Eai meus pimpolhos, definitivamente me tiraram da aposentadoria. Cansado estou mas, tal qual Jordan vestindo a 45, voltei. E se me provocarem, visto a 23 de novo e trago mais 3 caneco só pra provar que dá.

No dia 29 de maio, em meio a uma confusão sem tamanho no mundo, um dia após infelizmente mais um irmão ter sua vida ceifada pelo sistema racista em que vivemos(não só na América, R.I.P GEORGE FLOYD), Freddie Gibbs e o produtor The Alchemist lançaram em colaboração o disco “Alfredo” (a junção de seus nomes), segunda collab entre os artistas sucedendo o lançamento de 2018 “Fetti” que também incluiu como colaborador Curren$y.

Como vocês já estão acostumados, quero dar uma pincelada geral sobre a ambientação, produção e canetas do projeto, bem como as participações e temas abordados. Porém, todavia, entretanto, devemos dar um passo além. Vamos fazer como um tablet que também é um notebook e executar duas funções em uma: a review também será um “Drop The Beat”, então sem mais delongas, vamos às notas:

Já dizia Jack the Ripper: vamos por partes. Sendo a mais importante a primeira impressão e que primeira impressão, amigos. Além do visual que falaremos mais a frente, já em “1985”, Gibbs joga no ventilador todos os ingredientes de um hype recente e nos entrega num flow insano que provoca uma certa urgência, porém, inversamente proporcional à elegância e o “coolness” que o mesmo transpassa não só na entonação, não só no proveito da produção mas também na identidade visual da faixa (e consequentemente do projeto todo) que traz em seu videoclipe um Gibbs (às vezes Kane) rimando muito à vontade, elegantemente trajado no meio de um deserto ao lado do Alchemist, sob uma linha de energia de 60kVa passada em torres CWT tão complexas de montar quanto os versos cuspidos pelo artista, sério mano, quem põe no mesmo verso “Michael Jordan, 1985, bitch, I travel with a cocaine circus” e “Geekers beamin’ up to Scotty in my crack lobby” só pode mesmo ser um filho dos anos 80.

No quesito produção Alc não decepciona, traz uma colagem do comediante Bernie Mac que serve como “statement” do que está por vir. Virando o beat para o primeiro verso em uma guitarra melancólica sobre um 4×4 bem característico em que Gibbs rima dobrado, deixando a produção brilhar em seu próprio tempo, enquanto ele genialmente o dobra sem sair do compasso.

Seguindo com “God is Perfect”, Fredo  já invocou que trará God level bars da track anterior e cospe talvez o melhor refrão do disco, destilando versos sobre a sua (suposta) passada vida criminal, incitando as conexões com gangues inimigas entre si, porém atreladas a ele por ter uma importância no jogo, como podemos observar:

Fuck a DM, I’m sendin’ them killers through
I be fuckin’ with the Gs, Crips, Bloods, BDs
Man, this shit get political
Hit the John, I’m whippin’ the miracle
Get the spoon and I’m scrapin’ the residue
Man, I shop with Colombianos and the Mexicanos
Man, this shit get political

Não ficando para trás, Alchemist nos brinda com uma de suas já características produções: um piano bem criminal no fundo que seta o clima da track para casar com o tema abordado pelo MC, e tal qual o play anterior, o homem por traz das teclas conversa com a audiência por meio de colagens concordando com os versos do rapper. Ao final da faixa, nos prepara para a frase mais impactante do álbum com um corte de Gil Scott-Heron em “The Revolution Will Not Be Televised” já emendando à track seguinte em que Kane constrói um esquema de “triple entendre” (algo que pode ser entendido de três formas diferentes), chegando até mesmo a soar como teoria da conspiração, vamos lá pro momento Genius:

– A música tem como nome “Scottie Beam”, uma modelo americana que já trabalhou na Hot97 e afins;

– Traz em 3 versos, 3 distorções da já previamente citada “The Revolution Will Be Not Televised” do Gil Scott-Heron;

– Scotty é como Cap. Kirk chamava o seu engenheiro na série Star Trek, também previamente citado pelo MC na primeira faixa;

– A música é a terceira faixa do projeto;

– Tem também três referências aos jogadores do Hall da Fama da NBA, personificando suas características em situações adversas, porém correlatas: Iverson, Isiah e Kareem.

