Guess who’s back? Back again? Shady is is back, tell a friend! Pela terceira vez em pouco mais de dois anos e pela segunda vez seguida sem aviso prévio, a lenda do rap, Eminem, dropou um novo trabalho, o 11º álbum da sua carreira. Ainda mantendo o grosso do que fez em seu último projeto, ‘Kamikaze‘, neste projeto Shady se mostra disposto a ganhar de volta o público de que tanto o tem criticado e para isso ele abre os ouvidos a algumas críticas, fazendo algumas concessões ao que se pratica no rap atual, entregando um trabalho com mais mensagem e em certos pontos com uma certa aura mais conceitual, mesmo que ele não consiga deixar ao público o gosto da descoberta.

Neste disco Eminem volta a trabalhar mais proximamente com seu grande colaborador, Dr. Dre, que possui diversas citações ao longo do álbum e créditos de produção e mixagem por todo o disco, não sendo difícil imaginar que ele tenha sido a cabeça por trás da sonoridade. Em engloba com mais naturalidade sons mais atualizados, ao mesmo tempo que trabalha em cima de beats que soam mais antigos. “Yah Yah”, um grande aceno pros mais saudosos, com feats de Q-Tip, dEnAun e Black Thought, além do beat incrivelmente construído em cima de “Woo Hah” de Busta Rhymes, sendo um posse cut ao maior estilo anos 90; “I Will” é outra música ao mesmo estilo, porém dessa vez funciona muito mal e é totalmente desnecessária ao disco. Essa inconstância marca o álbum inteiro, com canções excelentes como Darkness (a melhor música do MC nos últimos três discos) sendo seguidas por faixas totalmente descartáveis, como “Leaving Heaven”, que mostra outra tendência: Eminem tem sérias dificuldades em largar alguns vícios antigos. A música é talvez a milésima colaboração do rapper com a cantora Skylar Grey, sempre ao estilo “verso que é só um build-up pro refrão de uma cantora de R&B e repete três vezes”. Dá pra citar diversas vezes em que o rapper fez isso ao longo da carreira, e por favor: chega.

Apesar de seguir com colaboradores frequentes como Royce e Skylar, tem que ser dado o crédito a Eminem: ele parece ter descido do pedestal de velho reclamão que diz “nada da nova geração presta”, buscando reconhecer onde há talento. Além de se desculpar com Earl e Tyler por ofensas feitas no seu último LP, o rapper sai da sua zona de conforto e parece ir atrás do que ele realmente considera bom. Além de ter o produtor D.A Doman (D.A Got That Dope) em múltiplas faixas, o MC traz como artistas convidados a excelente Young M.A, que tem um dos melhores versos do disco, Don Tolliver, que é meu palpite pra artista a estourar esse ano, o recém falecido Juice WRLD (R.I.P.) e Anderson .Paak (o mais surpreendente aqui é como Eminem consegue utilizar mal um dos artistas mais versáteis dessa geração). A maioria dessas colaborações acaba saindo em bom nível, mostrando uma certa noção da realidade do MC que não aparentava existir no último disco, o que o deixava atrasado em relação a superestrelas do tempo do rapper como Jay, Wayne ou Kanye.

Ao longo do álbum ele sempre cai em vícios antigos que já foram criticados e ele aparentemente não está disposto a aprender. Muitas rimas são sexistas ou problemáticas, como em “Those Kinda Nights”, em que ele diz Stripper walk by, I’m like “Goddamn”/She’s like “That’s harassment,” I’m like “Yeah, and?””, música que conta com um refrão péssimo de Ed Sheeran. Por favor, parem de trazer ele pro meio do hip hop, eu imploro. Ele não tem nada a agregar. Em “Unaccommodating” o MC traz sua rima mais debatida:

“I’m contemplating yelling ‘bombs away’ on the game/Like I’m outside of an Ariana Grande concert waiting.”,

o que rendeu um comunicado do prefeito da cidade de Manchester, onde houve o atentado durante show da cantora que ele ironiza. Além disso, segue a mesma tendência que tanto rendeu rejeição em Kamikaze, em que o MC passa chorando pela recepção negativa recebida em seus álbuns antigos, atacando a nova geração e se sentindo injustiçado e perseguido, se questionando na primeira faixa por que Jay-Z e Tech N9ne não são atacados como ele. Eminem, se você é atacado e eles não, o problema talvez não esteja na nova geração… mas em você. Embora o MC tente reconhecer qualidade, não perde a oportunidade de atacar a nova geração, e faz isso de péssima forma. Ao invés de assassinar (como o álbum promete) esses MCs, ele só se expõe com barras ruins.

