Salve quebrada, tamo de volta! Shaq por aqui e bora falar do menino comportado da cena, aquele que fez a diss pra ele mesmo: Rashid, tá com trampo novo na pista e vou dar meus 10 centavos sobre “Tão Real”. E pra começar logo já pergunto: qual seu conceito?

Rashid inicia o trabalho com esse questionamento, na intro em um entrevista, o entrevistador (sepá o Marcílio Gabriel) faz essa pergunta e é rebatido com a máxima “inspiração não pode ser forçada”, em partes concordo, porém, de certa forma o MC do Lauzane tem sim um conceito do trabalho, inclusive pela forma de lançamento, o disco foi separado em “temporadas” e vêm sendo lançado desde setembro passado em blocos de 6 faixas, cada qual com seu respectivo single (o primeiro meio misturado com reggae achei fraco, mas o segundo com a Duda Beat, bem pop tem força pro mainstream). De toda forma, vamos analisá-lo como um todo, como o lançamento final no inicio do (infinito) mês de Janeiro.

Depois da intro que já é emendada na primeira track temos uma pequena sequencia do Rashid como já estamos acostumados, beats fortes, muitas punchlines e autoafirmações da origem e do seu tempo na cena, mas tudo que transparece de verdade é que apesar de boas as faixas, com exceção do já citado primeiro single “Todo Dia”, um MC que não inova a algum tempo e rima os mesmos assuntos com outras técnicas e beats (bons, mas) similares. Fiquei com essa sensação até a primeira lovesong, que o Michel sabe fazer bem (ceis tão ligado que a Bilhete é de 2000 e plau e ainda toca no rádio né?!). Seguimos e Rashid mantém a mesma toada que os trampos anteriores, alternando entre lovesongs e uns raps mais ácidos, com uma variação de produções mais enérgicas e uptempo e umas mais relaxadas, trazendo aquela sensação de “W” que vamos sendo levados à pequenos clímax, construindo uma expectativa sobre o todo.

Os grandes destaques no disco (além das participações, vou falar já já) são as tracks mais introspectivas, que seria o mínimo em um trampo com o nome que leva certo? De toda forma, Rashid nos consegue passar muitas vezes as suas vivências pessoais, seja sobre relacionamentos, situações específicas (lembra d’A Cena?), vícios ou até situações pessoais que não prestamos atenção e somos expostos ao ponto de vista peculiar do MC, “Eu” é uma puta faixa, uma sessão de terapia quase.

Falando sobre a produção, aqui no QG nós temos um ditado: MCs com um bom ouvido pra beat, geralmente rimam pouco, a grande maioria das vezes isso se traduz em verdade, aqui é uma meia verdade, pois Rashid não rima mal, só não inova, o que de certa forma não é um problema se você não acompanha de perto o trampo do artista. Temos uma gama de estilos que vão do reggae (já falei que não gostei dessa né?!) ao pop, destaque pra boa produção de “V-I-S-Ã-O” autoria do MC e a leve “Pipa Voada” (prod. do Dogz) que tem a tão pedida reunião com Emicida, inclusive se deu MUITO melhor nesse tipo de produção que o autor da track, o convidado roubou a cena não como costuma fazer, mas com um timbre bem mais leve e agradável que trouxe muito da “maturidade” de AmarElo pra track, apesar de ser uma faixa bem “rasa” em perspectiva do contexto do disco. O sample usado pra melodia em “Blindado” também merece seu destaque, apesar da programação de bateria não ser a mais ideal e a delivery do MC parecer um pouco cansada.

Os convidados apesar de diversos trouxeram um certo frescor ao disco, o que de alguma forma diferencia esse trabalho dos seus irmãos mais velhos no quesito que não temos na maior parte do tempo punchlines e versos sobre versos do MC, que apesar de ter uma boa caneta, em certas formas abusa de algumas linhas passando a impressão de forçar uma boa sacada pra parecer mais sagaz do que precisaria, trechos tipo:

Meu som deixa a cena mais picante
Chame de raiz forte
Depois que a onda passa, o mar engole o bote
‘Cês são peixe pequeno, truta, meu verso é cachalote
Lá fora o holocausto, ‘cês quer holofote
Vota que nem KKK, mas quer ser K-Dot, ahn (Zé povin’)

Uma outra coisa que me incomodou (pouco) é que não só na forma de escrita, Rashid se acomodou em algumas “fórmulas” de criação de tracks, por exemplo em “Meu Amigo Tempo” com a boa participação do trio Tuyo, que em outros trampos seria uma participação da Srta. Paola com a roupagem da época. Apesar de todas essas ressalvas, no conjunto da obra “Tão Real” é um disco OK, tem um replay value baixo, mas uma ou outra faixa ali vão acabar indo pra alguma playlist e vão ser revisitadas de vez em quando. Como já disse sobre os singles “Sobrou Silêncio” é Encontro(com Fátima) material e o mais novo “Pipa Voada” é boa, já já aparece algum cover acústico dessas youtuber da vida e estoura por aí.

Há tempos tivemos uma discussão no Defecast sobre o por quê do Rashid não ter estourado pras massas apesar do potencial, acredito que o produto final apresentado aqui explica bem o motivo, é um trampo em suma bom, porém com algumas falhas, que outros MCs já superaram e não cometem, mas de toda forma Rashid escreve bem e deveria explorar isso de uma forma que não soe repetitivo.