No segundo episódio da nossa série, apresentamos mais uma leva de artistas incríveis. O Rap Independente tem aumentado e permitido a MCs talentosos e com muita a agregar fazerem sua arte e buscarem seu espaço na cena. Sem mais delongas, vamos a cinco artistas que você precisa dar no mínimo um play:

Fernando Kep – Vade Mecum (Mixtape)

“Pra essa letra eu não esperei inspiração, tive que escrever sou profissional”, Fernando Kep, MC de Macaé interior do Rio, bebe desse imediatismo artístico para compor sua nova mixtape “Vade Mecum”. O nome de origem latina quer dizer “Vem comigo” e faz jus ao que intitula. O projeto, lançado dia 29 de maio, é um convite para que o ouvinte experimente o mundo segundo às óticas de Kep por meio de um fluxo ininterrupto e consciente. O MC não deixa dúvidas, sua criação demonstra em diversos momentos que, entre inspiração e trabalho de arte, o caminho escolhido é o segundo. Honrando sua proposta enquanto mixtape, são 16 faixas com um alcance temático vasto, oscilando entre ritmos calmos e agitados o rapper fala sobre vida de modo geral, relações humanas, planos de vitória, consumo e produção de arte, governo, sentimentos do amor ao ódio, amor próprio, saúde mental; tudo de forma assustadoramente lúcida ao resignificar um conjunto de valores modernos diante de suas próprias interpretações.

O cuidado artístico também é visível. A mixtape enquanto projeto demonstra-se bem trabalhada e investida, merecendo retorno e reconhecimento por isso. Beats e vocais com ótima qualidade de produção, um audiovisual bem feito e chamativo que se alinha esteticamente com a proposta geral. O compilado apresenta a si mesmo de forma respeitosa e, talvez o principal, se leva a sério, não esperando menos de seu ouvinte. Os elementos de Grime, Trap, um pouco de boombap e funk, demonstram que o alcance temático também se estende pela sonoridade, paradoxalmente, uma coesão por não ser coeso. Kep, definitivamente, demonstra maturidade ao dar um importante passo na sua carreira artística pela cultura hip hop. “Vade Mecum” é um processo constante de transformação em épocas artísticas tão estagnadas.

-Ascencio

Ian Lecter – Cor Da Alma (Álbum)

Ian Lecter, antes de tudo, é um artista original. O rapper amazonense lançou no começo desse ano seu primeiro disco intitulado “Cor da Alma”, que passeia por diversos ritmos da música brasileira, fomentando ainda mais a qualidade desse trabalho. O disco conta com participações de outros rappers da cena de Manaus como Victor XamãGabriel Daluz, Ghost, Mayer e Karen Francis. Abordando temas bastante necessários na sociedade, o artista retrata a sua vivência sobre questões sociorraciais e aponta sua realidade como homem preto nascido no Norte do Brasil.

O disco veio acompanhado do videoclipe “Tipo Madruga” que conta com a colaboração de Karen Francis. Teve direção, fotografia e edição da produtora audiovisual amazonense Graziela Praia. A maioria das faixas foi produzida pelo também rapper Victor Xamã com os instrumentais de Gabriel Daluz, DK, Ethos, Makintrax e Olx. “Cor da Alma” de Ian Lecter afirma a qualidade da cena de Manaus e mostra o quão necessária se faz a atenção para todos os artistas do Norte, pois lá também é um celeiro de ótimos nomes e Ian Lecter provou muito bem isso.

-Vinicius Pires

Isis Orbelli – Oscilação dos Tons: Vermelho Cru (EP) e Efeito Glossy (Single)

Tem coisas que a gente passa a gostar mais e mais a cada nova audição. É um processo complicado e difícil de descrever, mas você não vai gostar tanto na primeira quanto vai gostar na segunda vez que escutar. E do mesmo jeito não vai gostar tanto na segunda quanto irá na terceira. É realmente complicado: às vezes te falta algo no início e o tom vai se tornando melhor, você passa a enxergar mais detalhes, as coisas vão melhorando e melhorando. Isis Orbelli aparenta ser esse tipo de caso.

