Enquanto passamos por esse período de distanciamento social, aos poucos, os lançamentos de artistas já consolidados na cena tendem a diminuir. Isso não é motivo para não se ouvir música nova e de qualidade: tem gente muito talentosa surgindo lançando seus trabalhos durante a pandemia ou com projetos que passaram batidos, mas que ainda valem atenção. A partir disso, vamos ao primeiro texto da série Descobrindo, onde indicamos artistas para que vocês fiquem de olho em seus respectivos trabalhos. Se liga:

ogoin – Literalmente Por Mim, Vol. 1: Túneis

“A galera tá se dedicando pra fazer arte, saca”. Este é um trecho solto do áudio que ocupa a segunda faixa do disco do ogoin e sim, realmente estão se dedicando. O rapper vem com o “Literalmente Por Mim, Vol. 1: Túneis” em uma onda Lo-Fi experimental arrebatadora. O grande ponto alto da obra é a atmosfera criada e a energia que passa, preenchida com camadas sonoras e trazendo rimas filosóficas em momentos íntimos. A produção do álbum acaba por ganhar um grande destaque e importância dentro da premissa, tendo uma entrega bem interessante, além de agregar diversas intervenções acústicas do Brescia que também vem com um verso na faixa de entrada, “Mood 2.0”. Além disso, em “Filtro Vermelho”, quarta canção do álbum, há um feat poderoso da bruxa Nabru, que se mostra, como sempre, muito confortável nos ambientes Lo-Fi.

É realmente um álbum desses que nos transporta para lugares mais amenos, paradoxalmente, um pouco mais distantes e próximos do dia a dia, só que dessa vez mais focado nos detalhes que nos cercam. A carga emocional vem de encontro aos próprios momentos e situações, dando peso as historietas, quase retratos instantâneos que o autor cria. Por essas e por outras, o álbum fede a arte, e isso ganha forma em discussões dos próprios achares acerca dela. “Eu acho que na arte cê num tem que chegar em nenhum lugar, cê só tem que caminhar”. Sim, caminhamos.

-Z

Mateus Fazeno Rock – Rolê nas Ruínas

Diretamente de Fortaleza , Mateus Fazeno Rock lançou seu debut Rolê nas Ruínas. Transitando por reggae, blues, baladas, melôs e obviamente um rock de favela, o EP é ambientado acima de tudo. Tracei um inevitável paralelo entre esse trampo e o “Veterano” de Nego Gallo, não só por serem da mesma cidade, mas o conjunto das duas obras é a mistura de água e óleo sendo feita. Gallo transmite o sentimento de Fortal, passando pelo centro, favelas e curtindo uma boa praia. Mateus faz um rolê pelas ruínas, é sujo e gostoso, é a vida de favela, a vida ‘dazaria’. Com a sensacional abertura, de “Vozes na minha cabeça”, passando por marcantes “Legal” e “Névoa”, o trabalho ainda filosofa e embala com o “Melô Djavan”. É diferente de quase tudo que você ouviu e ouve. É bom e viciante.

Na dualidade, entre celebrar a vida e lamentar as condições que o estado e parte da sociedade faz alguns viverem, se caracteriza único. Imagine aquele som que a rapaziada tilele gosta de dançar em praça enquanto todos presentes são brancos, isso aqui é o que o som deles sonha em ser: bom. Com verdade e visão por trás dos temas e papo, uma sonoridade que bate, um tamanho razoável (9 músicas em menos de 30 min), se forma um rolê nas ruínas. É a mais pura arte de rua de um cara cantando seus arredores cotidianos.

-Dourado

Cottta – É o Cottta

No inicio de maio MC Cottta lançou seu EP intitulado “É o Cottta”. São 14 minutos de trap, 5 faixas e motivos suficientes para que o MC apareça na nossa seleção. Uma caneta bem afiada e instrumentais dispostos em um ritmo muito inteligente são pontos positivos desse trabalho. O projeto começa com a bem produzida faixa título, trazendo em tom afirmativo o discurso de que os espaços na cena serão tomados por ele e por seu time, além disso, nela encontramos ótimas analogias dualísticas, como por exemplo ser Deus e o Diabo. Percorrendo muito bem pelo instrumental como um verdadeiro camisa 10 o rapper corre com a bola preparando o time para armar o gol. Assim, o MC abre caminho para a faixa “Frio e Calculista”, muito cirúrgico no uso de adlibs e nas variações de flow, Cottta mantém o ritmo no alto. Na track “Jogador” o MC vem com diversas referências ao mundo de futebol, explosivo e com a mesma intensidade, abusando da classe nas rimas, fechando a primeira parte do EP muito bem.

Na faixa “Ouro” a intensidade dá lugar a serenidade de uma conquista e, quando chegamos na track “Outro Lugar”, entendemos como a tomada de espaço que o MC cita durante todo o trabalho foi bem concluída. O desacelerar das duas últimas faixas mostrar ser proposital, tornando o projeto um trabalho muito bem fechado e completo. Se o intuito era colocar a si mesmo e seu time, Prain Gang, em outro patamar, Cottta atinge com muito sucesso essa missão e mostra com clareza o porquê de figurar nessa lista.

-Gogo

Nic Dias – Singles: “Degrau” e “Guilhotina”

Faz bastante tempo que não solto um texto por aqui e voltei por um motivo especial: essa coluna que não deixa você dormir nos novos artistas mais promissores. Como alguns de vocês sabem, além de idealizador desse site (decisão questionável? Talvez) também sou o único representante do Norte do país, mais precisamente do estado do Pará, e pra ser sincero até bem recentemente nunca tinha realmente curtido algo da cena daqui, até me deparar com “Degrau” da talentosíssima Nic Dias:

E meu queixo caiu instantaneamente, o liricismo cru e as wordplays refinadas e bem distribuídas no verso são algo que não vejo no rap nacional há muito tempo, além de não poder deixar de mencionar o beat sensacional do Navi Beatz, frequente colaborador da Nic e outro talento saído de PA. E assim fiquei “Caralho, preciso de mais sons dessa mina, ela é foda!”, então veio “Guilhotina” onde a MC demonstra sua extrema versatilidade, dessa vez, com um som mais “bate cabeça”. O nível de escrita e levada se mantiveram em um som fodido e que lhe rendeu mais notoriedade, ganhando cosigns de grandes nomes na cena nacional como GABZ e Djonga. Não durmam em Nic Dias, jamais.

-Vinar