But it seems like the more they studied my music

the more they remind me of eyeballs

I’m watching my pupils get cornier

Isso foi a coisa mais corny que alguém poderia dizer.

Outro vício que ele não consegue largar é essa necessidade de rimar rápido. “Godzilla” é uma das melhores faixas do álbum, o que Eminem deveria fazer atualmente, com excelentes versos, beat, flow encaixado e um refrão muito bom de Juice WRLD (R.I.P.), mas ele não consegue se aguentar com um speedflow no último verso. Toda vez ao longo do disco que o MC faz isso soa como apenas uma tentativa de mostrar essa habilidade (curiosamente parece uma fixação comum a rappers brancos que se acham a salvação do hip hop), sem um propósito para a música ou sem algo a dizer.  Ninguém liga que você consegue falar duas mil palavras em três segundos se elas não dizem nada.

“I’m ’bout to fuckin’ finish you bitch, I’m unfadable

You wanna battle, I’m available, I’m blowin’ up like an inflatable

I’m undebatable, I’m unavoidable, I’m unevadable

I’m on the toilet bowl”

A técnica de Eminem é preciso dizer, está na melhor forma em anos, com versos excelentes como em “Unaccommodating” ou “U Gon’ Learn”. O rapper consegue ao longo do álbum entrar numa vibe introspectiva, e quando ele consegue se afastar dos seus vícios ele traz ótimos resultados. A busca pelo passado costuma trazer suas letras mais significativas, como em “Leaving Heaven” ou “In Too Deep”, mesmo que nem sempre ele consiga aliar essa visão com boas canções. “Stepdad” é horrorosa, desde suas falas e o refrão que deveria sair de uma música de um iniciante de 15 anos, não de um dos caras mais experientes do jogo; ver um cara falando ‘Cause of this motherfucker, who sticks his dick in my mom’ é algo meio… nem sei o que falar.  No primeiro single “Darkness” ele busca uma carta antiga de seu baralho para rimar da ótica de outro, uma persona semelhante à usada na clássica “Stan” (o homem branco solitário e carente), em que ele – com maestria – se põe na visão do atirador do maior massacre da história dos EUA, num festival em Las Vegas. 

Apesar de bons momentos sendo introspectivo, isso mostra uma certa falta de versatilidade do MC: a recorrente necessidade por estar puto, como se ele não pudesse rimar de uma perspectiva que não seja o ódio, a raiva, a afronta. Mesmo em seus melhores momentos, Eminem precisa achar algo pra reclamar, não conseguindo entender sua posição como um dos rappers mais ricos e bem sucedidos da história, que até na última década foi um dos que mais venderam e é um dos caras mais respeitados da história do gênero, seja por caras velhos como 50 Cent, que diz que ele é o melhor da história, seja pra rappers mais novos como Kendrick ou o próprio Juice WRLD. Ninguém chega a esse estágio com respeito unânime, mas se você focar numa minoria que realmente te odeia (e não quem apenas faz críticas a respeito da sua música), você é o responsável pelo sentimento negativo. Eminem precisa focar mais nas habilidades que mostra em “Darkness”, ao invés de repetir de diversas formas diferentes a raiva sem direção que não cabe mais nesse estágio de sua carreira ou vida. Ele não é mais um jovem pobre e com família desfuncional de Detroit; ele é um homem de quase 50 anos, sentado sob uma legião de fãs e um net-worth de 230 milhões de dólares.

Apesar de uma tentativa de soar conceitual ou cult, com dois skits com entrada de Hitchcock além da capa mencionando a lenda do cinema, Music To Be Murdered By não segue um conceito claro a não ser o que segue Eminem a carreira inteira: a do homem branco com dedos do meio levantados, constantemente revoltado sem um motivo claro pra isso. Embora inconstante e muitas vezes infantil (“Getting head in a bucket…Marshmello”??????????), o novo disco é uma evolução comparado aos seus últimos discos e uma amostra de, embora ainda muito pouco, um entendimento do que ele representa e o que ele pode fazer pra recuperar sua forma de ícone para as novas gerações, não apenas um tio chato e parado no tempo.