Saudades de falar isso: Ascencio aqui! Coruja BC1 surge de fato no elemento da cultura que lhe trouxe mais notoriedade em 2014 com o sonoro “A Voz do Coração”. Aos gritos de “o interior tem voz”, demarcava suas origens bauruenses enquanto assumia uma evolução natural das raízes mais tradicionais de consciência social e conteudista do Rap Nacional, com referências claras a Trilha Sonora do Gueto, SNJ, obviamente Racionais e os filhos diretos destes. O MC da então nova escola viria a ser um nome forte da contracultura que fazia frente a outra faceta da cena, este outro lado surgia em proporcional popularidade conforme se aproximava da capital do estado, até culminar no coletivo DMC que viveria seus tempos áureos poucos anos depois. Após isso são dois álbuns, “NDDN” e “Psicodelic”, o primeiro deles sob a empresa/selo de maior solidez da cena, Lab Fantasma do chefe Emicida, junto de um sucesso estrondoso no remix J Coliano quebrador de records, “Modo F”; o segundo, voando solo, soa mais atual, introspectivo e conceitual que os antecessores.

Em todos seus trabalhos até agora, independente de propostas estéticas particulares, Coruja manteve características centrais: entrega batendo forte, uma caneta que investe pesado em punchlines valendo-se de muitas referências sempre relacionadas em ideias rápidas com pretensões à relevância, de forma que se tornou relativamente difícil ver suas linhas de murro acertarem em lugares comuns já ouvidos antes; essas habilidades servem ora pra sons mais despropositais apenas de demonstração técnica, onde ganham mais valor, ora pra sons mais desenvolvidos e conscientes, como até mesmo os amorosos ou quando BC1 se vale de toda bagagem e batalhas de sua vida, passando por temas familiares, sociais e raciais, o que também são elementos fortes de sua composição.

O EP “Antes do Álbum” de 23 minutos espalhados por 7 faixas (duas já conhecidas “Modo F 2.0” e “Antes do Álbum”) compartilha, literalmente em seu título, da mesma proposta que o último trabalho de Baco: anteceder seu próximo projeto, no caso de Coruja denominado “Brasil Futurista”, que provavelmente seria lançado em tempo próximo se não fosse a situação atípica de pandemia/quarentena instaurada. Sendo assim, os pré-requesitos deste novo tipo de lançamento se mantém na atualidade e imediatismo de referências, seja ao covid e sua crise política seja ao maior entretenimento de toda essa época de isolamento até então, o BBB —Babu novamente sampleado em um fim de faixa — e, também assim como Baco que em manifestações defensivas deu tom “caseiro” ao seu EP, há o mesmo tipo de argumento jogando despretensiosidade sobre o trabalho escrito às pressas (supostamente um dia), ou, nas próprias palavras do MC paulista, um desafio.

Essa é uma ótima estratégia, além de poder testar material para o grande lançamento de fato, se as críticas forem positivas, potencializam-se diante do talentoso cenário formado, onde o MC, limitando-se em recursos e/ou provisões criativas, teve talento suficiente para por um bom material, já lançando louros no álbum por vir; agora, se a crítica for negativa, é só fazer como Baco e usar o mesmo argumento de despretensão e casualidade, protegendo o lançamento futuro.

O início em “Ícaro (intro)” é promissor, numa atmosfera leve flertando um pouco com o romance, a produção de Deryck Cabrera nos apresenta a um lo-fi soul com elementos metálicos e vocais sintetizados como se fossem notas de um órgão. A voz de BC1, em pitch baixo e destorcido, passa a estética de um lado sombrio e intimista que escancara seus “hematomas da alma”, acompanhando a proposta da track, não pela primeira e nem pela última vez, o MC demonstra conseguir modular bem o seu flow em entregas mais melódicas. A ideia é demonstrar a queda que precede uma conquista aguardada, como Ícaro e Lúcifer, ambos desejaram demais e pagaram seus preços com a mesma metáfora.

