Resultado de imagem para 0701 bruxa e gato

Oi, ASCENCIO em quarentena aqui. Ano passado, segundo o spotify, o estilo que eu mais consumi foi lo-fi hip hop e não teria como ser diferente. Tive que ler muita coisa pra faculdade e sempre estudava escutando as playlists do estilo, ouvi tanto que certos timbres e samples me remetem à leituras específicas do romantismo brasileiro, como se, para mim e somente para mim, o Brasil do século XIX tivesse como uma trilha sonora indissociável, essa atmosfera smooth do lo-fi.

Quando dei play no álbum 0701 da dupla Bruxa e Gato (nabru e gvtx), tamanha a influência do lo-fi hip hop, parecia estar relendo outra dupla, as novelas Lucíola e Diva de José de Alencar, foi um sensação contempladora. O álbum foi indicação de um leitor, obrigado! E se você ainda não ouviu, por favor, dê uma pausa na leitura, clique aqui e depois volte para entender melhor o que eu estou prestes a refletir.

São 11 minutos com 7 faixas que variam entre 1 e 2 minutos cada, como manda a cartilha de produção do lo-fi. Gvtx, o responsável por esta, entrega a estética esperada: baterias calmas e abafadas, linhas de baixo na dose correta para forrar os vocais e samples bem cortados com poucas variações, ouça “Nightwing”. Em suma, é bem feito e possui um olhar de quem entende o que se propõe, o famoso menos é mais.

A vida do projeto é dada pela voz e palavras de nabru.  Seus versos se assemelham à fluxos de consciência belíssimos, algo verdadeiramente poético. As imagens se mesclam, emprestam propriedades entre si de tal forma que não há uma unidade bem delimitada, tudo faz parte de uma coisa só: a intimidade de um eu lírico que, a despeito de simplesmente saber rimar numa batida (o que se sabe bem), faz-se isso de forma bela, as palavras de nabru flertam enquanto dançam com o beat. Um belo exemplo disso é a estrutura circular proposta num verso de “Gin, Limon Y Menta”:

nós dois na pista um corpo só, bebendo num copo só
me diz meu bem o que você quer que eu te dou
um corpo só, só mais um copo e po vamo pra casa pra ficar só
só mais um copo num corpo só

Essa mescla proposta pela forma dos versos também é responsável por juntar os espaços. A atmosfera do projeto, que pode ser visualizada como “uma tarde de sábado que passa rapidin”, é intimista, cotidiana e, principalmente, calma. Esses elementos unem o interno e o externo, a casa e a rua são uma coisa só para nabru, como vemos em “JS 10:25”: “cuido das plantas em casa e dos muros na rua”.

As letras também vão encontrar o espaço para questionar nossa realidade como, também em JS 10:25″, coloca-se em jogo a naturalidade excessiva que nos mantém inertes diante de problemas praticamente velados em nosso dia a dia:

fora da zona segura mediamos conflitos, ignoramos tragédia no mundo
como se fossem desastres naturais, nada assustador seguimos naturais

Ou em “Chun-Li”, quando a MC discorre sobre a eterna disputa entre as escolhas necessárias pela busca do cifrão e o domínio sobre seu próprio destino e, de novo, reparem na mescla de imagens e propriedades:

como Chun-Li eu observo a Street Fight
sem escolha às vezes entro nas batalhas
amo o dinheiro e não me rasgo por nada
detesto comprar certa brigas eu não me entrego ao destino, baby

Ouvir nabru rimando é ouvir poesia e lírica, mas atenção, não uso essas palavras no sentido metafórico que muitos MCs gostam de dizer sem nem ao menos saber o que isso significa, estou falando de poesia e liricismo mesmo, sabe? Seus versos são poemas que, convenientemente, para a sorte de ouvintes de rap, se encaixam em métricas de instrumentais que os harmonizam de forma doce e bem feita.  Uma bela flor colorida que se destaca num jardim monocromático.