FELIZ NATAL OPORA, como estão vocês? Comigo, agora, está tudo bem. Aconteceu uma coisa meio chata aí depois que eu escrevi sobre um certo alguém. Uns picos de acesso e interações no nosso site e redes sociais, chuva de seguidores, dentre outras lamentações e hates de vocês.

Mas hoje é um novo dia, e estou cheio de amor com o meu espírito natalino. ASCENCIO de volta nesse sítio de bits e bostas para falar de “O.N.F.K.” do Amiri.

VAI COROI!

Primeiro a produção. Seguinte, Deryck Cabrera tem uma missão difícil: acompanhar a autenticidade técnica do MC paulistano. Consegue? Nem sempre. Temos produções boas e até versáteis como na introspecção de “Se Eu Morresse Hoje”, na balada de “Um Amor (Odara)” e no boom bap mais clássico de “Eu Deixo um Salve”. Apesar disso, as doses de trap servem apenas de pano de fundo para o MC, e, nas demais faixas é isso, um elemento genérico em segundo plano, sem pontos altos, sem se destacar. Talvez o fato do álbum ter sido engavetado por algum tempo tenha contribuído.

Odo Nniew Fie Kwan, segundo o próprio MC, significa numa escrita filosófica de Gana “O amor nunca perde seu caminho de casa”, e é basicamente sobre isso que se trata o retorno do Amiri. Acho que vocês já sabem que ele passou por maus bocados com a merda da depressão, pois bem, este álbum compila todo o sentimento necessário para se dar a volta por cima e o destila por suas execuções. O.N.F.K. tenta ser um mapa para uma reconstrução espiritual.

É sobre autoamor, é sobre autoconfiança, é sobre autoestima

A “!ntro” tem uma montagem simples, beat de matriz africana seja no sample seja nos tambores. Trata-se de uma progressão: conforme vai evoluindo, novos elementos surgem até termos o som de alguém correndo, uma fuga de necessidade visceral a julgar pelo desespero nos grunhidos, arfadas de ar e passadas violentas. Por fim, Amiri diz “Obrigado, mamãe”. O signo materno é interpretado no álbum como sendo África. Deixo para vocês a interpretação, mas pra mim, existe um caminho óbvio, o de casa.

Se vamos começar a falar de técnica, precisamos entender o cabo de guerra que existe aqui. De um lado temos o liricismo, o malabarismo com as palavras, as multis, as rimas internas, do outro, temos a coesão, a reiteração de sentido (para entender melhor sobre isso, sugiro que vocês deem uma olhada em outro texto meu, onde eu falo de Sintagma e Paradigma na composição de mcs), mas, resumindo é o seguinte: quanto mais um MC tria seus versos, ou seja, quando mais ele escolhe palavras por filtros específicos, menores ou mais difíceis são as possibilidades de você fazer sentido. Dito isso, Amiri costuma encontrar um equilíbrio muito bom, apesar de alguns deslizes.

Caro leitor, “Não Mete o Louco” pra cima de mim não, vem comigo que eu exemplifico:

Nem tudo o que é passado foi (A)

Eu passo, eles fala: “Ufa, num viu!” (B)

Tema que nóis arregaça, destrói (A)

À caça dos boy: Amiri Buffalo Bill (B)

O verso acima é um ótimo exemplo de equilíbrio, temos o filtro da versificação: ABAB e também o complexo filtro sonoro: aliteração em “a” mais ditongo “oi” (para versos A) e a repetição de “ufa”e o ditongo “iu” (para os versos B). O que nos enche os olhos é que, além de tudo isso, as linhas reiteram significados válidos, possuem duplo sentido e metáforas!

Agora…

5, 6, eu não brinco des-de o primeiro EP, então faz as contas, eu já vim com três

7, 8, boquete e coito? Não, essa promete o topo, ah moleque doido

Esse verso é tirado de uma passagem com muitas triagens. Iniciada pelo “mic check”, Amiri começa a contar de dois em dois, e a sonoridade dos numerais ditam o verso subsequente. Em “7 e 8” ele pega um campo semântico sexual, mas notem como não é tão bem trabalhado do lado do significado, o ouvinte precisa se esforçar pra entender o que, talvez, o MC queira dizer nessa linha. Aqui, o lado técnico sacrifica boa parte do significado.

“Um Dia de Injúria / Pantera Preta” é uma obra de arte, fodase. Todo MC que se diz storyteller atualmente precisa chegar, no mínimo, no nível da primeira metade da track. Vocês já conhecem a construção, uma narrativa racial muito forte seguida de uma mensagem lindíssima de resistência também racial. Não existem defeitos, liricamente é de outro mundo, a entrega e performance como um todo são lúcidas e muito acuradas. São um dos refrões mais lindos cantados pelo MC, sem dúvidas.

