Salve, JH na área. Quando anunciado, o single causou um estranhamento geral. Kid Cudi e Eminem formam um par pouco previsível e com estilos bem distintos entre si, tornando um tanto difícil imaginar como se daria a faixa, enquanto título e capa lembrando algo mais “cinematográfico” dificultavam mais ainda a questão. O ponto é que uma dica estava na nossa cara o tempo inteiro: a escolha do nome do som colocando-se como “Moon Man”.

Cudi não usa nessa track o que o torna mais notório em 2020, a voz cantada e seus ‘hum’ que cativam qualquer um. Ao invés disso, o que temos é o rapper rimando ao estilo de seus melhores trabalhos, os projetos “Man Of The Moon”, onde ele cospe linhas com um flow próprio e um delivery bem carismático, uma entrega mais fácil de ser pareada com o estilo de Eminem, que, sendo o menos versátil do duo, claramente, não seria o artista a se moldar aqui.

Em questão de produção, o beat também lembra muito essa era. O piano dá um tom mais soturno, lembrando muito esse início de carreira do MC anfitrião que tanto inspirou artistas como Travis Scott, enquanto os vocais de fundo do beat adicionam muito à sua qualidade; considerando que o produtor principal da track é Dot Da Genius, que surgiu para a cena trabalhando com Cudi em seu início de trajetória, fica mais clara a busca por essa sonoridade. Quando Eminem aparece, os teclados mudam suavemente e também lembram algo que ele rimaria nos anos 2000, provavelmente sendo essa sua contribuição com a produção. No final das contas, o que temos é um beat muito bom e feito no limite pra encontrar o piso comum dos dois artistas, sem que nenhum deles fique deslocado.

Em questão de progressão, a track é bem direta: Cudi vem primeiro e faz sua parte, é sucedido por Eminem que dá seu verso e, no fim, o anfitrião volta pra fechar a track, com ambos tendo um tempo total bem semelhante, ocupado basicamente por qualquer coisa que os dois MCs quisessem rimar nesse beat, sem um tópico focal ou qualquer conceito compartilhado.

Cudi abre com um flow, como dito, que relembra seu início de carreira, com leves acelerações e algumas pausas, abusando do seu carisma. A escrita de Mr Rager não é nada louca apesar de entregar algumas boas barras (See me in the day through the late night (Night)/ Tell ’em it’s the charm, I’m in freeze mode), tocando em temas comuns: seus problemas com drogas e depressão, além de alguns braggadocios que estamos acostumados a ouvir atualmente, como dizer que a mulher do outro o quer, ameaças pessoais aos inimigos (que inimigos?) e falar de seus itens de luxo, formando no centro do verso uma espécie de narrativa de uma noite, passando por ações e pensamentos. Ao todo, o MC não deixa a desejar e nem arranca suspiros, ao contrário de seu convidado.

Todo mundo sabe que Cudi não pode competir com Eminem bar-to-bar, e, vindo numa track desse estilo, era óbvio que Eminem teria um melhor desempenho nas rimas; dito isso, é muito bom ver o quanto Eminem se esforça para se encaixar sem roubar totalmente a cena, forçando pouco a barra no seu estilo lyrical miracle, apesar de acelerar bastante seu flow na 2ª metade seu verso por cerca de 10 segundos (o que a gente pode considerar uma vitória aqui), parecendo que ele estava travando uma luta interna para não fazer isso e acabou cedendo.

Ao todo Eminem varia muito de temática no seu verso, indo de alguns ataques no MGK (he’s already dead bro) a referências aos assassinatos de George Floyd e Ahmaud Arbery, passando por uma longa lista de braggadocios com várias punchlines que variam entre terrível (Certain things, I don’t want to do, but have to in/Order to just act human/ Like using a bathroom and vacuuming) e muito boa (Snoop D-O-double, that’s two G’s/ I probably spent on paper), com a maioria caindo no meio termo. Destaque principal para seus versos sobre coronavirus e uso de máscara, já que, como queridinho dos reaças no meio do rap, provavelmente ele tem alguma influência sobre a população de negacionistas. No fim das contas, ele entrega um verso bom justamente por ser contido, com flow e métrica perfeitos e, bem, muito menos cringe do que o esperado dele em 2020.

No final Cudi fala algo sobre uma trilogia e, considerando a promoção para esse single (com grande venda de merch da dupla), creio que venha mais. Se essa teoria for real, “The Adventures Of Moon Man And Slim Shady” cumpre bem seu papel de “introdução” pra algo maior. Caso contrário, não soa exatamente como um single de um álbum (que Cudi deve lançar ainda este ano) e mais como uma canção solta. De qualquer forma a track tem seu valor, entregando um resultado final bom (mas não mais do que isso).

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @_jhermogenes