Oi, sou eu, Ascencio. Como vão os senhores? Eu vou bem, obrigado.

Quando soube que teríamos este álbum póstumo, corri para reclamar esta reviu e cá estou. Assumo que o que me trouxe essa euforia foi poder escrever novamente sobre a arte desse artista que admiro tanto. Mas, ouvindo o álbum, analisando sua estrutura e suas faixas, comecei a me questionar se estava diante da arte de Mac Miller de fato ou uma visão que alguém ou um grupo de “alguéns” têm sobre ela.

Jon Brion, cantor, compositor e produtor musical é o principal nome dessa visão. Pelo que sabemos, ele esteve próximo durante boa parte do processo criativo de Mac, era respeitado pelo MC e tinha carta branca em diversos aspectos da produção. Com a morte de Malcolm, ele foi o responsável por tentar juntar as peças incompletas desse projeto, buscando um tom final que unisse tudo. Isso dificilmente não seria um problema, já que absolutamente ninguém além do próprio artista tem o que mais se aproxima da plena consciência sob o processo criativo e a arte que está sendo construída. Entretanto, aparentemente, eu ainda estava mais otimista do que deveria.

Antes de mais nada, você precisa ler minha reviu sobre o belíssimo Swimming. Circles, o novo álbum de Jon Brion, quer dizer, de Mac Miller, foi feito para ser um “acompanhante” deste outro, a junção dos dois nos traria a ideia de “nadar em círculos”.

Em certos níveis como o temático, técnico e estrutural os dois álbuns deveriam se complementar. Swimming segue uma linha mais reta, possui um caminho, uma sequência, assim como o flow que Mac entrega em seus raps. Circles apresenta uma nova proposta, algo mais curvilíneo, uma abordagem circular já introduzida na última faixa do álbum anterior, “So it Goes”, que acaba servindo de prefácio para este álbum; tudo isso combina com as variações melódicas presentes aqui. Resumindo, em Swimming, apesar de termos melodias em alguns vocais, temos muito rap, e o rap em sua essência segue uma nota só, ou seja, uma linha reta; em Circles temos a predominância de flows melódicos, variações de notas e tons, com pouquíssimo rap, ou seja, um caminho cheio de curvas, bem mais circular.

Essa é a ideia, vem comigo para saber o que acontece na prática.

Já de antemão eu te garanto: não há uma faixa ruim sequer, todas possuem sua beleza. O MC tem pleno controle de sua voz, letras e entregas melódicas, a produção é exemplar e cuidadosa, nessa experiência sonora temos influências do R&B, muito Soul e um pouco de Jazz.  O tom calmo e brando, na maior parte do tempo, dita a atmosfera, o que mais chama atenção em determinados momentos é toda essa calmaria em contraste com imagens tão desoladoras e temerosas postas por Malcolm. Parafraseando o próprio, é como se você estivesse bebendo um vinho, calmamente, vendo o mundo acabar.

Well, I drink my whiskey, and you sip your wine

We’re doing well, sittin’, watchin’ the world fallin’ down, its decline

“Circles” é a faixa inicial, responsável por apresentar as primeiras noções do álbum. Trata-se da incerteza que existe em dar o próximo passo em nossas vidas, a sensação de que nada, não importa o que façamos, vá um dia mudar verdadeiramente, porque estamos andando em círculos e os lugares onde começamos e terminamos são os mesmos. Note que é uma versão pessimista de “Hurt Feelings” do álbum anterior, onde as mudanças se faziam constantes.

A ideia da primeira faixa será justificada pelos problemas de Mac. Daí em diante todo o álbum, em toda track, tudo girará em torno dos contratempos psicológicos/mentais, seus abusos de substâncias e as consequências disso em sua vida, esses são os vilões, os principais responsáveis por suas passagens pessimistas e por suas superações também.

Em faixas como “Complicated”, “Blue World” e “Hands” vemos que a estratégia adotada é a de viver um dia de cada vez, ignorando problemas que não aconteceram ainda e evitando arrumar coisas que, mesmo que não perfeitamente, ainda funcionam. A impressão que fica em faixas como essas é a de há muito tempo Mac apenas está tentando conter novos danos, ignorando os “demônios em sua porta”.

