Salve, JH aqui. Se uma lista de maiores talentos do rap nacional não contém o nome de Victor Xamã ela está simplesmente errada. Em épocas onde vemos grandes nomes com lançamentos anuais ou até múltiplos projetos em um mesmo ano, é dolorosa a escassez de material que recebemos do MC e produtor manauara, tendo até hoje nos presenteado com os excelentes álbuns “Janela”(2015, que figurou na nossa lista de melhores discos da última década) e “V.E.C.G.” (2017). É claro, tem que ser respeitado o processo artístico, sendo parte do que permite o alto nível de qualidade e complexidade. Esse mesmo processo cuidadoso nos trouxe mais uma grande obra, o novo EP, “Cobra Coral”.

Com 4 faixas mais uma bônus, Cobra Coral apresenta todos os talentos do rapper em potência máxima. Sua voz, grave e marcante, chama a atenção logo no primeiro verso. Ao longo de todo o projeto ela é apresentada de forma impecável, sem forçar nas vezes em que canta ou ficar perdida no meio dos instrumentos; esses vocais funcionam melhor ainda pela escrita excelente do artista. A produção, oferecida pelo anfitrião nas primeiras 3 tracks, é coesa pelos 18 minutos, sempre aconchegante, abusando de cordas e metais para criar a atmosfera orgânica do projeto.

Na abertura “Todos Os Desejos no Seu Corpo Nu” o beat espaçoso dá margem para o brilho da voz não só do artista como de Gabi Farias, misturando-se em meio aos instrumentais de toda a track para os versos repletos de simbologia que Victor sempre traz em suas obras. O refrão explora todas essas qualidades citadas e encaminha para uma linda outro que é completada por um solo de sax. O produto total funciona perfeitamente como introdução.

Após o refrão tomar conta da primeira track, a segunda não traz nenhum. Aqui Xamã põe um beat mais obscuro, focado dessa vez num loop de baixo excelente pra um verso único e depois uma saída falada. O rapper traz sua escrita complexa com padrões de rimas variando diversas vezes em uma naturalidade incrível. Após o verso, a saída conta com falas muito pessoais que, como tem sido na carreira do MC, variam entre “relatável” e “difícil de compreender”, abusando das metáforas mais uma vez.

O centro do disco fica com a faixa-título. O melhor dos excelentes beats do trabalho, “Cobra Coral” usa sons da natureza e flauta por traz da bateria para trazer uma vibe de filme de ação na selva para os três MCs. Em questão de performance, essa track é basicamente uma posse cut com Victor, Davzera (que já mostrou se sair muito bem sobre a produção de VXamã) e o nosso ninja favorito, Yung Buda; enquanto os dois primeiros são obviamente os melhores escritores, o último toma o fim da track com seu flow típico, extremamente confortável e contagioso. O refrão é excelente e faz da faixa um hit potencial (certamente o seria se o MC tivesse um nome de maior público no mainstream). Além disso, apesar da performance dos convidados ser muito boa, Xamã realmente pegou fogo em seu verso com delivery, flow e técnica no ponto certo e foi o “vencedor” dessa track.

Realizar o sonho perdido, mas vivo
“Do que eu quero ser quando crescer”
Essas crianças precisam
Rodeado por telas os cantos que eu piso
Desce dessa escada ela tá quase caindo
Não existe rei sem apego ao trono, primo
Orgulho pra ninguém viver pra sempre fodido
Planos e possibilidades no gatilho
Essa vida fake tá te conduzindo

O EP, teoricamente, tem seu fechamento em “San Pablo”, primeira track não produzida pelo dono do projeto. Aqui o beat de Neguim é o mais discreto do EP, assume uma posição mais retraída jogando holofotes na performance de Victor, que explora muitas variações temáticas, de flows e de esquemas de rima para entregar mais uma excelente faixa em que, como foi em todo o projeto, todos os elementos funcionam em perfeita harmonia, mostrando um trabalho muito minucioso dos envolvidos no projeto.

Tempo pra viver uma mentira bem contada
Briga por vaga, conta paga e vive o loop
Abram alas ao “vida vazia pobre”
Correm do corre a trote
Não se apega a boa fase e nem a maré de sorte
Amar é pros fortes, amar é Norte
Colocando amor em um lugar que nunca coube
Calado para alguém que finge que me ouve
Meu lugar real eu nunca soube, isso é sobre…

Indo além, o projeto oferece, exclusivamente no youtube (ao menos até a publicação desse texto), uma faixa bônus, “Amanheceu Nublado”, em que o dono do EP é na verdade o convidado para uma track de Mayer e João Alquímico,(companheiro de Victor no grupo Qua$imorto) que também funciona como teaser para o EP futuro da dupla. Um problema dessa track é o posicionamento dos versos. Xamã vem primeiro deixando a barra track em um patamar muito alto não alcançado pelos versos posteriores, que não se conectam bem a nível de escrita e estilístico, soando mais como uma colagem.. Além disso, o beat mais puxado para o jazz traz um sax com reverb muito agudo, mixado mais alto do que deveria estar, interferindo na performance vocal dos artistas.

O grande crime deste projeto  é, claramente, sua brevidade. Não por ser insuficiente, mas simplesmente porque, após anos de espera, seria bom ouvir um material mais extenso de um artista que demonstrou possuir tantas habilidades em projetos anteriores. Como EP, funciona muito bem: não cansa, não decepciona e mostra um rapper e produtor que figura no primeiro escalão do país. Cobra Coral mostra, em seus poucos minutos, que a espera vale a pena.

 

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @_jhermogenes