Por Z. A música brasileira talvez tenha tido os seus melhores momentos quando abraçou quanto possível a religiosidade para dentro de si. Isso não é sobre música gospel: é sobre, por exemplo, os inúmeros sambas que vão buscar ancestralidade no que veio da África; é sobre desfiles de carnaval e sambas-enredos; é sobre Tim Maia em sua fase “Racional”; é sobre Jorge Ben em “A Tábua de Esmeralda”, e, finalmente, é também sobre “Enxugando Gelo” de BNegão e Os Seletores de Frequência.

Em 2003, uma das maiores bandas de hardcore e, também do hip hop, anunciava seu fim. O Planet Hemp foi um fenômeno único na música brasileira e, talvez, não tenha todo o mérito merecido, apesar dos reconhecimentos recebidos. De toda forma, é nesse mesmo ano que os dois principais integrantes da banda lançariam, cada um, um disco. Marcelo D2 veio com “A Procura da Batida Perfeita” em sua busca para encontrar um rap legitimamente brasileiro e, mais especificamente ainda, da zona norte do Rio de Janeiro. Nessa incrível busca, a mistura de rap e samba encantou a todos, tornando-o algo como sambista de mais para o rap e rapper de mais para o samba. Bernardo, então, encontraria em sua nova banda, BNegão & Os Seletores de Frequência, um espaço para uma nova obra, um clássico que marcaria época.

Enxugando Gelo foi necessariamente um sucesso duradouro, possuindo uma excelente recepção da crítica e figurando despretensiosamente nas listas de melhores do ano. Todavia, segundo o próprio BNegão – em uma entrevista ao The Summer Hunter -, foram necessários 3 anos para o álbum pegar aqui no Brasil, acompanhando essa situação, veio, porém, o sucesso do projeto na Europa, o que garantiu diversos shows à banda.  Além disso, foi também, aqui no Brasil, o primeiro disco comercial a ser disponibilizado gratuitamente na internet.

É difícil, entretanto, falar da grandeza desse álbum sem termos vagos: a maior qualidade talvez seja a sua riqueza sonora, fruto de uma verdadeira mistura de rap com diversos outros elementos, como hardcore, dub, reggae, jazz, samba, funk e diversos outros estilos. É como se cada música tivesse um universo sonoro de bagagem único. E eis outra grande qualidade: tudo sem perder coesão ou soar estranho demais na sequência.

São 13 faixas ao longo de deliciosos 54 minutos. O Disco começa de maneira elegante com um poema, “A Palavra”, recitado por Fábio Kalunga. Fábio era baixista do Seletores e veio a falecer em 2017. Suas belas linhas de baixo ao longo desse álbum, de toda forma, sobreviverão ao tempo. O poema ainda nos adianta uma outra característica desse álbum: os efeitos e as intervenções sonoras são executadas com maestria tremenda.

A “Nova Visão” é nossa primeira vez ouvindo o encontro explosivo do BNegão com Os Seletores. São 3 versos e um refrão empolgante que consiste apenas no título da música. Os instrumentos seguem impecáveis, mas o melhor de tudo é que sabem exatamente o momento em que eles não devem ser tocados e deixar apenas algum solo brilhar. Além disso, vemos a beleza do tom poético que Bernardo irá percorrer durante o álbum em uma religiosidade que está atenta ao mundo de diversas formas, mas principalmente sociais e políticas.

Na terceira faixa, apesar de ser algo como uma apresentação dos Seletores para o mundo, “Seletores de Frequência” vai além, explorando ainda mais os sentidos poéticos do Bernardo em um verso único e o misturando a inúmeros efeitos e colagens e intervenções. A experimentação segue livre de algemas em um único e impressionante fluxo. 

Eis que chegamos à faixa de mesmo nome do álbum: palavras me escapam a essa track, talvez fascinante. O storytelling de Bnegão segue em comentários metalinguísticos que transformam alguém normal em um herói, enquanto vemos em certos momentos o flow acelerar e em outros virar apenas um “simples falar”. Mas aqui temos a introdução a um ritmo sonoro extremamente dançante e swingado, o que já nos convida com tremenda animosidade no corpo para a próxima faixa. 

“(Funk) Até o Caroço” é hipnotizante. Um funk estadunidense à lá anos setenta com riqueza tamanha que acaba sendo um clássico dentro de um clássico. Aqui, BNegão, longe de protagonizar qualquer momento, cede espaço ao refrão mais gutural – que também é o título da faixa -, em um momento de mensagem de Paulão, onde os instrumentos possuem liberdade construindo um som incrível para mexer até o mais duro dos homens.

Fechando essa primeira parte do álbum, temos “A Verdadeira Dança do Patinho”, sem dúvidas a música mais chamativa do projeto. Um Funk carioca, bem ao estilo dos anos 2000, repleto de consciência social e política em suas infindáveis doses de ironia.