Quando “Efeito Glossy” – último single lançado pela artista – começa, a sensualidade em tudo é estonteante. O cuidado narrativo se mostra nos detalhes, as construções vão acrescentando facetas que montam momentos e vão criando diversas cenas que passam a se desenrolar na nossa frente, dando as sensações do calor que está adiante. As imagens nos encantam e comovem, tudo sendo desenrolado sob doce voz da cantora.

Para além disso, o R&B de Isis se mostra extremamente sensual e poético, muito acima do que se tem visto no cenário nacional. Em seu trabalho “Oscilação dos Tons: Vermelho Cru” vemos nas 3 faixas uma entrega incrível da cantora em cima de agradáveis instrumentais Lo-fi. Toda a poesia melancólica das belas composições atingem de forma explosiva quem ouve, dando tons suaves e sedutores a uma tristeza que não se deixa levar, mostrando um mundo totalmente novo de quem persevera. É como se, por mais que a ouvisse, ainda há espaços para novas descobertas, já que sempre haverá um gosto de quero mais.

-Z

Emiciomar – A Braba (Mixtape)

A gente pode não perceber, mas tem uma cena muito forte surgindo debaixo do nosso nariz. Enquanto os olhos estão voltados pra SP, RJ e MG, no Ceará tem muita gente trabalhando com muito menos recursos e fazendo um trabalho sincero e de qualidade. Emiciomar é um belo exemplo: sem muitos investimentos, sem uma base de público consolidada como outros nomes do eixo e de forma independente o MC trouxe em “A Braba” um projeto interessantíssimo.

Omar tem uma atitude agressiva e suave, pesada e divertida ao mesmo. Os graves batem forte ao longo de todo o projeto e os flows soam tão bem que parece que ele pode continuar uma track por horas, mas faz o oposto: usa faixas curtas, corta sempre no ponto certo e vamos para a próxima. Em “A Braba” a próxima é sempre em alto nível, sem momentos de flow ou entrega decaindo, complementando sempre seja lá qual for o beat recebido. A mescla de uma estética gringa, lembrando o estilo psicodélico de Travis Scott em alguns momentos, com sons tipicamente locais (muito proeminente em “Hype, Vet”), funk e momentos de um trap mais sujo em tracks como “Maldade (Freestyle)” mostram a versatilidade do MC, que passeia por beats com enorme facilidade.

Emiciomar tem aquela eletricidade inata, contagia sem tentar, e durante quase 20 minutos oferece críticas e ataques mesclados com momentos de diversão antes de encerrar uma mixtape excelente. Esperamos por mais em breve.

-JH

Wall – EHLO (EP)

Diretamente da Roma Negra aka SSA aka Salvador, Wall traz seu manifesto, sua carta de habilidades no EP “EHLO”, um trampo bem curtinho e introspectivo, com 5 faixas e aproximadamente 15 min. O rapper soteropolitano nos apresenta não só seu olhar no espelho (a proposta do disco em si), mas também uma gama de habilidades que vão de raps mais abertos e de protesto bem diretos até lovesongs que exploram as vulnerabilidades do homem negro com relação à sua visão perante a sociedade.

O trampo tem como objetivo, além de apresentar o artista baiano, explorar uma miríade de situações que o povo preto brasileiro enfrenta e tem que refletir sobre si, como o MC diz em “Sankofa”: “E se sobreviver, eu continuo preto”. O projeto inteiro tem esse tom e é bem a cara do artista que construiu todo o trabalho com exceção da produção musical e fotografia, respectivamente, nas contas dos produtores Calibre e Heetz e os cliques pelo nosso parça Rafão (salve @eusourafao). Ah e por fim um destaque: pagode baiano com trap é bom demais, façam mais isso, obrigado, de nada.

-Shaq