Sim, dois. Após um excelente álbum de estreia em “1992” e uma sólida e distinta mixtape em A Girl Cried Red, a complexa e interessante rapper Princess Nokia apareceu de surpresa anunciando dois dias antes do lançamento não um, mas dois novos álbuns. Apesar de serem lançados na mesma data, ambos os discos soam como opostos e retratam diferentes facetas de Destiny Frasqueri (nome de batismo da rapper). As capas evidenciam bem a ideia que os álbuns seguem: Everything Is Beautiful (EIB) traz algo mais colorido, positivo e alegre, mas isso é quebrado pela mancha de sangue no rosto da artista, que mostra um sorriso tão inquietante quanto o de Mona Lisa; enquanto isso, a arte de Everything Sucks (ES) passa a clássica imagem da “garota gótica e rebelde”, que se contradiz pela presença do gorro rosa e o ursinho de pelúcia. Cada capa efetivamente guia o sentido dos discos com essas contradições aparecendo esporadicamente ao longo de cada trabalho.

EIB é uma obra que se destaca por sua expansividade na colorida produção, repleto de momentos de destaque por linhas de baixo ou piano e uma representação do lado mais sensível de Destiny, que usa disso para se empoderar e se defender do ódio recebido ao longo do álbum; por outro lado, ES tem uma produção muito baseada em cima de batidas de trap, com algumas ambientações mais obscuras e a personalidade mais agressiva da rapper sendo exposta ao longo do disco de diferentes formas.

Logo de início de Everything Is Beautiful “Green, Eggs And Ham” dá o tom sonoro pra boa parte do disco, com influências de jazz e gospel num delivery que soa mais ingênuo quando a artista fala de forma saudosa de sua infância. “Happy Place” e “Soul Food y Adobo” são só exemplos de músicas que partem do mesmo lugar, com uma sonoridade tão leve quanto a performance da artista.

A versatilidade da MC é destacada logo no início, quando em “Happy Place” ela diz “Art thot, that’s me, I dance, I rap, I sing”, dando aqui o fortalecimento da autoestima que ela vai mostrar ao longo do disco. Os flows mais calmos dão lugares a versos cantados ou em tons mais altos como na excelente “Gemini”, um ponto chave nos dois projetos, em que a presença de diferentes vozes e facetas de Destiny é visto em uma ótica astrológica

And like a Gemini, I’m really prone to changes

I’m really indecisive and I really fuckin’ hate it

Picking food or picking clothes, it always make me anxious

But thank God I’m androgynous, ’cause boys clothes what I stay in

 

O grande destaque de EIB é como toda a produção cria a ambientação perfeita pra temática e performance da artista. Toma ares maximalistas e bate mais forte em faixas como “Sugar, Honey, Iced Tea”, a melhor faixa dentre ambos os projetos, quando a rapper mostra suas habilidades em algo mais divertido; passeia em momentos pelo lo-fi quando é necessário algo mais tranquilo e também apresenta beats mais espaçosos dando o banco da frente à rapper quando ela canta, como na reflexiva “Wash & Sets”.

Everything Sucks tem uma linearidade maior do ponto de vista estético: as batidas são quase sempre puxadas pro trap e embasando a personalidade obscura da MC; a primeira seção mostra uma criança perturbada por meio de vocais que lembram um filme de terror, cujo plot pode ser fechado com as três primeiras canções, com a personagem Harley Quinn dando não só o título da excelente abertura mas também uma visível inspiração para a performance das canções seguintes. A partir daí, mesmo que hajam grandes mudanças temáticas, ela segue com a mesma face ofensiva e rebelde, seja pra mostrar sua atitude de não ligar para nada em “Gross” ou seu desdém pelos homens com que se envolve em “I Like Him”

Dibble in this, and dibble in that
Get on his head like I am a brat
Play with his balls when he up to bat
Make daddy real proud like I’m Kyla Pratt
I’m taking a shower, he makin’ the bed
When I leave the city, I leave him on read
Go get the next, like I get the bread
He coming with questions, I call him the feds

Enquanto em sua versão mais colorida Nokia busca explorar mais musicalidades e seus talentos líricos e vocais, a aposta em ES é por versos curtos e levadas jogadas a sangue frio, combinando com a mentalidade apresentada ao longo do disco. Belas trocas de flow são vista em faixas como “Practice”, começando mais devagar como em qualquer trap puxado pro plug e acelerando com muita facilidade o ritmo pro segundo verso. A habilidade da artista pra se encaixar no beat transforma as canções como ambientes visíveis – e consegue tornar essas visões assustadoras na primeira metade.

