Oi, Ascencio aqui.  “Roho Tahir” de RT Mallone é o escolhido para abrir a semana dos álbuns-que-nós-deixamos-passar-mas-não-deveríamos. RT, com a mixtape “Vendedor de Sonhos”, conseguiu o sétimo lugar na lista de melhores do ano de 2018 aqui no site . Seu potencial era latente, o rapper da Artefato demonstrava-se amplo em recursos técnicos com uma caneta extremamente promissora. O problema que todos os MC’s encontram quando já iniciam suas trajetórias em nível elevado está em mantê-lo. É muito mais fácil apresentar sua arte como algo mais bruto e ir lapidando-se com o tempo do que já, logo de cara, demonstrar algo mais próximo do puro setando expectativas altas para o que está por vir.

O valor de seu trabalho seria posto à prova um ano depois, em 2019, com o seu primeiro álbum, o já mencionado “Roho Tahir”. Interpretar dessa forma a recente trajetória do MC mineiro não é exigir demais de uma carreira prematura, mas sim tratar RT Mallone como ele se impôs à cena: um nome forte de futuro, aspirante a um lugar só seu a níveis de maior projeção. Além do mais, o próprio membro dos Mallones sabe disso quando afirma que seu álbum é sobre lidar e interpretar os problemas que surgiram em seu caminho até então e demonstrar potencial suficiente para merecer o seu status. Um rei que conquistou seu trono e se interessa em assegurá-lo.

Alma Pura é a tradução dos respectivos termos Roho (do suahíli, língua banta) e Tahir (do egípcio), as iniciais “R” e “T” formam seu vulgo e reforçam mais uma vez a ideia de que se está diante de uma característica inata do MC, sua pureza de espírito. Estas são as premissas iniciais que o álbum tentará apresentar ao seu ouvinte.

Um bom projeto baseia-se em propósitos firmes, sendo assim o álbum começa muito bem com “Sem Chance” e seu instrumental com elementos de trap formando um ambiente soturno, produzido por Nauk. A track inicial é como se você estivesse numa discussão e seu opositor ignora sua importância e quem você é. Serve como uma espécie de prelúdio argumentativo e bate como um sonoro “antes de mais nada, entenda com quem você está falando, esse sou eu e essas são minhas cicatrizes”. Sua cor e as implicações sociais que ela carrega estão no cerne de todos os seus argumentos. A faixa ainda apresenta uma das melhores e mais originais leituras do tão citado rap game, demonstrando muita sensibilidade na tradução de suas ideias: “O foda é que o jogo do Rap são dois manos numa moto/ Mal intencionados, então nunca jogo pra perder”.

Além disso, Negus (Nego E) lança um refrão frio como a track pede, ajustando seu pitch com a sonoridade aguda na segunda parte, principalmente.

Em “Sangue de Rei”, Everton Beatmaker, também um talento juiz-forano, entrega uma produção de alto nível com um refrão de melodia que paga certo tributo ao estilo West Coast e deixa para os versos do MC sua linha de baixo, valorizando-a à mostra. A caneta e habilidades líricas do rapper são o destaque. Não que elas passem despercebidas até então, tudo o que RT se debruça possui um cuidado técnico de escrita único, foi assim na sua mixtape, nos singles, e na faixa intro antes desta. A questão é que aqui o rapper entrega quase o primeiro verso inteiro com uma única rima, explorando-a de forma arguta numa mescla de multis e rimas internas:

Primeiramente eu sou o mais exigente (A)

Ceis nunca verão meu nome na lista “desistentes” (A)

Problemas existentes, tipo os irmão caindo (B)

Mas eu já lido com essa merda toda desde sempre (A)

 

Chame essa track de Whisky porque ela desce quente (A)

O Rap é sujo e qualquer um num role desses mente (A)

Mano é tão evidente, tem tanto porco ditando as regras do jogo (C)

Que qualquer bicho se sente gente (A)

Há um padrão na estrutura desses dois blocos. Além das multissilábicas, temos a rima (A) que irá se repetir por quase todas as linhas, com exceção das terceiras (B) e (C), nestas, o recurso muda para a rima interna logo no começo. Isso não é por acaso, não é inspiração. É uma caneta inteligente trabalhando em um métrica interessante, sabendo distribuir suas rimas de forma que todas as linhas tenham seu valor e não sirvam apenas de apoio para as punchlines, que também ocorrem aos montes e com a mesma qualidade técnica. Conta-se nos dedos os MCs nacionais que possuem esse mesmo cuidado.

