Salve pessoal! Voltamos com o terceiro episódio da nossa série, onde apresentamos a vocês o que de melhor surgiu no nosso radar recentemente (aliás, mande seu material para nós em therapshit001@gmail.com). Dessa vez, trazemos mais quatro artistas que muitos podem não ter ouvido falar, mas que, definitivamente, merecem atenção. Não perca a oportunidade de realmente descobrir talentos brutos do Rap Nacional, podendo acompanhar seu processo de lapidação desde o início.

Isaac de Salú – Assembleia de Eu’s (Álbum)

Isaac de Salú é um homem de agradáveis surpresas. Seu novo álbum, “Assembléia de Eu’s”, lançado no final de julho, atinge-nos por baixo com grandes qualidades. A começar com seu incrível lirismo, mostrando uma habilidade nata ao segurar uma caneta e simplesmente rimar. E, para acompanhar sua bela poesia, nada melhor do que todo o potencial de Isaac de se entregar a arte e nos mostrar um performance rica em sentimento. Tudo acaba sendo incrivelmente comunicável, desde as palavras até a entonação que as ganha. E, se a qualidade do trabalho é cativante per si, tematicamente, nos sentimos imersos nas dores e dilemas do eu lírico, ganhando tons amenos de uma retidão que apesar de toda tristeza, ganha força na arte.

O auge do álbum é realmente Isaac e seus sentimentos. Todavia, os beats ainda possuem bons momentos e melodias. O disco ainda possui, graças à produção, uma textura tradicional do underground, dando um clima nostálgico às faixas. Não obstante, o jeito de compor do rapper consegue colar a essa atmosfera, criando um resultado que, mesmo que abuse desse sentimento que passavam os raps ainda nas primeiras explorações da internet, ainda não deixa de soar contemporâneo. Pois bem, Isaac de Salú é um homem de agradáveis surpresas.

-Z

Linguini – O Imperfeito Cozinheiro Das Rimas Deste Mundo (Álbum) e Pique Pitbull (EP)

Técnica. Essa é a palavra chave nos projetos do prolífico rapper Linguini, que se notabiliza por um trabalho minucioso em diversos aspectos, trazendo uma sonoridade que dificilmente vai desagradar os ouvidos de qualquer ouvinte. Fruto da luta estudantil, o MC derrama seu pensamento crítico acerca do governo e noções sociais em meio a linhas muito bem escritas, com uma incrível capacidade para rimar usando diversos esquemas e cadências. Alia-se a isso à capacidade de se encaixar em instrumentais diversos, passeando do violão, mais presente no álbum, ao grime e funk, mais notáveis no EP. Temos aqui um dos mais promissores talentos da incrível cena belorizontina.

Tendo no álbum seu melhor trabalho até aqui, o rapper impressiona pelo uso perfeito de suas referências, seja mordendo flow de Baco, com uma execução até melhor em “Luanda”, interpolando Djonga em “Rompimento” (“me perguntaram porque emagreci tanto/Mano, tô correndo atrás do dinheiro”) e, principalmente, usando a sonoridade brasileira do século passado na produção (que é tão boa quanto a performance do MC, carregada pelo mesmo sob o vulgo de Madling), tendo beats compostos em cima de grooves, funks, violões e vocais típicos da MPB. A suavidade com que os flows passeiam por estes instrumentais é ainda mais impressionante se comparado à potência dos mesmos no EP, mostrando mais ainda sua versatilidade e talento para rimar em diversos assuntos.

Aliando essas qualidades técnicas a um notável carisma em flows e escrita, que abusa de wordplays e bom humor (explorando muito seu vulgo que remete ao famoso cozinheiro da Disney), com um aproveitamento muito acima do que se costuma ver em MCs que seguem por este caminho. O que quer que o cozinheiro nos sirva, merece uma atenção especial.

 

-JH

MP VRP – Renascimento (EP)

Diretamente do Ceará, MP VRP entrega em seu primeiro EP motivos de sobra para que os olhares da cena se voltem a seu trabalho. Com 5 faixas, o MC entrega um projeto coeso e amarrado em todos os pontos, desde a sua performance técnica até no quesito produção musical, este que ficou por conta do produtor Apo.llo. Em Renascimento, viajamos dentro das vivências pessoais e musicais de Marcos Paulo, onde questionamentos sobre a cena musical  são frequentes em seus versos, da mesma maneira que nos habitua em meio à sua própria realidade. Toda essa entrega pessoal é agigantada com seu poderio técnico de rimas e um repertório de ótimos flows. 

Desde o primeiro play na faixa “Suspiro” até a chegada ao fim com “Um Brinde a Luta”, entramos em um projeto de renascimento do próprio MC perante sua arte. A maneira com que ele performa diferentes musicalidades dentro do próprio EP é notável, por exemplo, em “Maior que seu Hit”, onde encaixa seus versos em um instrumental mais agressivo do que em outras faixas do trabalho, além disso, entrega ótimas rimas na parceria com o MC Brabo MRC em “Faca nas Costas”, fatores estes que demostram uma evolução notável em relação a seus singles lançados há alguns meses atrás. Definitivamente, MP VRP entrega um trabalho maduro, onde se entende como artista e, principalmente,  não deixa brechas para questionamentos sobre a qualidade de seu trabalho. Infelizmente, com apenas 5 faixas, ficamos com aquela sensação de “quero mais”, porém não deixa de ser material suficiente para que possamos ver muito potencial a ser explorado neste artista, bastando apenas portas abertas para que essa qualidade musical possa percorrer Brasil afora, ainda mais.

Warllock – Nova Escala, Pt. 1 (EP)

Rafael Warllock é extremamente característico com sua arte. “Nova Escala, Pt. 1” representa a irrupção do MC para ares mais pessoas e delicados. O EP mergulha relacionamentos, representatividade negra e LGBT+ , braggadocious e reflexões sociais em introspecções que dão ao projeto a cara de seu idealizador. Um dos pontos fortes do rapper neste novo trabalho é não fazer de pautas delimitadas, como sua sexualidade ou sua identidade racial, os únicos elementos responsáveis por representarem sua mensagem. Tudo isso está presente, sim, como em “Inutensílio & Limitância” e “Tipo Blunt” com feat de AriEX, mas Warllock pretende rumar em direção a um discurso onde possa assumir todas as suas idiossincrasias de forma natural e, partindo destas, se libertar de uma cartilha específica para descrever seus medos, inseguranças, críticas e vitórias também.

Do lado técnico, sua caneta é atraente. O MC florianopolitano possui sílabas interessantes quando se propõe a brincar com as palavras, como é visto no braggadocious de “Minas” com participação de Halfeteros e da galera da 0800 Crew. Suas letras, com uma frequência muito bem vinda, trazem metáforas que vão desde referências ao universo pop da música, quadrinhos e videogames, até a cultura brasileira dos anos 00’. A entrega de Warllock possui seus louros também, pois constitui-se de nuances que são explorados de forma suficiente para tanto transpassar delicadeza ao que está sendo dito, nos momentos mais melancólicos, casos de “Cinzas Pela Janela” e “Rubro Rio”, quanto cortar de forma aguda na velocidade de flows mais agressivos.

Em suma, “Nova Escala, Pt 1” buscar pintar um mundo de cinza, embebido por intimismos que irão oscilar as temáticas que se prepõe.  Com isso, nada mais justo que a track “Contas” feat Allure Dayo e Zara Dobura para encerrar o projeto todo neste arremate. Como resultado final, Warllock nos apresenta um EP mais sombrio e convidativo  que, acima de tudo, não tem medo de se expor.

 

-Ascencio