ótica externa, soa consideravelmente forçado. Esse sentimento é representado perfeitamente pela sequencia amorosa, de temática e performances batidas de Nas, principalmente no que diz respeito a “Full Circle”. Na track, Foxy Brown, única integrante feminina, quebra todo o estereótipo criado até então, de mulheres e relacionamentos, e parece rimar em uma música diferente,  quando, como ímpeto, fala sobre sua força feminina no rap.

Em “King’s Disease”, quando o MC se propõe especificamente a um tema e, de forma mais simples, transmite conhecimento aos seus fãs, mais acerta do que erra e se sobressai positivamente. Porém, quando se vale desses assuntos em momentos diferentes com linhas superficiais, erra feio além de contribuir para uma repetição exaustiva tornando sua tracklist mais morna. No entanto, a ótima produção de Hit-Boy se acrescenta aos pontos altos do MC, firmando o seu melhor trabalho desde “Life is Good”. Ainda assim, uma grande questão paira: para alguém da grandiosidade e impacto de Nas, isso é o suficiente?

Author: ascencio

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