Eu sou o Marco, – ou Marcola. Colunista do @raplogia, fotógrafo documental e maior fã do Madlib em territórios nacionais. Tenho escrito e estudado o hip-hop desde 2016, embarcando em assuntos pouco falados pelos sites e público, que vocês podem acompanhar pelo meu Twitter, Instagram e Medium, além, é claro, dos conteúdos divulgados pelo Raplogia.

 

Quarenteners do Brasil, uni-vos!

Em tempos de isolamento social, aqueles que da rua extraem sua arte e (sobre)vivência têm ficado em pânico com a falta que fazem as noites regadas a diversão e aglomerações. Mas o vazio também é inspirador, e, quando o relógio marca o passador depois das 3h, o que se vê são apenas carros, estrelas, sonhos, reflexões e ruas vazias. Foi a partir destes elementos que, em 2007, o falecido MC Shawlin iluminou avenidas, mentes e ouvidos com a obra-prima “Ruas Vazias”, – clássico absoluto e disco fundamental para quem deseja entender o rap nacional para além de cyphers acústicos e tuítes sem nexo.

O disco foi concebido como uma autobiografia. Quando pensamos em rua, o que vem à mente são pessoas, personagens, lugares e sentimentos. Pensamos no Outro. Diferente de outras obras sobre este tema,  como “Ritmo e poesia”, onde Renan Samam narra a rua e todos os seus elementos vivos – Shawlin se coloca como assunto principal em cena. Em “Ruas Vazias”, a ordem do dia é Shaw e sua busca incessante por ser visto, admirado e respeitado. 

A introdução do álbum deixa duas coisas muito claras: a produção não será algum boom-bap comum e o esforço que Shawlin desprende no disco não será em vão. A independência da qual o MC se orgulha é peça chave para entender alguns de seus maiores triunfos e decepções, no maior estilo “escrevo letra e produzo, melhor pra mim eu deduzo”.

Durante todo o disco, Shaw usa e abusa do eu-lírico e a narrativa que se segue traz um garoto cheio de orgulho, fé, erros e acertos. Essa é a explicação para o álbum ter poucas participações, sendo assim uma narrativa completamente pessoal. Pelas ruas da Lapa, Shaw conta sobre seus passos pelos bares, mentes e corações, compreendendo o jogo do rap que tanto lhe foi fiel e traidor – o que não significa a total isenção de suas culpas e atitudes

“Bem-vindos a mais grande floresta, ela é fria e cinzenta”

– Shawlin em “Afirmação de vida”

Assumindo a postura de um verdadeiro flâneur – como o francês Baudelaire ou seu conterrâneo João do Rio –, Shawlin transita entre a classe média de onde veio e as favelas que aprendeu a amar a partir das vivências e amigos que lá construiu. Isso não torna o disco um discurso social sonoro, mas dá detalhes de como o sistema opera. A truculência policial abordada em “Neblina” e as limitações sociais impostas ao povo narrada em “Afirmação de vida” são dois relatos apontados por um Shawlin ainda garoto, inquieto com o status quo. Os amigos são tratados como fiéis aliados nessa guerra que é a vida, o amor é visto como solução durante toda a obra, e, então, podemos entender o que seriam, para Shaw, as “ruas vazias ideais”.

O MC e produtor vem de uma das épocas mais brilhantes do rap carioca, onde o underground se tornou o carro-chefe de uma cidade que tinha tudo para ser, assim como São Paulo, a meca da crítica social na música. Isso não significa que os artistas fluminenses tivessem tapado os olhos para a realidade, mas os problemas são ainda mais diversos do que os relatados pela capital paulista.  Cachaça Crew e Quinto Andar, assim, se tornam recorrentes e necessários na construção de “Ruas Vazias”. Quinto andar esse que, mais do que um dos maiores grupos de rap nacional, foi o grande laboratório de Shawlin, que, munido de notepads e Acid’s, fez história com beats atemporais para o grupo – e, depois, para seus trabalhos solo.

Com isso, “Ruas vazias” se tornou uma espécie de “clássico cult” do rap nacional, um dos pré-requisitos para se entender o gênero, principalmente no underground. São vários os artistas da nova escola que beberam dessa fonte, e muitos os fãs que declamam letra por letra desse disco histórico. 

Longe de ser perfeito, “Ruas vazias” tem suas falhas, principalmente líricas. Em faixas como “Mundo do rap”, Shaw demonstra sua insatisfação com o gênero em forma de leituras rasas sobre classe e raça. Na faixa, ele se coloca como vítima de um movimento que talvez seja um dos únicos onde a negritude e o proletariado ainda tem seu poder – e isso não deveria ser usado como pretexto para revisionismos, como Eminem e tantos outros artistas fizeram durante toda a sua carreira. 

Shawlin foi genial por outros motivos, e são esses que devem ser lembrados: aos 14 anos, lançou “E a vida continua”, e aos 28 já tinha em sua bagagem discos como “Orquestra Simbólica”, “Ordem de Despejo” e “Piratão”. Portanto, merece, sim, respeito e o seu lugar no hall dos grandes liricistas e artistas independentes da história do nosso rap,  para além de qualquer polêmica que o envolva.

Já, como Cachorro Magro e o lançamento de “O Inferno do Cachorro Magro”, chegou ao fim a era Shawlin. E foi na faixa “FIM”, que compõe o EP, que o artista deixou para trás aquela lírica afiada e as reflexões certeiras que faziam parte de “Ruas Vazias”. Na quarta música do EP, “A Raiva”, o rapper expôs um triste e perverso episódio de misoginia, usando sua tal liberdade de expressão para endossar o ódio contra as mulheres, essas que dizia tanto amar em faixas como “Vem cá”, do disco “Ruas Vazias”.

Nas redes sociais, enquanto analista político, o rapper se saiu tão mal quanto qualquer membro do MBL, e isso foi um tiro no pé. Seus tuítes em repúdio ao, na época, deputado Jair Bolsonaro, contrastam com uma posição no mínimo isenta durante a eleição do presidente – às vezes chegando ao conservadorismo –  o que lhe rendeu críticas dos fãs e dos rappers que estiveram do lado certo da história, no momento mais importante da jovem democracia brasileira. É difícil entender suas posições quando colocadas ao lado de suas antigas letras, mas esse é o curso natural da vida, onde muitos, por diversas questões, se perdem e são relegados ao limbo de um movimento que não aceita e nem deve aceitar esse tipo de falha.

Mas, se podemos separar o artista da sua obra, ou, ao menos, colocá-la em uma linha cronológica, Shaw foi um dos maiores da sua geração e “Ruas vazias” terá sempre seu lugar no coração daqueles que veem o rap como uma arte atemporal. Diferente de “rappers” como Buddy Poke – pequeno e desprezível demais para ser chamado como tal –, Shawlin deixou uma contribuição enorme para o rap underground e aos artistas independentes. Em 2018, tive a oportunidade de ver um dos shows da turnê “10 anos de Ruas vazias”, e sentir pessoalmente o clima deste álbum. A emoção e o choro foram constantes, afinal, “Ruas vazias” tem sua importância em minha formação. Mas, foi também uma forma de romper esse vínculo com o artista, deixando no passado o sentimento de agradecimento de alegria por compartilhar desta obra.

Seus feitos não podem ser rejeitados por esse movimento que tanto amamos, mas que seus erros e afirmações patéticas sejam punidas pela mão implacável da história.