Oi gente, Go aqui de novo e dessa vez com uma responsa enorme de finalizar esse especial com os álbuns que, embora não devêssemos, deixamos passar em 2019. Vou falar um pouco sobre o “A Salvação é pelo risco: O show do Joca”, do rapper mineiro Joca. É sempre muito interessante escrever sobre o trabalho de um MC que até então eu não tinha tido nenhum contato com suas obras. Esse sentimento de não saber o que esperar cria um universo de possibilidades, tornando o play uma experiência única. Nesse caso em especifico, adianto que foi uma experiência incrível.

O álbum conta com 8 faixas que exalam a vivência de Joca pela cidade de Niterói, onde vive atualmente, o MC percorre por sua linha do tempo própria em meio a uma musicalidade que, particularmente, não me recordo de ter ouvido no RAP nacional nos últimos anos.Tudo começa com a faixa “ROYAL”, onde nós, meros ouvintes, já temos contato com um dos principais pontos positivos de projeto: produções com instrumentos orgânicos postados de maneira elegante que conduzem a nossa trajetória pelo show de Joca da melhor maneira possível. Logo de cara nos deparamos com a ótima performance narrativa do MC. Destaco essa sequência de versos:

Nós tamo aí, né?

Tentando encontrar algum lugar que a gente caiba

Já fomos promessas, hoje fato

Apertam nossa mão, mas tem medo da nossa laia

Paia

Tamo tentando cuidar de gaia

Chegando na faixa “Breve”, que conta a participação de Ciana no refrão, Joca nos mostra que, além de nos presentear com uma ótima produção e narrativa muito bem construída de seu projeto, é um exímio rimador. As rimas intercaladas através de palavras colocadas de maneira solo nos versos são os elos necessários para uma faixa que mantém o nível técnico do álbum alto:

Eu não consegui entender nada

Tive que sair daquela caixa

Tava

Meio baqueado alguns tropeços

Da viagem

Margem

Antes todos meus iguais

Eram miragem

A faixa seguinte chama-se “Throwback”, com a participação de Juliana Thiré. A viagem temporal pelo universo de Joca já mencionada é bem exemplificada nesse som. Do título às rimas viajamos em um beat que mantem uma ligação maravilhosa com as vozes de auxílio de Thiré. A adição de uma guitarra e um baixo no som elevam o nível da produção. Para que possam visualizar melhor essa questão temporal do álbum, trago o refrão da faixa:

Vendo minha vida inteira em throwback

Lembrei do nosso amor em time lapse

Me dando canseira lap dance

Você mexia tipo soultrain

A próxima faixa é um interlúdio e tem o nome de “Katara”. Em tom poético, Joca torna o trabalho ainda mais pessoal. Gosto de como ele traz uma referência ao jogo mobile FreeFire sem forçar um apelo com o público, segue o verso:

O beijo dessa mina me deixou travado

Como se eu tivesse que ficar escondido

Gata, eu não posso deixar meu trampo de lado

Se fosse você jamais teria partido

Tempo passa, corre

As horas diminuindo

Tipo no Freefire, a zona diminuindo

Chegamos na faixa “A Praia” e mais uma vez a musicalidade rouba a cena, enquanto as sequências de vivências pessoais ditam a track que me fez sentir mais próximo do MC nesse projeto. Em determinado momento os versos valem-se de anáforas da palavra “sete”, signo responsável por representar quantias infinitas, Joca usa isso para imprimir com muita sensibilidade grandes distâncias entre espaços, tempos e pensamentos. Além disso, as analogias de seu gato Pardola aproximam o ouvinte e abrem caminho para a melhor faixa do álbum. Mas, antes disso, temos um interlúdio que finaliza a track positivamente. Inclusive, o uso de interlúdios nesse projeto é notável –  o MC consegue encaixar todos eles guiando a narrativa e tornando seu universo ainda mais denso.

“Eternos”, que vem em seguida, é uma viagem por Niterói, e quando chega em seu refrão soa como a redenção de Joca e seus amigos. O beat mantém nível de todo o álbum e apresenta um aumento de intensidade antes de chegar no refrão, acompanhado de uma guitarra ao fundo que ecoa fundo em nossa audição.

Na sequência, temos mais um interlúdio chamado “Baby não me espere”, seu papel é introduzir a última faixa chamada “In Sônia (Sônia in my Mind)”, um encerramento bem em alta. É a despedida gloriosa de Joca e suas histórias. O MC começa ainda guarda novidades para o final e nos apresenta um flow um pouco mais rápido do que o restante do álbum, demonstrando versatilidade técnica. Quero destacar os seguintes versos:

Fumando o último cigarro antes de dormir

Mas hoje eu sei que eu viro a noite

A madruga é a única hora onde eu me sinto confiante pra não desistir

E todo dia é um novo açoite

E também:

Preto demais pra ser branco e branco demais pra ser preto

Escuro o suficiente pra estar no seu pesadelo

E se eu tivesse papel

Se pá que eu saía ileso

Assim, Joca entrega um dos trabalhos mais originais de 2019, transformou Niterói em seu palco particular, onde conta suas histórias e nos encanta com suas vivências. Um álbum que se destaca em diversos aspectos, dentre eles a musicalidade e a sequência narrativa das faixas. Com certeza figura entre os melhores de 2019 e sua presença era mais do que necessária nesse nosso especial. Até a próxima.

Author: Go

Engenheiro mecatrônico, designer gráfico, amante de arte e tecnologia, apaixonado pela cultura hip-hop e boêmio demais!