O disco é excelente por ser direto: a MC mostra muita química com os produtores e, assim como no outro disco, uma excelente facilidade de se deslocar dentro dos beats com diferentes flows e entonações. Como se fosse Stephen Curry, Nokia tem capacidade de pegar fogo muito rapidamente, evoluindo de levadas mais lentas pra versos fortes e rápidos, sem deixar a qualidade da escrita ou sua atitude caírem, como faz em “Gross”. A performance da artista não tem momentos ruins ao longo dos menos de 25 minutos do álbum mais obscuro, sendo os versos sempre encerrados antes de haver qualquer queda, tornando o projeto, acima de tudo, uma audição extremamente divertida.

Enquanto a maioria das faixas de EIB são mais bem trabalhadas, os versos em ES costumam ser bem curtos, o que é um reflexo do que se faz no trap, que é a pedra de fundação estilística desse disco. Embora funcione para o bem em faixas como “I Like Him”, em outros momentos as canções acabam antes que a rapper se aprofunde nos tópicos ou antes que os flows se esgotem. Em “Practice” o flow mais rápido e interessante da MC não passa de 15 segundos e entrega de volta para o refrão; “Welcome To The Circus” é uma faixa muito curta pra fechar a ideia da primeira seção do álbum, mostrando dificuldade em desenvolve-la com apenas um curto verso e falas como de filme de horror após ele, que nem serve de ponte para a canção seguinte nem fecham bem a atual. Pra um álbum entregue de forma compacta, cabia mais desenvolvimento em alguma seções que potencializariam mais ainda a já excelente obra.

Em Everything Is Beautiful o problema acaba sendo algo que é a última coisa que se esperaria de Nokia: por momentos é inautêntico. O excesso de foco em jazz e gospel na produção, com algumas levadas mais melódicas soam como algo tirado diretamente do playbook de artistas de Chicago (que nem sequer é uma raiz da MC nova-iorquina), sendo em momentos muito similar a Chance, The Rapper ou Noname; em outros momentos a voz mais cantada soa muito como Jorja Smith ou Rihanna. O melhor de Nokia reside em demonstrar sua atitude forte e seus flows potentes, o que faz muito bem em todos seus projetos, mas, pela primeira vez, ela não se mostra tão original quanto se diz ao longo do disco e de sua carreira e, ao entrar em uma zona de outros MCs, sua performance acaba sendo afetada.

Somando 55 minutos, mesmo que não sejam complementares ou possuam uma ligação sonora ou temática clara, faz sentido ouvir ambos os álbuns juntos. Enquanto há algumas semelhanças temáticas, como a auto exaltação em “Fee Fi Foe” de ES e “Wavy” de EIB, os momentos mais introspectivos de um disco jogam uma luz diferente no que é dito no outro. Por exemplo “Just a Kid”, a última faixa de ES tem a rapper falando de sua infância de uma forma completamente emocional e contando histórias mais pesadas, que além de jogar luz à persona mostrada ao longo do disco, transforma totalmente a perspectiva da primeira canção de EIB (“Green, Eggs and Hams”), onde ela fala de sua infância com um tom mais alegre, enquanto algumas linhas mostram certa rebeldia; ao mesmo tempo, nos últimos momentos deste, a rapper já mostra dificuldades em manter sua força e positividade, fraqueza que leva ao lado mais obscuro de ES.

Os álbuns juntos parecem ter um caráter cíclico, soando melhores em sequência do que apenas separados, com um lado equilibrando o outro, mesmo que o equilíbrio venha com uma oposição tão forte, sendo os dois conectados como no conceito de yin yang: há um pouco de Everything Is Beautiful em Everyting Sucks e vice versa.

Com seus dois novos projetos, Princess Nokia aumenta seu status como uma das artistas mais intrigantes a surgir nos últimos anos e também uma das mais versáteis. Enquanto ES, com sua agressividade é o melhor e mais original dos dois discos, EIB mostra um contraponto e, com canções mais distintas e elaboradas, fala mais sobre Destiny, tanto a artista capaz de se destacar em diferentes campos quanto o ser humano por traz de tudo isso. A certeza deixada por estes trabalhos é que não temos certeza alguma sobre os direcionamentos da MC no futuro da sua carreira, mas que, independente de quais forem estes, ela tem o talento necessário para fazê-lo.

                                            Everything Is Beautiful                                                                                                      Everything Sucks

Author: JH

Fã da arte como um todo, em especial o hip-hop, e palpiteiro de plantão. No twitter você me encontra como @_jhermogenes