Uma das cenas mais importantes em toda a história do rap nacional é a do Distrito Federal, que desde seus primórdios, tendo entre os pioneiros DJ Jamaika e o grupo Câmbio Negro na década de 90, até a atualidade, com os grandes expoentes sendo Flora Matos e (ugh) o MC mais popular do Brasil, Hungria, sempre teve sua relevância e influência em toda a cena do país. Sob esse cenário e vindo de Sol Nascente, a maior favela horizontal da América Latina, surge Rebeca Elen – nome real da rapper Realleza – que, com uma longa trajetória na música passando por grupos de rap desde os 10 anos, lançou recentemente seu projeto de estreia, o “EP Afrontosa”.

O disco toma o título como essência e a MC se apresenta sempre numa posição de quem está disposta a lutar e vai se impor quando necessário. O projeto se inicia com a intro “Poder Negro”, que funciona como uma declaração de intenções direta. A batida potente se une a uma curta mensagem de Rebeca que aponta para direção temática do projeto: “meu objetivo é mostrar pra todo mundo o poder negro”. Nas faixas que se seguem o empoderamento é sempre o alvo, se colocando na posição da mulher negra que não se deixará ser oprimida.

Com estudos sobre feminicídio no currículo, a rapper se mostra sempre conhecedora das diferentes formas de opressão sofridas por mulheres negras. Na faixa título, a artista vai pelo lado do empoderamento, com uma track que se destaca por referências de R&B e pop nacional, com um refrão forte, beat dançante e uma influência visível de Karol Conká é a primeira amostra da qualidade de escrita e de visão da estreante. Na faixa bônus, “Tempo”, ela conta a história de um relacionamento abusivo e sua libertação, usando um refrão potente e uma escrita mais descritiva e simples em relação a anteriormente citada.

“Sou Dessas” é a faixa mais ligada às tendências brasilienses com um beat típico da região, sendo mais uma amostra forte de empoderamento e fala contra o assédio, é a terceira faixa do projeto e a primeira grande demonstração do talento da MC, que troca de flows com uma facilidade impressionante e domina o beat sem deixar a qualidade de escrita cair. A principal amostra dessa qualidade vem no final, com “Escolha”, faixa que se inicia com uma mensagem de Rebeca enaltecendo sua mãe, sendo uma música de força contra as batalhas, além disso, a letra é inspiradora e, dessa vez, remete-se em muito ao estilo de Negra Li. Na faixa, a rapper tem sua melhor performance lírica, uma entrega potente e, novamente, demonstra facilidade na alternância entre seus flows sem deixar cair o nível em outras áreas, o que raramente se vê por aí.

O EP é, antes de tudo, um cartão de visitas. Além de mostrar visão e talento lírico, a artista usa o projeto pra apresentar sua versatilidade, apostando na sua voz mais suave não só em refrões, mas dominando faixas. “Vem Me Amar” é uma track com muita inspiração no R&B nacional do início do século, com a artista cantando com muita facilidade numa letra sexual e romântica, o beat e os vocais esbanjam sensualidade sem perder a classe, sendo aquela típica faixa excelente pra… .

“Lua Da Night” é uma faixa que atinge o meio termo do que é mostrado no resto do disco, tendo um beat mais espaçoso que deixa no plano de frente a voz da MC, a qual, numa entrega mais cantada, se vale do tão comum autotune pra se apoiar. Embora de início soe suave, acaba sendo cansativo com a repetição e o final é arrastado, o que acaba sendo um problema que também é visto na faixa “Tempo”. Essa canção, que é o primeiro single de Realleza, lançado ainda em 2018, é uma faixa que mostra talentos, mas, se colocada ao lado das demais faixas do EP, torna-se visível nas canções novas o amadurecimento da artista na escrita e uma maior naturalidade pra trabalhar sobre um beat.

Um ponto impressionante da MC é a facilidade pra “pegar fogo” com rapidez, me deixando interessado e ansioso para vê-la atuando em feats no futuro. O segundo verso de “Escolhas” é a melhor amostra disso, quando ela altera de um flow mais cantado pra algo mais pesado antes do refrão e mata a track.

Desenvolvi a arte da guerra sem botar guerra na arte

Marchei nas ruas de terra observando a maldade

Não quis fazer parte dela, mas de mim ela faz parte

Travando uma luta interna eterna contra a bondade

Conheça a si mesmo e seu inimigo temerá 

Conheça o inimigo, manipule táticas

Não se entra na guerra sem se preparar

Lute pelo que ama, o amor nunca sucumbirá

A produção é designada para mostrar os talentos da MC dando a ela o posto de frente, mas ainda assim, em alguns momentos,  Rebeca não domina este espaço com uma cara totalmente própria. Como uma mulher negra e forte, o rap nacional oferece excelentes referências, mas neste EP elas são muito evidentes, estando sempre no bolso de Realleza no que tange o ponto de vista estilístico, seja no tipo de produção ou nas entregas vocais da rapper, que ora lembra Karol Conká, ora tendem mais ao estilo de Negra Li ou Drik Barbosa, seguindo assim, ao longo do disco, numa demonstração de muita adaptabilidade, mas mantendo uma originalidade relegada apenas aos flows, sendo essa uma questão menor e certamente uma área com campo para crescimento.

Como uma amostra de talentos, Afrontosa cumpre com maestria sua função. Em menos de 20 minutos a MC mostra que é uma grande promessa e de onde se podem esperar grandes coisas em diversas frentes, tendo o que se espera de um rapper em ascensão: caneta, atitude, ideias e boa performance. Como projeto, é breve e deixa o ouvinte querendo ouvir mais do que ela tem a dizer, o que claramente não é pouco. A mensagem que fica pra Realleza é a mesma que ela deixa pra suas ouvintes em uma música: “arrase na pista porque você pode”. E nós estaremos esperando.

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @_jhermogenes