Oi, eu sou o Shaq! Hoje é minha vez na semana de álbuns que deveriam ter tido uma review e deixamos passar por acidente, desculpa aí. E vamos falar do “Selfie” da Clara Lima, que saiu no finzinho de 2019. Depois de uma repaginada após seu EP de estreia “Transgressão”, de 2017, temos aqui uma Clara muito menos agressiva do que anteriormente e se apresentando mais artística em seu primeiro álbum de estúdio.

Ao contrário do que tradicionalmente se faz em EPs, em que o artista geralmente dá uma carta de apresentação e não tem um “grande conceito” por trás do trabalho mas sim um apanhado de tudo que o MC pode fazer, Clara traz isso em seu primeiro álbum, em que as oito faixas não tem uma conexão nem mesmo um tema em comum entre si, exceto um exacerbado apelo à um certo relacionamento do seu Eu Lírico com um alguém não especificado, como podemos observar na dupla “Pensando em Nós” e “Pássaros”.

Ela não deixa de lado as referências da vivência de rua, constantes desde seu trabalho anterior, porém, como disse ali em cima, é um álbum sem um conceito ou uma ideia central, por vezes soando vago. Esse é o principal pecado da MC de BH, que emenda uma track bem upbeat e animada como “Noite Quentes de Verão” a uma lovesong praticamente na sequência, sem “respeitar” uma descida mais suave e mais bem amarrada – nada que atrapalhe a experiência da ouvida.

Na questão da caneta, Clara chega muito menos agressiva e afobada do que em outras oportunidades. Canta mais, explorando uma força vocal que ajuda a deixar seus versos mais dinâmicos, apoiada pela produção da dupla Go Dassisti e Gee Rocha com muitos acordes de violão e produções mais descontraídas que trazem um certo clima de praia e verão (o que é irônico por que né, Minas Gerais). Apesar disso, quando é preciso rimar, a MC criada nas batalhas mostra que sabe e muito bem, com uma levada bem diversa e balanceada. Clara Lima nos entrega 23 minutos de flows variados e nada enjoativos.

Ainda sobre a produção, não me entenda mal quando falo beats pé na areia e acordes de violão. O projeto como um todo possui uma vibe mais calmaria e a produção acompanha essa faceta das tracks, como podemos observar em “Pássaros” ou ainda em “Caracóis”. Os produtores abusam de composições mais acústicas municiadas com graves mais comportados. A MC em momento algum demonstra dificuldade em acompanhar esse ritmo, nos carregando muito bem durante todo o disco e mostrando uma diversificação de entrega que nos faz esperar grandes coisas em um futuro próximo (spoiler: os singles lançados depois deste projeto são 10/10).

De fato, é bem clara (non intentional pun) a influência da banca da MC bem como do selo em que a artista está inserida, e ouso dizer que faltou uma participação do Djonga ou quiçá do Fabricio no trampo, um back to back aqui seria bom, mais duas faixas também cairiam bem – 10 faixas em 30 minutos seria o ideal – de toda forma, as participações de Chris MC (que é também irmão de Clara) e MC Guime casam bem com a ideia de suas respectivas faixas. Fui surpreendido positivamente com Guime rimando em uma track bem “pop” sem uma base de funk na virada para a participação, que seria o clichê da cena, merecendo um ponto extra para a dupla por não ter ido ao lugar comum.

Também vi uma apresentação ao vivo desse disco, e a Clarinha manda bem demais, auto-tune onpoint (que inclusive, deu um probleminha na primeira faixa e ela refez toda), ficando a expectativa para que a MC se mantenha nessa crescente, que o próximo álbum seja um pouquinho mais longo para que a artista possa discorrer por mais tempo e mais amplamente sobre os temas propostos.

Depois desse disco, tivemos o lançamento de “V. B. S. V. B. D.”, um single mais para um trap um tanto agressivo e puxado para o braggadocio, uma direção que eu adoraria ver a Clara desenvolver. Ainda bato na tecla que esse projeto deveria ser de fato maior e com mais participações e uma exploração mais bem definida de um norte no disco, mas, por outro lado, os ponto positivos mais que superam os negativos, fazem desse trampo um bom álbum de estreia para a mineira, marcando uma grande evolução e mudança de abordagem com relação ao trabalho anterior, além da grande maturidade em pouco tempo de carreira, que nos obriga a preparar-nos para futuros projetos vindouros.