Numa espécie de transição, em “Qual é o seu nome?” vemos um rápido hardcore bem acelerado e extasiado, repleto de gritos – o que o torna ainda melhor e mais expressivo. Ao estilo Planet Hemp, Bnegão e Paulão cantam um enquadro em uma estrutura simples e eficaz.

Com “O Opositor”, temos uma expressiva composição instrumental, repleta de vastas referências,  novamente cheia de diversos efeitos e colagens. Bnegão surge com escassas palavras. Na sequência, “No Way”, mais curta, continua esse período de valorização do instrumental, de forma mais orgânica e conseguindo ser cativante ao abraçar os elementos do samba. Tudo desemboca em “V.V.”, um samba, mais popularesco, para animar e explorar as ideias de noção de vida e modus operandi já expostas no álbum.

Na décima primeira faixa temos o feat do lendário Sabotage. Ela marca uma volta ao estilo do rap propriamente dito e acaba sendo a faixa mais pura do disco – isso não quer dizer que se tornou mais simples, já que o beat trará inúmeras camadas, misturando diversos elementos a uma base com temática oriental, para acompanhar a letra. Quando falamos de caneta, vemos o fascínio do Sabota pela terra do sol nascente, enquanto BNegão traz sua experiência de uma viagem que havia ocorrido fazia pouco tempo.  

Pode levar fé, o oriente é meu negócio

Esse som fornece a passagem, nessa viagem

Sabotage é meu sócio

Na vida, deve haver equilíbrio entre o trabalho e o ócio criativo

Por dentro, Rambo, representou Burajiru na terra do sol nascente

Furaitu, do horizonte fui à linha

24 horas de viagem, estilo lata de sardinha

Chegando lá, segan, inu, Ogano, ta meno, hotoke

Narao, ofurô e atarashii, Monte Fuji, e só tem visto

Wagashi, Ikki, bagai, Ikki, Takara

Quer gastar, da cultura milenar até o atual mangá

Já estava, do anime sou fã, e muita coisa que veio de lá 

Na penúltima música, “O Processo”, temos uma faixa que sonoramente se mostra como uma síntese do álbum. Quanto ao instrumental, há uma composição rica, algo entre um blues, um soul e um jazz, com boas linhas de baixo e trompetes marcantes. Já quando falamos de rimas, vemos um BNegão calmo, muitas vezes se aproximando mais de um soul do que um rap, preocupando-se mais com a sonoridade e a mensagem do que com a rima, além dos refrões simples, sintéticos e ao ponto.

Para fechar a jornada, “Prioridades”. Se nessa segunda parte do álbum estávamos vendo o instrumental tomar protagonismo, agora Bernardo mostra-se em seu auge. Então, o instrumental vem para apoiar, de forma linda e meticulosa, nosso rapper cuspir para fora toda sua sabedoria sobre a vida. A religiosidade toma forma, mas também nuances, indo totalmente ao encontro da vida política e social, abarcando toda uma filosofia sobre o que é e como viver. Mas, não apenas isso, aqui atingimos um grau de sinceridade e visceralidade que chega arrepiar só pela levada:

Nos encontramos no mesmo Titanic

Até o último minuto você me pede que fique, eu digo que fico

Porém me confundir com um fanático religioso

É o mesmo que confundir remédio pra micose com pó-de-mico

Osmose é como classifico quase que de vez em sempre o comportamento humano

O que quase todos fazem é o certo

O resto é pura viagem, ledo engano, então é isso

 

Living la vida tosca!

No acordo, o chifrudo entra com a pemba, o mundo inteiro entra com a rosca

Pede a Deus que te livre das moscas

Mas não pensa em nenhum momento em limpar realmente a sua casa

Para com esse tipo de atitude, eu faço como Tim Maia, o mestre, fazia quando queria passar o lima nos seus shows na gringa: “Send the lima!”

Enxugando Gelo é um álbum definitivamente incrível, não à toa é considerado um clássico não apenas do rap nacional, mas da música brasileira como um todo. A sua importância é tremenda quando falamos de resultado sonoro, influenciando diversas produções e virando referência no que tange mistura de gêneros em busca de um resultado novo. Mais do que tudo, acaba sendo um álbum impecável. BNegão diz em suas entrevistas que é o álbum que mais o define em termos de musicalidade e mensagem, e realmente o é. Em suas obras posteriores vemos muitos elementos, é claro que trabalhados de outras formas, mas que já estão aqui nesse projeto. Onde tudo,  desde o instrumental até a mensagem, acaba criando uma sinergia em se tornar um só, a música acaba deixando de ser apenas um reduto de produções, atinge o corpo, brinca com nossas sensações. Tudo é para o corpo inteiro, tudo é visceral.