Em 2019, o rapper nativo de Brooklyn, Kota the Friend, surgiu como uma revelação em seu álbum “FOTO”, recebendo elogios de todos os ouvintes e comparações a artistas como Mac Miller ou Chance, The Rapper. O disco era uma brisa fresca com energias positivas, feito por um artista independente com voz e melodias extremamente agradáveis aos ouvidos, enquanto contava sua vida com tanta honestidade e simplicidade que qualquer um entenderia do que se tratavam suas letras. Em “EVERYTHING” o artista segue essa formula, dessa vez com uma potente mensagem de positividade e esperança tão importante nos tempos em que vivemos.

Não era o intuito, mas o disco combina completamente com tempos de isolamento. Sua produção, feita majoritariamente pelo próprio Kota (com raras colaborações de outros produtores), é toda baseada no lo-fi e jazz hop. Sendo o corpo dos instrumentais semelhante a qualquer playlist para se estudar ou trabalhar (parece, às vezes, que Kota pegou alguns desses beats e adicionou as baterias), mantendo uma forma mais pura do que se vê geralmente em artistas que buscam essa referência. Não há um beat fraco no disco, contribuindo bem inclusive em interlúdios falados ao longo do projeto.

A escrita do álbum é muito casual. Em todo o projeto aparecem situações cotidianas onde o rapper fala como um ser humano qualquer, algo que se tornou muito raro numa época em que todo MC fala de sua vida tendo como foco suas riquezas e luxúrias. Aqui, ao contrário, temos por exemplo em “Volvo” o artista falando que poderia passar uma semana inteira no sofá, um sentimento que vários de nós compreendemos em meio a uma pandemia; em “B.Q.E”, uma das faixas mais divertidas do álbum, o artista tem os reforços de outros dois representantes da cena underground de New York, Joey Bada$$ e Bas, pra fazer basicamente um tributo à vida na cidade (o título é uma referência à rodovia que liga os bairros de Brooklyn, de onde vêm Joey e Kota, e Queens, de onde veio Bas). Embora Kota segure bem sua barra e sirva um refrão contagioso, o melhor verso da track vai pra Joey, de longe o mais habilidoso dos três MCs.

I’m on the 2-7-8, back to the turf (God damn)
Been the old school like I’m servin’ them work (Ayy, ayy)
When I’m local, I be goin’ bezerk (Ayy-ayy)
Hit up Whole Foods, might back up the club for the fuck of it
Talk in my back and then go, she be lovin’ it
Stopped at the hood and you know I be tuckin’ it

Kota usa toda essa simplicidade pra chegar ao ouvinte de forma que se torna impossível não prestar atenção ao que está dizendo, com a mensagem do disco sempre sendo de positividade, tendo diversas passagens que fazem o ouvinte repensar sua vida e suas prioridades. Para amarrar tudo, o artista usa no projeto alguns outros e interlúdios em que pessoas, aparentemente, respondem à pergunta “o que significa tudo para você?”, com mensagens importantes de personalidades como Lupita Nyong’o e Lakeith Standfield, mas, a mais interessante vem do próprio MC em “Seven Interlude”. Valeria a pena colar toda a track, mas esse trecho em específico pode ser considerado o ponto central de todo o disco:

People always tell me like, “You’re so cynical,” but I’m like, “One day I’m gonna die”, you know, and so, none of this would matter
All of the work I put in, would not matter, strivin’
Strivin’ for the win, you know, as the Bible would say
And I just, I look at that and I take that to heart because, man
Since none of this would matter, I might as well balance ever-
I might as well balance it and have a good balance
So I can be happy and my child could be happy
These the most important things, you know

Com essa ideia geral o artista passeia por diferentes temáticas e pontos, e, para ser direto, acerta em 12 das 12 faixas do disco. A consistência de ideias torna EVERYTHING uma obra coesa do início ao fim, sempre com o artista passeando pelos beats como se ele gravasse tudo dançando, apresentando um tom de voz que combina perfeitamente com o instrumental escolhido com trocas de flows sempre muito suaves, sem abusos e antes que qualquer verso tornasse-se monótono, como faz na excelente intro “Summerhouse”. Enquanto muitos artistas pecam por manter seus trabalhos muito “8-ou-80”, Kota varia sempre com segurança entre, digamos, 30 e 40. No início as faixas mais animadas “Mi Casa” e “B.Q.E” são sucedidas por algo mais suave, tendo nas românticas “Long Beach” e “Away Park” a narrativa de histórias e planos tão tranquilas que é possível visualizar o casal e as cenas descritas pelo artista. É esse o tipo de faixa que destrói a postura de qualquer gangsta.

Toda vez que parece que o álbum vai cansar, Kota traz uma agradável quebra e praticamente dá um reset em tudo, com feats e interlúdios muito bem posicionados durante o álbum, e embora os convidados não tragam nada muito louco, são diferentes o suficiente para manter um ritmo agradável e conciso durante o projeto. Em “Away Park” a cantora australiana Kaiit (muito talentosa, vale a descoberta) aparece só na outro, com uma voz incrível dando um fim agradável à track; na destaque “Always” KYLE traz um dos versos mais impressionantes do disco, esbanjando o carisma que é natural ao artista e mudanças de flow excelentes; o rapper de Chicago (cena de onde Kota claramente tira muitas inspirações) tobi lou é outra boa aparição na divertida “Morocco”. Apesar destes, o melhor convidado vem pra fechar o disco, na faixa título. “Everything” traz o rapper em seu lado mais reflexivo, tendo até no refrão uma mensagem (“I want the chicken and the recipe” poderia ser uma bela barra, mas está no meio do hook aqui) e encerra o disco com uma interação do rapper com seu filho, creditado com Lil Kota, dando um fim lindo para um disco lindo.

Toda essa absurda consistência torna impossível apontar um defeito no projeto. Um disco que não cansa, não decepciona, mantem-se coeso e não tenta nada muito arriscado, cumprindo com perfeição todo o seu script. A única coisa que afasta “EVERYTHING” de ganhar uma nota completa de shits é exatamente a falta desses riscos, não havendo durante o álbum algum momento que derrube o queixo do ouvinte ou que retire um “uau” e, dado o talento de Kota como MC e produtor, é algo que ficarei na expectativa de ver em seus próximos trabalhos. São 37 minutos seguros, mas ainda assim extremamente agradáveis e interessantes.

Nesse disco, Kota faz jus ao seu nome e é o amigo que todos precisamos. Do tipo que usa o refrão da sua primeira faixa pra perguntar como estamos ou o refrão da décima para incentivar a correr atrás do nosso. O disco traz uma mensagem que cada vez menos se tem ouvido no rap, nos lembrando onde é realmente necessário colocar nosso foco e oferecendo o empurrão necessário pra continuar indo. Esse é o álbum pra se ouvir quando nada vai estragar seu dia. “EVERYTHING” é uma vibe que soa inabalável. Forte concorrente ao melhor do ano e uma audição obrigatória.

 

 

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @_jhermogenes