Oi, Ascencio aqui. A importação de referências gringas no rap nacional se dá de forma recorrente, em muitos níveis e em diversos aspectos. Isso não precisa ser justificável, o mercado lá fora é extremamente mais maduro e possui um poder gigantesco para criar tendências que, obviamente, são concebíveis por aqui. Nesse sentido, nossa mais recente incorporação é o Grime, (sub)gênero britânico de muitas diferenças e semelhanças com o sumo do rap. A cena por aqui está passando por um estágio semelhante ao do trap br há alguns anos: uma fase de adaptação e, talvez, um início de proliferação com fortes candidatos a expoentes. Dois destes são o produtor e DJ CERSV e o MC Febem, a equipe fica completa pelo MC Fleezus e, desse trio paulistano, surge o projeto que será avaliado.

BRIME!, assinado unicamente por CERSV,  tem aspirações à vanguarda, apesar de certa despretensiosidade declarada por Febem em entrevista. De qualquer forma, as intenções estão postas e um novo termo foi cunhado. O amálgama entre a sigla “BR” e o nome do estilo tem implicações (não só linguísticas) de conceituar, e agora assim digo sem dúvidas, um subgênero que se aproxime mais de influências estéticas brasileiras, seja pela musicalidade, seja pela temática que expressa a vivência dos artistas, por meio de elementos que refletem a cultura de favela e do futebol, dois pilares imagéticos importantes da obra, o segundo claramente aludido pela capa.

Esse é o cenário e esta é a proposta, vamos à análise.

A naturalidade e fluidez entre os três membros é clara, Cesrv conhece seus MCs e entrega produções confortáveis para serem exploradas. Seguindo uma tendência da nossa indústria, os beats possuem influências do funk, gênero brasileiro que o que tem de popular tem de versátil. A cadência rítmica varia de 130 a 150 bpms, ou seja, algo facilmente relacionável para o ouvinte do estilo brasileiro. Buscando também não cair num caráter extremamente experimental, os elementos eletrônicos do grime e uk garage também estão ali e, em determinados momentos, trocam de função com os aspectos da musicalidade nacional, ou seja, saem da condição de coadjuvante e assumem a sonoridade principal, como por exemplo na repetitiva “FALA MEMO” e na boa “TERCEIRO MUNDO”. O destaque da produção vai para “YING YANG”, exemplo atômico dessa proposta de mistura que funciona bem e envolve o ouvinte.

Do lados dos MCs, Febem e Fleezus se valem, recorrentemente, de alternações de rimas dentro do mesmo conjunto de versos, todo álbum colaborativo que se preze deve possuir esse esquema de distribuição em algum momento, demonstra sincronia e unidade. O que mais se destaca e também se alinha com a proposta do álbum são as entregas melódicas típicas do funk. Definitivamente momentos de congruência que demarcam os pontos altos do projeto, rimas em “RADDIM”, por parte de Febem, e nas já mencionadas, “TERCEIRO MUNDO” e “YING YANG”, na entrega de Fleezus, são exemplos disso.

“CHELSEA” e“SOHO” se destacam cada qual a sua forma. A primeira apenas pela temática, concentrando a grande parte das referências futebolísticas do álbum; a segunda não só pela temática amorosa, mas também pela produção puxada pro afrobeat que, por sua vez, induz os MCs a quebrarem, mesmo que um pouco, a monotonia dos seus flows.

Indo além desse recorte, temos um conteúdo mais dominante que anima pouco e não se inova. Febem possui mais material para demarcarmos uma zona de conforto quanto à sua entrega de flow e rimas. Do primeiro temos as métricas curtas e pausadas que servem em alguns momentos, mas, na maior parte do tempo, cansam. Das segundas, baixa complexidade técnica com algumas comparações e imagens de relevância aqui e ali. Febem está numa poltrona criativa confortável desde de “Elevador” praticamente e não parece muito disposto a se levantar. Fleezus, de carreira mais jovem, além de pouco conseguir acompanhar seu companheiro de rima no que diz respeito a linhas de fato, demonstra em alguns momentos, como na faixa “CHELSEA”, dificuldade para dispor suas palavras no espaço que o beat lhe propõe, o desafio de métricas curtas é lidar com o vazio do instrumental de maneira que este sobre de forma natural, o que nem sempre ocorre.  Por fim, a produção, com inveja dos desníveis mais baixo dos MCs, também, em menor escala é verdade, tem seus momentos de mais do mesmo comparando-se com o modelo britânico, vide “FALA MEMO”. Isso não seria um problema destacável, se a proposta não fosse criar algo novo.

BRIME! é um trabalho curto de 6 faixas. Rápidos 20 minutos que, enquanto projeto completo, não alcança um replay value de papel fundamental para garantir a difusão, principalmente, de um conceito novo. A proposta de brasilidade está presente e funciona bem, de forma isolada. Estamos sim diante de uma autenticidade sonora na cena nacional, e há crédito nisso. Mas só isso não se mantem, pois essa novidade toda encontra, em muita das vezes, um vazio quando tenta migrar para o lado dos MCs. Uma nova sonoridade foi fundada; já um novo estilo que faça escola, que seja um marco histórico, que revolucione o rap nacional? — e aqui falo diretamente para a forma como meus companheiros de mídia tendem a se comportar — respondo-lhes que não, nem perto disso. Pode ser que algo consistente crie raízes e cumpra esse papel de forma completa, mas, definitivamente não será nesse primeiro momento. Quem sabe num outro, numa nova tentativa com mais protagonismo por parte dos envolvidos.

Vou maratonar os vídeos do Brasil Grime Show agora, tchau.