Treze anos após iniciar sua carreira e fazer barulho nos longínquos tempos de MySpace, finalmente surge o aguardado e mítico álbum de estreia de Jay Electronica. Alguns singles, uma mixtape e raras aparições como convidado (mais notoriamente na histórica Control, com Big Sean e K-Dot) foi tudo o que tivemos do MC, de quem se esperava um álbum pouco após assinar com a Roc Nation ainda em 2010, dando a ele um status em que seu mistério tinha um peso maior que sua música. No entanto, finalmente estamos aqui, e o primeiro conselho para aproveitar o álbum é: esqueça tudo isso.

Depois de tanto tempo, era de se esperar um trabalho solo, mais extensivo e com grandes amostras de talento do rapper, além de um álbum histórico. Não é o que Jay entrega, deixando grande parte do disco para Jay-Z e, no geral, também tendo Hov o maior destaque técnico. Tudo isso pode decepcionar quem tinha expectativas mais sobre o artista principal do que sobre a obra, que por sua vez é excelente.

O álbum tem uma temática densa, que é basicamente o encontro dos terrenos comuns a ambos os rappers: seus status grandes no hip hop, a vida de um homem negro nos Estados Unidos e, mais proeminentemente, a religião, com ambos tendo ligações às seitas islâmicas Nation Of Islam e Five Percent Nation (que eu não vou gastar tempo explicando aqui do que se tratam), variando durante ideais para as duas, ambas defendendo o povo negro islâmico. Com diversas passagem dos dois quase sempre nesses temas, sobra tempo para explicarem diante do público, seja Jay-Z se defendendo das críticas sofridas por seu acordo com a NFL (Why would I sell out? I’m already rich, don’t make no sense / Got more money than Goodall, a whole NFL bench) ou Jay Elec dando explicações sobre a demora no lançamento de seu álbum (Sometimes I was held down by the gravity of my pen / Sometimes I was held down by the gravity of my sin / Sometimes like Santiago, at crucial points of my novel / My only logical option was to transform into the wind), dando assim um grande número de quotables e one liners.

Ao contrário do que fez em Watch The Throne, aqui Jay-Z não tenta disputar o protagonismo, seguindo os caminhos que seu anfitrião dita por meio de sua produção e seus versos. Tomando o banco de trás, Jay se mostra como o maior da história: com mais de 50 anos seus versos soam mais certeiros do que nunca, sem procurar o destaque por volume ou apostando em flows mais fortes, desta vez tomando o tempo para mostrar toda a técnica de sua caneta com esquemas de rima complexos e frases de duplo ou triplo sentido, com destaque pra essa passagem em “Flux Capacitor”:

You backstabbers gon turn me back to the Old Jay

He’s not who you wanna see, he’s not as sweet as the old Ye

Primeiramente a referência vai para o álbum Back Stabbers, do grupo de soul O’ Jays; há também a referência ao famoso caso de OJ Simpson, que teria assassinado sua ex-esposa e sua amiga a facadas; e sobretudo o caso antigo do próprio Jay-Z, que deu uma facada no diretor de cinema e produtor Lance Rivera; ele finaliza a linha dizendo que esse Jay antigo não é tão dócil quando o antigo Kanye, que surgiu na cena sob a tutela de Hov, sofrendo preconceito por não ter envolvimento com esses crimes que a maioria dos rappers da época tinha.

Ao mesmo tempo, Jay Elec fica com a maioria dos holofotes, também trazendo seu A-game em flows que se baseiam mais no estilo spoken word, exigindo atenção do ouvinte para a passagem que ele conta, quase sempre com referências religiosas e usando esquemas de rima complexos e passagens em espanhol, como era no seu longínquo surgimento. O problema é que dar tanto espaço para o maior rapper da história no seu álbum vai ter um efeito contrário: o gap de talento se torna evidente nesse álbum. Não é dizer que a performance de Elec deixa a desejar, longe disso, mas Jay, nesse estágio da carreira, ainda tem mais talento e energia que praticamente qualquer MC na cena e toda vez que desce de seu trono para rimar, faz disso um acontecimento. Enquanto isso, Jay Elec se prende demais na sua religião para contar sua história, dando pouco sobre o homem do álbum e muito mais sobre sua relação com seu deus, em um projeto que não tem essa premissa (embora o faça melhor do que certos artistas). Quando passa mais tempo fora dessa área, temos muito mais coisas interessantes para lidar, como na curta “Fruits Of The Spirit”, mesmo que as melhores passagens a nível de técnica estejam ligadas a sua relação com a Nação do Islã, sendo o principal exemplo disso “The Neverending Story”, que tem os dois MCs com performances difíceis de se bater.

Em termos de produção Jay Elec trouxe uma equipe estelar para ajudá-lo. Sendo ele o principal produtor ao longo do álbum e trazendo excelente nível, seus convidados seguem o mesmo caminho para a produção mais low-key, flertando com o lo-fi e o psicodelismo que são marcas do artista, tendo na lista nomes como AraabMuzik, Swizz Beats, HIT-BOY, Khruangbin, No I.D, The Alchemist. Com assistência curta, porém bem feita de Travis Scott (aqui é onde agradecemos a Alá pelo trapper não entregar o mesmo feat de sempre) temos o beat e a atuação mais elétrica do disco, com um verso incrível de Jay-Z enquanto os dois MCs vão em esquema de back-and-forth até Travis chegar com a ponte e um beat-switch que tornam a faixa incrível

Listen, I named my son, Sir, so you gotta call my son, “Sir”

That boy already knighted, he ain’t even out his romper

You speakin’ on the kingdom, you better watch your tongue, sir

I send you where you never been, you forget where I’m from, sir?

That gossip I send bald heads, Lou Gossett out the gun, sir

I’m brazy, I’m so brazen, I’m “Raisin in the Sun” sir

You can catch this broad daylight, you know the Kingdom come, sir

“Flux Capacitor” é a melhor faixa do disco, com um beat feito em cima de samples da Rihanna em “Higher” e o melhor refrão do cd, sendo aliás um possível competidor para melhor faixa de rap do ano, visto que o nível de qualidade é alto do início ao fim. As três faixas finais soam como um caminho para o fim sonoramente, com pouca presença de bateria e maior chegada de instrumentais destorcidos, com destaque na belíssima “Ezekiel’s Wheel”, que tem The-Dream com uma performance vocal no refrão tão suave que parece uma cantora de soul antiga, enquanto Jay-E toma um tom mais reflexivo sobre si no 2º verso e tem uma de suas melhores performances em todo o disco, com Hov ajudando no refrão e pré refrão. Na outro “A.P.I.D.T.A” há mais uma produção aconchegante baseada em instrumentais, sendo o título um acrônimo para “toda a glória é para Alá”, numa faixa em que ao mesmo tempo que Elec agradece por tudo em sua vida, ambos lamentam pessoas que perderam. A performance se torna mais pesada emocionalmente com o fato de que, segundo o rapper, a faixa foi gravada na noite após a morte da lenda Kobe Bryant. Rest In Peace.

Pra quem esperava uma grande amostra dos poderes de Elec, pode-se considerar o projeto uma decepção. Pra quem esperava um grande álbum, é isso que recebemos: quase 40 minutos de uma experiência de audição totalmente agradável, com excelentes e complexos versos do anfitrião, e Jay-Z soando como rei do hip-hop até mais do que em seus 2 últimos trabalhos. “A Written Testimony” é um excelente disco, independente de ser ou não considerado um álbum solo, deixando a nós a expectativa de que seja o início real da carreira de Jay Electronica e que não tenhamos que esperar outros 10 anos por outro trabalho do MC.