“Se Eu Morresse Hoje” me fez chorar no ônibus. A faixa passou batido por mim quando lançada em forma de single. E isso foi bom, porque, dentro do contexto do álbum é uma nova experiência. Trata-se de um fluxo de consciência de inseguranças, o ápice da queda livre ouvida até então. O refrão doce com a voz de Lilly B te embala e você entende que não está sozinho. A ponte final de Amiri, sua carta de despedida, cria um laço verdadeiro entre o MC e quem o ouve, comovente em último nível, necessária em última instância, assim como o ato de rasgá-la ao final, simbolizando, não pela primeira nem pela última vez, a superação.

A faixa homônima, “O.N.F.K.” talvez não tenha sido uma escolha tão boa. Não me levem a mal, é um som alto-astral, numa vibe lá em cima, e eu entendo a função de ser o contraponto crescente da tônica em queda que o álbum vinha até então. Só que, como eu já disse algumas vezes aqui, faixas homônimas precisam “ser a mais” do restante do álbum. Aqui, somos acometidos por um ‘quê’ genérico. Enquanto tratava de problemáticas mais sérias e duras, tínhamos mais material original e temas mais complexos, agora, na ascensão, temos apenas frases autoafirmativas rápidas e passáveis, o foco é no refrão um tanto repetitivo e não tão bem construído quanto os demais. Quando Amiri tenta desenvolver algo mais sua cara, lá pro segundo verso, chega tarde, faltando algo. Essa track, por sua importância representativa, merecia mais trabalho de arte, mais autenticidade.

“Eu deixo um Salve” sofreria do mesmo problema, se não fosse um storytelling bem construído pra salvar a track. A história dessa vez é um role de bar, destaque para as modulações de voz do MC para criar vários personagens diferentes e a incrível capacidade que ele tem de imprimir na métrica proposta pelos seus versos a mesma prosódia (o acento tonal) de pessoas conversando ocasionalmente num bar.

Tem espaço pra lovesong também, “Um amor (Odara)”. Aqui, voltamos a ter alguns problemas com a caneta do MC forçando um pouco a barra pra ser técnico demais. Amiri tem um histórico de boas escolhas estéticas (BOOM é um exemplo claríssimo disso), me surpreende muito o fato dele insistir em rimas complexas e técnicas beirando o limite da coerência num lovesong, sabe? Tem essa necessidade, mesmo?

“Êta Porra 2.0(19) da Bomboclat” é a melhor faixa do álbum, aqui voltamos à “perfeição” do MC. Demorou? Um pouco. Essa faixa continua na mesma pegada que a “Êta Porra” do EP de mesmo nome, tem uma referenciazinha ali na entrada do refrão. Enfim, eu amo a entrega nela, um tom mais abafado, não tão agudo como de costume, que combina muito esteticamente com a levada acompanhada de rimas com boas sacadas e bem postas no beat.

Liricamente eu sou tão caçador, dá pra fazer uma cama de pele

E eu não vou parar até o Ibama me rele

Nem tudo pela fama, reali-

-ty show, mas a moda me odeia igual ama a Gisele

Tem alguma coisa errada na masterização de “Épico (Bad Man)”, ouvi nuns três fones diferentes e é o mesmo desconforto. A faixa, por si só tampouco anima. Passa batido facilmente e seria problemática demais se fosse a escolha para o fechar de cortinas do álbum.

A opção final é feita em “End (Creed)” que, para o tema do álbum como um todo, não acrescenta em muita coisa. É mais do bragga com que o projeto vem flertando desde de “O.N.F.K.”, no entanto, é uma forma de encerrar compreendida claramente como o “elevar do bastão”, analogia tão conhecida no rap. Amiri, pela última vez, se diz e se afirma o melhor. No último verso lança:

Fala um mano melhor com menos de trinta, eu espero…

O Silêncio que ecoa logo em seguida é sábio, metaforicamente representa uma suposta ausência de concorrência que o MC tem por aqui.

“O.N.F.K.” de Amiri começa conceitual e termina braggadocious. Isso seria uma mescla arquitetada ou o segundo elemento surge para dar mais caldo à obra apenas? Em alguns momentos temos a primeira impressão e em outros a segunda. Pode te arrebatar nas primeiras audições, porque de fato é um bom álbum e merece estar entre os melhores do ano, mas vai se desgastando aos poucos conforme os repeats acontecem.

É isso, tchau…

Hou hou hou

Author: ascencio

Eu gosto muito de rap, mano. Sério. No twitter é @__ascencio.