Ascencio, de novo. No meu último texto aqui no site, comecei falando sobre as tendências que, lá de fora, influenciam a nossa cena por aqui. Ressaltar isso mantem-se válido para esta reviu também. Produtores cada vez mais na gringa estão assumindo o ponto principal sob os holofotes de trabalhos que não somente possuem suas tags e assinam seus nomes, mas também jogam com a sua própria imagem. Sem dúvidas, trata-se de um processo de emancipação de uma classe fundamental para manter as engrenagens do rap girando, principalmente num momento onde a sonoridade cada vez mais toma o espaço da lírica quando há de se determinar o que vai ou não fazer sucesso.

Quer ver como essa inversão se aplica com um exemplo prático?

Embora hoje em dia alguns MCs tendem a fechar projetos com um único produtor, ainda assim, se mantem uma cultura de entender um álbum de rap como o MC diante do projeto sendo o fio condutor, o principal ponto de coesão da obra, afinal, ele está em todas as faixas, e estas, por sua vez, são sortidas de vários beatmakers (que muitas vezes também são os produtores).

Pois bem, Febre Amarela de WillsBife, com pouco mais de 45 minutos de trap distribuídos em 14 faixas e muitos, muitos, Mcs, é um exemplo de inversão dessa pirâmide, onde estes últimos costumavam ficar em destaque no topo, e, na minha modesta opinião, essa mudança tenderá a uma recorrência cada vez maior por aqui. Com inversão quero dizer que, não somente tem-se o nome e o rosto do produtor na linha de frente do projeto, estruturalmente a situação também muda. Agora, o papel de dar liga fica com a produção, o que varia são os MCs, e isso, obviamente, tem suas implicações.

Tendo como carro chefe a produção, de antemão já destaco que, realmente, é muito cuidado do senhor WillsBife. Como um todo, o produtor entrega um trabalho que mantém seu alto nível, seja em produções mais autênticas ou genéricas (e existe uma certa cota dessas), há sempre o cuidado de se trabalhar nos pequenos elementos que podem ser notados por ouvidos atentos: o R&B de “BABY”, onde você encontra uma harmonia interessante com pequenas sonoridades asiáticas; o orgão, piano e baixo bem colocados de “UZE”; o sax de “531” trazendo um quê de Jazz; as transições do sample quase cru na belíssima “NADA”; os sintetizadores fundamentais na ambientalização das faixas finais; enfim, poderia ficar aqui por um bom tempo enumerando o cuidado e a sutileza de recursos apresentada.

Produções mais dançantes, produções que batem mais pesado, algumas outras mais calmas, beirando até certa atmosfera intimista. Tudo isso claramente é resultado dos 3 anos de trabalho colocados nesse projeto. É louvável tal dedicação numa época onde a pressa se faz presente em detrimento do cuidado artístico. Boas mixs e masters, com pequenos e desimportantes deslizes, onde se valoriza ainda mais o trabalho multifacetado que um produtor brasileiro deve ter, englobando funções que, lá fora, são bem mais distribuídas.

Falando mais da grande quantidade de MCs — vou tentar resumir ao máximo a explanação — eles são o verdadeiro desafio do produtor.  Desde Rodrigo Ogi e Victor Xamã, passando por Flora Matos e Coruja, até chegar num DaLua e Ebony; ou seja, são perfis muito diferentes a serem postos na roupagem de trap proposta. WillsBife tenta, mas nem sempre consegue, encaixar cada particularidade de forma satisfatória.

Num tom geral, aqueles que nasceram no subgênero e já possuem completo domínio de sua entrega, somados a produção de qualidade oferecida, fizeram o que sabem fazer. Isso quer dizer que nomes como DNASTY, em “PQP”, Ebony, em “STRIP” foram pontos altos, assim como as surpresas nas linhas de Onnika, em “UZE”, e na melodia de Gabz, em “PAREI”. Também quero dizer com isso que KK Ousado, Yunk Vino, dentre boa parte dos outros nomes do projeto, entregaram o básico standard, nada brilhante.

Temos aqueles que possuem certa zona de congruência de seus estilos mais característicos com o trap proposto: Flora Matos e Luccas Carlos, que sustentam suas próprias faixas respectivamente, “BALANÇAR” e “VIAJEI”, assumem o protagonismo oferecendo um leque de habilidades suficientes para tal.  Coruja (nosso 21 Savage) em “UZE”, arrisca um “ASMR Flow”, a ideia até que instiga, mas não se entende bem o que está sendo dito, talvez um problema de master ou captação.

Por fim há Ogi e Don L, os dois nomes de maior tradição do álbum, representam participações que, sem dúvida, foram mantidas pra dar mais crédito ao trabalho do que por qualquer outra coisa. “531” talvez não tenha sido a melhor escolha pro o nosso vovô querido, Lino Krizz é feliz quando usa sua voz como uma espécie de ponte entre os vocais e o instrumental mais dançante, mas, a entrega de Ogi em alguns pontos específicos soa desconfortável no beat, no entanto, não é de todo mal. Já o seu xapa, em “DESEJOS”, um belo trap com influências de salsa caribeña (reforçando mais uma vez a diversidade na produção do projeto), surpreendentemente, achou espaço para falar de destituição de fábricas, reforma tributária, democratização do ensino superior e autossuficiência alimentar, parabéns, é o trap de mensagem.

Febre Amarela é versátil e cuidadoso principalmente no que se propõe: produção. Nela, entrega um material de alto nível. A inversão na pirâmide, dita anteriormente, é bem feita, não apenas chamando a atenção para o trabalho do produtor de forma mais ampla, mas também deixando bem claro que está na produção, na sonoridade, no papel do instrumental, a proposta de materializar a tendência vitoriosa que o trap representa, se proliferando de forma arrebatadora como uma vez fora a doença nomeada pelo álbum. Já passa da hora de olhar e valorizar mais nossos produtores e entende-los pelo o que eles são, artistas completos, ora.

Author: ascencio

Eu gosto muito de rap, mano. Sério. No twitter é @__ascencio.