Então somando são: 3 iterações de 3 Scotts em 3 versos, DAMN homie! Além de tudo isso que já citei, Rick Ross entrega sua contribuição para a track com um verso que não desaponta, porém impossível não ser ofuscado por um Kane motivado. Inclusive, até o presente momento que esse texto foi ao ar, não sabemos se a motivação para essa faixa em específico foi o assassinato de George Floyd, filmado e transmitido pelas redes sociais um dia antes do lançamento do disco. Apesar disso, na merch do projeto, há uma camiseta que traz os dizeres: “My execution might be televised” onde toda a renda será revertida para as famílias de Ahmaud Arbery, George Floyd e Breonna Taylor, vítimas da brutalidade policial desencadeando protestos antirracistas a nível global.

Andiamo. Em “Look At Me” temos a primeira grande virada, onde Alc se destaca ainda mais de Freddie, desacelerando o ritmo alucinante a que fomos apresentados no primeiro terço do disco, assim como em um interlúdio, Alchemist mais uma vez conversa conosco por meio de colagens corroborando com as afirmações de Gibbs feitas previamente, especialmente sobre a brutalidade policial e gentrificação nas comunidades pretas.

Seguindo para o segundo ato, já temos mais participações no disco e uma postura mais variada de Fredo que cede aos convidados e acompanha mais o estilo da visita, como podemos ver em “Something to Rap About” com versos do Tyler  fazendo com que a faixa destoe do todo, especialmente pois os convidados daqui para frente, exceto o Sr. Okonma, compartilham das mesmas raízes do MC no comando, abordam assuntos mais voltados ao crime e o que chamam de “coke rap” (apesar de não gostar desse termo). Além de Tyler, the Creator, temos aqui duas faixas com Benny, the Butcher e Conway, the Machine, ambos da Griselda Records. A dupla ajuda Gibbs a fazer um certo estrago nas tracks “Frank Lucas” e “Babies & Fools”, respectivamente. Inclusive, ouso dizer, ambos ficaram cabeça a cabeça com o dono do disco em questão de caneta, conseguindo trazer suas referências sem impactar na qualidade e no andamento do trampo, diferentemente do Tyler, como disse ali em cima, que conseguiu extrair uma certa “introspecção” de Gibbs, fazendo “Something to Rap About” ser tipo uma “November” (faixa do “Flower Boy”), versão Hood Rat Crack Cocaine.

Chegando no ultimo terço do disco, que na verdade é composto por apenas 2 tracks, somos apresentados à versão mais “laid back” da dupla, porém não menos agressiva. Destaque aqui para a parte de produção do disco, onde apesar do MC continuar numa toada boa durante todo o projeto, estão os dois melhores beats:

“Skinny Suge” tem uma introduçãozinha com uma guitarra criminosa lembrando aquela noite chuvosa que a bandida postou foto no rolê e te falou que estava em casa. Esse clima soturno nos acompanha durante toda a faixa, enquanto Gangsta Gibbs rima sobre a dicotomia do dinheiro da coca e suas consequências e o dinheiro do rap e as limitações que a fama te impõe, versos bem reflexivos com relação ao passado e shots para a cena no que diz respeito à falsidade e interesses de outrem.

Já em “All Glass”, o MC faz dois versos de 16 barras bem rápidos com uma delivery mais preguiçosa que as tracks anteriores, porém ainda em alto nível. Um ponto que incomoda é o excesso de name dropping nessa faixa apesar de nada ser desperdiçado, como por exemplo em: “Yeezy’s on, but I ain’t never seen a Sunday service”. Alc por sua vez não faz feio, e nos traz um conjunto de baterias bem upbeat para encerrar em alta um grande trabalho, além de usar um sample de Breaking Bad para mais uma vez conversar com a audiência como em um back to back com Fredo, complementando o segundo verso.

Fechando a conta e passando a régua, “Alfredo” é um grande trabalho, me arrisco dizer que belisca fácil um pódio nos melhores do ano. Alchemist faz mais do mesmo entretanto no sentido bom da expressão, não desaponta. Alguns beats são arroz com feijão, porém complementados com fritas e um filé de primeira quando Gibbs rima. A consonância perfeita demonstra que o mesmo se vale no sentido oposto: quando o MC não faz algo surpreendente, o produtor o completa deixando todas as faixas em alta. Dificilmente passamos uma track por aqui. Eu não queria já gastar o nosso selo novo, mas THAT’S SOME HOT SHIT RIGHT HERE BOIIII.

É isso meus pupilos, se gostou dá aquele salve no Twitter da firma e também no meu pessoal e me digam o que acharam da review e do disco também, espero vocês por lá.