Everton também é o responsável por entregar o beat mais trap de todo o projeto. “Noizke” chega com um grave agressivo enquanto RT faz chover barras em sua entrega. A track é um braggadocious de alto nível onde o MC demonstra estar em seu habitat natural.

A segunda metade chega, o álbum vira a chave e apresenta uma intenção de RT Mallone em ser mais comercial. Daqui em diante entregas melódicas ganham destaque e dentre elas a partição de Isis Orbelli em “Contrato”, love song puxado para o R&B de Heron Francelin, é o maior destaque. Isis desafinar é o equivalente a RT falhar com a sua caneta, ou seja, nunca foi visto, duvida-se que exista. A cantora entrega desempenhos perfeitos, uma voz branda que dita a temática da faixa e uma métrica com prolongamentos de notas que não caem fora do beat, além de uma ótima composição. RT no entanto, apesar de demonstrar clara melhora quando se propõe a cantar comparando-se ao seu antigo trabalho, ainda desafina um pouco e segura notas que acabam prejudicando o seu flow.

“Cura” vem logo em seguida e se esvai rapidamente. O Jazzhop de RT produzido por Lucas Borges merecia mais tempo e ser mais desenvolvido tematicamente. O curto momento de introspecção poderia se estender mais mostrando outras facetas e dinamicidades temáticas do MC. É tão convidativo e empático esse ambiente mais frágil criado nos poucos mais de um minuto e meio da track, que a proposta merecia mais do que ares de interlúdio.

Seguindo nas produções abafadas e aconchegantes, em “Okay”,  Negus e Abnr oferecem um instrumental para RT Mallone demarcar suas ascendência e aspirações à vitória, sem medo de assumir certa prepotência. Nesta altura, o ouvinte já se acostumou e trata como algo natural, mas há valor em reforçar: a caneta do MC mineiro não diminui o desempenho, mantém sempre seu nível. O que também persiste são as leves desafinadas em notas mais agudas quando o MC tenta cantar seu refrão, algo perceptível que incomoda pontualmente.

Para fechar o projeto temos “Ponto Cego” com a potencializadora participação de Jé Santigo que interpreta um simples mas bom refrão. A faixa lembra tanto na estética, produzida por Muxima (também de Juiz de Fora), quanto na temática a track “Cura”, apesar de não ser por completo a mesma proposta/ponto de vista. Aqui trata-se de problemas também, mas o recorte sociorracial fala mais alto. RT demonstra com muita propriedade as dualidades em ser preto e a dificuldade que é interpretar o mundo por essa ótica. Ótimas linhas como sempre.

Se confunde pois não sei se peço paz ou dinheiro

Confesso, que do meu ponto cego parece o mesmo

Eu vivo entre dois mundos onde não há meio termo

Enquanto o jogo do Rap padece enfermo

O disco, enquanto projeto completo, possui algumas pequenas lacunas mas se fortalece nas suas individualidades. Claramente existe um diálogo, a primeira metade do álbum diz uma coisa, a segunda metade lhe responde à sua maneira e isso é interessante, porém falta certa coesão em sua estrutura. “Sem Chance” é uma ótima faixa e cumpre seu papel de abrir o trabalho; “Ponto Cego” também é uma ótima faixa mas não uma boa escolha de encerramento, pois o faz em suspense, em aberto, sem muitas conclusões, como a própria escolha da abordagem da track sugere. Isso seria coeso se o caminho trilhado pelo álbum indicasse esse fim, o que não ocorre. As ideias de purificação e ascensão talvez pudessem retornar, estruturando-se em um fechamento mais adequado.

No entanto, não há duvidas de que “Roho Tahir” entrega a provação mencionada no início desta crítica de forma satisfatória. O álbum apresenta melhoras técnicas quanto o tratamento de som, produções e principalmente na capacidade artística de RT Mallone. O MC está avançando em sua jovem e prolífica carreira, não há dúvidas que Juiz de Fora, a Chicago do Rap Nacional, violenta e talentosa, é berço de uma grande promessa. Aice, importante nome da velha escola da cena juiz-forana, uma vez disse em entrevista que “a maioria dos problemas sociais está na periferia, onde nunca nada é resolvido. Se perder esse discurso, acaba a essência. Estamos no Centro para sermos lembrados. Qualquer lugar dessa cidade é nosso. Já passou da hora de ocuparmos ela”. Parece justo dizer que RT, com suas origens puras mantendo a essência de sua área, é o principal nome desta ocupação. As cercas que delimitavam seu bairro foram quebradas, o Arado ficou pequeno demais para o potencial de RT Mallone.

Author: ascencio

Eu gosto muito de rap, mano. Sério.