Em “Good News” temos a hipocrisia refletida nas pessoas, estas esperam do mc sempre noticias boas, não admitindo que ele esteja mal, mesmo que para isso ele deva mentir e esconder seus pensamentos, essa ação é representada inúmeras vezes por todo o álbum onde o Malcolm se refere à sua mente como bagunçada, um céu nublado que, nos momentos ruins, nunca ficará limpo. O problema é que essas mesmas pessoas também não se contentam quando Mac está “voando”. É aquela ideia: os outros querem te ver bem, mas não melhor do que eles.

“Thats on me” e “Hands” são faixas que além de repetir a mesma problemática de todo o álbum, tentam conversar com quem está ouvindo, Mac Miller assume o papel de interlocutor em um diálogo e aconselha essa segunda pessoa, que talvez esteja passando pelos mesmos problemas que ele. O interessante é que em alguns momentos temos a impressão de que o mc esteja falando com ele próprio. Estas são passagens positivas do álbum, assim como “I Can See”, onde as inseguranças do início parecem não existir mais.

A temática amorosa é distribuída por quase todo o projeto, Malcolm referencia momentos amorosos ora positivando-os ora os negativando. Fala sobre suas efemeridades em “Woods”; o conflito de realidades em “Hand me downs” e de possibilidades melhores em “Surf”.

“Once a Day” fecha o álbum invocando, novamente, de forma mais clara a questão da circularidade. O MC cita coisas que se repetem cotidianamente, tais como seus abusos com as drogas, seus problemas psicológicos dos quais ele tenta sempre se reerguer após inúmeras quedas; e termina concluindo a necessidade de se expressar, pois, se ficarmos sozinhos com nossos monstros em nossas mentes, sucumbiremos em arrependimentos, viveremos uma realidade extremamente nociva. Sem duvida nenhuma, é essa expressão, esse grito por ajuda que ele busca desde o início, num álbum inundado por indícios e pistas do lamentável fim dessa história, ao qual nossa perspectiva diacrônica nos permite identificar.

Don’t keep it all in your head

The only place that you know nobody ever can see

You’re running low on regret

No tears, that’s keeping you wet

I think you gettin’ it now

Eu não tenho dúvidas de que essa era a proposta e a ideia de Mac Miller, o problema é que ele não teve tempo para executá-la de forma plena. Sendo assim, as repetições e ciclos não foram desenvolvidos como se deveria, ou seja, não serviram como tema para representar recursivamente essa abordagem tão complexa e ambiciosa que é o embate eterno entre o homem e a sua mente. Pelo contrário, aproveitaram-se da proposta para repetir o que não deveria ser repetido, para mascarar uma falta de material. Praticamente todas as faixas possuem dois versos minúsculos com uma duração de três, quatro, até cinco minutos. A brevidade favorece o aspecto melódico, é verdade, mas não deixam de soar como letras inacabadas.

Faixas que possuem a mesma abordagem do tema repetida vezes, usando as mesmas imagens repetidas vezes, desenvolvendo-se pouco ou praticamente nada, são os exemplos do cover “Everybody” e das já mencionadas “Woods” e “That’s on me”. Em Swimming cada track acrescentava algo novo em uma crescente. Aqui, temos músicas que são belas, sim, mas que provavelmente seriam descartadas ou unidas a outras caso Mac ainda estivesse entre nós, trabalhando em seu novo álbum.

Jon Brion fez o que pode e não fez mal, mas a falta da visão do artista sobre sua própria arte e, mais do que isso, a impossibilidade do próprio criador continuar sua criação claramente inacabada, teve como resultado final um compilado de músicas maravilhosas, mas que não servem para encerrar à altura um conceito iniciado por um álbum que, esse sim, passou por todos os seus processos de maturação.

O que nos resta é a sensação de que este álbum poderia ter sido tão mais poderoso nas mãos do Malcolm. Mas ainda assim, é um trabalho belíssimo, belíssimo…

 

Author: ascencio

Eu gosto muito de rap, mano. Sério. No twitter é @__ascencio.