De trajetória relativamente longa na música, Marcola Bituca já é um nome conhecido na cena baiana. Membro do importantíssimo grupo Turma do Bairro, o artista traz na bagagem toda a sua vivência e influência cultural para o seu novo e intenso disco solo intitulado “Os Últimos Filhos de Sião”, um projeto que enquanto foge às vezes do hip-hop mais tradicional em sua sonoridade, é hip-hop em cada elemento.

O que esse álbum tem de mais cativante é o vasto leque de referências usadas, explorando uma incrível união de musicalidades. A produção, majoritariamente entregue por Aquahertz, explora desde o pagodão baiano até o jazz e o afrobeat, dando espaço para a versatilidade do artista ser exposta, de forma que o disco em nenhum momento chega perto de estagnar. O trabalho de Heverton Didoné, responsável pela percussão de todas as tracks exceto “Corredor Da Vitória” (que é produzida por Rincon Sapiência), possibilita ao disco uma complexidade maior ainda, dando uma impressão de uma banda completa tocando por trás do MC.

Um bom exemplo disso se dá em “Terra Santa”, abertura do disco que é uma ode à sua área, track que usa de uma forte mistura de ragga e pagodão para uma excelente introdução não apenas no âmbito sonoro mas também no técnico, sendo uma que track apela muito à ancestralidade e religiosidade, temas recorrentes no projeto. O refrão forte e as excelentes participações de Caboclo de Cobre e MCDO (da banda Afrocidade) colocam a barra no alto logo de cara.

A espiritualidade e a utilização de ritmos populares da Bahia são uma constante no disco. As duas faixas seguintes seguem essa ordem com “Sinos de São José” atuando por uma ótica mais reflexiva, explorando os vocais do artistas e “A Maldição dos Deuses” sendo um pouco mais animada e com um refrão potente, mas nenhuma das duas tira fortes impressões como a primeira. Antes que pudesse se tornar previsível, o disco assume uma vibe um tanto “afrofuturista” em uma das melhores tracks do projeto, “Samsara”, com produção que  dá um beat mais espaçoso para a voz do artista se destacar, misturando batidas do reggae aliadas a um piano que lembra algo que seria visto num disco do niLL. Além de versos muito bem escritos:

Convivendo com o desespero

A canetada certeira e a corda no pescoço

Já morri mais de mil vidas mas essa de agora desculpa, eu ainda não posso

Talvez seja arrogância, soberba, ou apenas seja solidão

Talvez não seja nada, só a sensação

Avançando para a reta final do álbum, temos a melhor performance do rapper em “Segredo Ancestral (Interlúdio)”. A caneta aqui tem seu ponto mais alto usando a experiência negra em um verso único sobre um instrumental impecável puxado para o jazz. Seguida dela, a faixa “Filhos de Sião” é talvez a track mais inventiva do projeto, com um beat que muda diversas vezes misturando alguns ritmos negros enquanto inclui uma pegada mais comercial, inclusive, tendo um refrão no maior estilo “música de Malhação anos 2000” que funciona perfeitamente com a boa performance vocal de Marcola. A track ainda tem a participação excelente da rapper Cristal, fazendo uma conexão sul-nordeste, se encaixando com perfeição no instrumental para a entrega do melhor feat do projeto, título garantido pela atitude e flows totalmente contagiantes, dando à música ares de hino de arena. O disco é encerrado por “Jazz Para O Fim do Mundo”, um jazz suave acompanhado de percussão discreta, com beat que dá espaço para uma ótima performance do artista seja na escrita, que por vezes foi discreta ao longo do disco, seja no vocal, onde sua voz grave se põe muito bem acima do instrumental mais leve que a track apresenta.

Os problemas aparecem com mais proeminência apenas em duas canções da parte central. “Corredor Da Vitória” é uma tentativa de aumentar o ritmo com elementos de trap mais fortes, mas o beat não encaixa muito bem e a mixagem deixa um pouco a desejar. Ao mesmo tempo,  quando tenta rimar nesse instrumental o artista não mostra a mesma naturalidade que mostrara nos demais estilos e no final até apela para o batido “cash cash/flash flash“, sendo salvo pelo encaixe melhor da sua voz quando canta. “Quebra Queixo” apresenta outro beat excelente para o gingado, o que tornaria perfeito o convite de Rincon Sapiência. O problema é que Manicongo possui uma contribuição completamente discreta, chegando e saindo antes que pudesse marcar presença, não adicionando nada além de seu nome para a música que também não traz Marcola numa performance à altura do que demonstra no compilado, forçando um refrão que se repete demais e não soa tão interessante.

Dito isso, esse projeto tem o poder de mostrar Marcola ao Brasil. O artista dá aula de versatilidade e musicalidade para uma grande maioria de MCs que seguem suas fórmulas à exaustão, enquanto demonstra que, se existe uma formula pra ele, ela é a mistura de elementos. “Os Últimos Filhos de Sião” é música baiana na veia, mas já é hora de tomar o país inteiro.

 

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @_jhermogenes