Salve salve manos e minas (saudade desse programa, a Cultura podia por de volta no ar, mas esse não é o assunto de hoje) hoje vamos falar de mais um mano oriundo da Griselda Records que recentemente fechou um acordo de distribuição com a Shady Ent. e que, indiretamente, eu já havia recomendado pra vocês: Westside Gunn. Pra quem não conhece, ele tem uma dupla com o irmão, Conway the Machine, e também lançou em 2017 uma tape com o moço da máscara, MF DOOM. No momento atual, com o irmão e Benny The Butcher, o trio é o carro-chefe da banca Griselda Records e vêm apresentando um som muito característico que jurava que havia sido enterrado pelo Kanye West em 2008, o tal do gangsta rap.

Mas vamos devagar e vamos por partes, primeiro quero explorar a capa da “Pray for Paris”, onde Westside Gunn contou com nada menos que Virgil Abloh para o conceito e identidade visual do projeto. A capa é linda e traz um ar meio barroco, pinturas sacras do séc. XVI e da o tom com o primeiro contato do conceito abordado no trampo.

Logo na intro já vemos a sacada que o MC propõe ao emular um estilo de arte na capa, porém desenvolvido por um homem negro influente da atualidade, em perspectiva com um leilão de uma obra a 400 milhões de dólares (mais taxas, rs) indo de encontro a toda a perseguição dos federais que ele narra durante o álbum, tentando criar uma justaposição de valores entre a arte contemporânea, o valor percebido de arte e a arte de rimar.

O disco conta com os parceiros de banca Conway the Machine, Benny the Butcher e também Roc Marciano, Tyler The Creator, Joey Badass, Freddie Gibbs, Wale entre outros, que são muito bem aproveitados durante o trampo, destaque pras duas tracks que tem o trio Griselda reunido “George Bondo” e um back to back sensacional em “Allah Sent Me”, em que Gunn, Butcher e Conway intercalam na competição de quem cospe mais fogo. Vale destacar também “327” onde Gunn rima bem demais e os convidados não ficam atrás, principalmente, Tyler the Creator que consegue trazer uma certa versatilidade e diversificação em um mar de coke raps.

A delivery do MC deve ser destacada, independente da variação de flows não ser o seu forte, Westside Gunn consegue empregar à sua forte caneta uma forma de entrega bem autêntica e rimas agressivas e muito bem escritas, seja quando está sozinho na track ou acompanhado por seus convidados, seja tendo um approach mais braggadocio ou falando sobre o tráfico e a violência na rua, como podemos ver em “French Toast”.

Clothes from Fifth Ave, broke and got rich fast
How you figure you niggas ill and you illin’, millin’, and shillin’
Icon, what a wonderful feeling, put holes in your building (Boom, boom, boom, boom, boom, boom)
Allah willin’, I be touchin’ big bags (Ah)
Goyard leashes on all-red Saint Bernards
Saint Laurents, water whip the coke with the Avian
They be on bullshit, I be on real time
I be out in France with Clovis, sippin’ real wine
Toast to my real niggas that’s sellin’ dope still (Ah)

Como eu tinha dito mais acima, supostamente o gangsta rap estava morto e enterrado desde 2008~2009, porém desde que ouvi “The Plugs I Met” do Benny, estou certo de que essa galera de Buffalo conseguiu dar uma nova roupagem àquela velha fórmula de boombap 16 barras que foi consagrada na era Golden Era. Apesar de utilizarem uma estética semelhante e beats parecidos, uma atmosfera meio lo-fi, com barulhinho de fita cassete regravada 73 vezes, há novos elementos sendo trazidos, como por exemplo, ad-libs, recurso muito comum no trap, estão (excessivamente) presentes aqui, produções mais baseadas no compasso de hihats também podem ser vistas, assim como o uso de sintetizadores ao invés de recortes de samples de músicas já existentes, apesar do Preemo interpolar Prodigy e o Phife Dawg em “Shawn vs. Flair”.

Não obstante o disco ser muito bom e seguir uma linha reta do começo ao fim, bem pé no chão com seu tema e coeso na montagem, Gunn vacila um pouco em alternar os temas entre as tracks, por exemplo na transição entre a supracitada track com Dj Premier e “Party With Pop Smoke”, onde saímos de uma clássica programação de bateria com sample usado como ponte, pra um beat mais “sombrio” menos rimado e mais declamado, ou ainda na transição de “No Vacancy” que é meio que uma ponte entre a intro “400 Million Plus Tax” e a real primeira faixa “George Bondo”, onde senti uma preparação meio fraca para a pedrada que a faixa representa.

Levando isso tudo em consideração, “Pray for Paris” é um álbum muito bom, que pode ir para dois caminhos num futuro próximo: se consagrar e entrar para a prateleira de grandes discos clássicos, ou ser bem recebido entre os connoisseurs de hip hop e ficar no limbo de discos ótimos conhecidos somente pelos curiosos. De toda forma, o trabalho me agradou muito e tem uma audição bem fácil, agradável e profunda, no sentido de agregar pequenas coisas a cada nova ouvida, penso que daqui uns meses ele depura e fica ainda melhor. Apesar de uma outra falha aqui e ali, é um projeto sólido com uma qualidade superior a muita coisa que saiu até agora em 2020, porém, acredito que não faça tanto barulho por não ter faixas para o grande público ou pra pista por exemplo.

No mais é isso aí mesmo e voltamos logo menos com mais reviews pra vocês, não se esqueçam de me seguir na rede social do passarinho e dar um salve lá se curtiu o texto.

Peace Out.