“Baby Girl”, com refrão de Cazz (que volta na quarta faixa também), assim como sua antecessora, possui um quê de love song, mas fica num intermédio sobre falar de amor e das dificuldades da vida. Valendo-se desse segundo assunto por quase todo o primeiro verso para justificar a falta, ou inabilidade, do primeiro. O segundo verso é repetitivo e sem motivação para se-lo, a impressão é de que está ali apenas para engrossar o caldo de um trabalho feito com pressa. Do lado da produção, Grou vem com um beat mais limpo evidenciando sua bateria e guitarra, não é mal, mas soa datado.

Todo o sentimento afetivo e amoroso explode no ótimo love song  “Som de Fazer Pivete” . O ambiente mais smooth retorna no instrumental de DJ Will, com efeitos de samples chiados recortados de vinis antigos, uma bateria marcante bem boombap que talvez até ganhasse mais vida acompanhada de hi-hats que, no estilo clássico, possuem um toque mais humano. Kesia chega nas dobras de um refrão cativante que embala o ouvinte. A temática sexual é tratada de forma natural e bem feita, diferente de outros exemplos atuais. Como Coruja diz: “Transar é igual escrever, tem que entender o que a batida pede”, há quem preferira bpms mais lentos, outros mais rápidos, outros que variem, enfim, dá pra entender.

Problemas começam a despontar na segunda metade do EP. “João e Maria” e “Vip” são boas do ponto de vista completo, a primeira um boombap de elementos pop mais motivacional, a segunda um trap sobre empoderamento racial, nada inovador, mas de qualidade. No entanto, a dicção do MC, em ambos os casos, somando-se a um flow acelerado, dessa vez mais na primeira, passa a ter problemas. Quem escuta sem ler a letra perderá o raciocínio entre as ideias de suas boas punchlines, tais como:

João e Maria, ao meio dia é o almoço, vê se não atrasa

Eu joguei música no caminho pra lembrar voltar pra casa

E também:

Odeio Monteiro Lobato, por isso meus rap mexe com a cuca

O mesmo vale para a última track, faixa título, produzida por Knela. Em uma pilha de repetições do seu principal artifício técnico com flow acelerado, a audição se torna cansativa mesmo quando a caneta acerta, e nessa faixa isso nem sempre ocorre. BC1, além de trocar Avatar por Naruto, fora do que lhe é típico, repete ideias parecidíssimas em punchlines já usadas por ele neste mesmo trabalho e por outros MCs também, como por exemplo comparar as “barras” de Rap com “barras” de chocolate usando em metáforas nomes de tipos e marcas, Slim Rimografia fez exatamente isso em 2017. Isso é um problema principalmente quando toda a sua caneta gira em torno de linhas de efeito e quando você mesmo, em 2017, diz estar vivendo 2020, mas, em 2020, usa uma linha de 2017.

Falando dessa track, o remix mencionado no início, “Modo F 2.0” vem para atualiza-la. A roupagem de Skeeter, seu parceiro de longa data, é boa e atual. No entanto, Coruja não se esforça para adaptar a letra antiga no instrumental novo, apresentando apenas uma entrega ligeiramente mais grave. Em boa parte do tempo, flow e métrica são os mesmos e por mais que a estrutura do beat tente emular algo que se aproxime da antiga, não funciona. A mixagem incomoda também, um resultado triste. Que os fãs fiquem com a primeira versão.

Apesar de cometer deslizes abusando excessivamente do que às vezes parece ser o único atributo destacável de sua caneta, punchlines — que não se confunda com lírica propriamente dita — e demonstrar não estar tão no futuro como gosta de reiterar, Coruja BC1 consegue manter um saldo positivo neste EP, sabe variar muito bem seus flows e entregas (quando quer) e ainda acerta bastante em suas linhas enquanto mantem seu inato estilo impetuoso característico. “Antes do Álbum” consegue cumprir o seu papel, resta aguardar o álbum propriamente dito.