Salveeeeee seus acabou de seguir a gente e já vai dar aquele unfollow, beleza? Ascencio aqui, de novo. Antes de mais nada eu gostaria de deixar bem claro que o Dourado afinou pra fazer essa reviu. Para falar a verdade, Padrim, do FBC, foi uma batata quente na nossa redação, passou na mão de todo mundo e quando o Cacique gritou “queimou” quem tava segurando era a minha pessoa. Então, vamos logo com isso.

SCA, o antecessor deste álbum, tomou grande notoriedade na cena, foi um projeto muito bom de fato, figurou nas listas de finais de ano de muita gente, sendo  top 5 na deste site maravilhoso. No entanto, não há como remediar, o segundo trabalho solo do MC mineiro não carrega os mesmos atributos positivos que o seu irmão mais velho. Padrim é um desarranjo tremendo perdido em trap.

Antes de entrarmos no particular, vamos pro universal, que se destaca mais. Go Dassisti produz o projeto todo e parabéns a ele, pois a produção é o que salva. O mote da parada é o trap e o produtor consegue ser inventivo sem perder as características do subgênero, coesão e criatividade. Gosto principalmente das variações nas baterias do projeto, os elementos sonoros entregam levadas marcantes e engajadas que, infelizmente, na maioria das vezes, não são aproveitadas da melhor forma pelo MC.

Não sei se esse álbum merece a minuciosidade, mas vamos faixa por faixa. “Deus Abençoa” é uma intro de ligação familiar, talvez algo que demonstre uma atmosfera mais intimista do MC, mas, no geral, é uma faixa sem propósito que fica entre: falhar por não cumprir seu único objetivo de introduzir algo ou simplesmente não ter o que ser introduzido.

Em “Money Manin” começa o show de caricaturas que toca este álbum cheio de maneirismos. Tudo é “rimado” com “mano”, não há rimas internas, então, FBC tem bastante liberdade para se entregar na ótima produção, criando aliterações com a consoante “m” e “n” em meio a excessos de nasalidade na entrega, tentando mirar, talvez, num Kendrick Lamar em Loyalty. A faixa busca passar uma mensagem de conflito de valores e no final o FBC morre, mas, infelizmente, o álbum continua vivo.

“Assim que se sente” vem um pouco no tom do primeiro trabalho, seja em temática, seja na performance do MC. Privilégios são questionados e postos numa balança social que nós não sabemos ao certo como é calibrada. O discurso de FBC, não só nessa faixa, pode muitas vezes ser ambíguo. Não sabemos se é adotado um ponto de vista racial ou de consciência de classe, tudo é cinza e isso é um problema. Porque, caso seja o primeiro recorte, existiria propriedade para se assumir esta ótica? Essa questão é o elefante na sala dos trabalhos do MC não é de hoje (vimos isso também em sua participação no Grana Azul, do Zin). Este problema recorrente gera incomodo em parte do público e já fez o artista se explicar várias vezes pelo twitter. Uma vez? Ok, pode ser um equívoco. Mas, quando se torna algo constante… bem, tem certeza que o problema está na interpretação do público?

Voltando às caricaturas, “CAPA 3” é a música que rima tudo nas duas últimas sílabas, com o acento na paroxítona aberto e a última sílaba prolongada. É isso, em toda rima do primeiro verso, toda rima, toda rima. O refrão de Lallo mostra como a produção poderia ter sido muito melhor aproveitada ao invés de se perder tempo com uma performance simples e passável.

Em “Iphone”, FBC, pela primeira de muitas vezes, é engolido na própria faixa. Matheus Queiroz sabe ocupar o beat, manter o tom e preencher os espaços com ad-libs, o dono da faixa não. No fim, a track é só mais uma love song clichê.

“Confio” tem um dono, ou melhor, uma dona, Ebony. O cenário da faixa anterior se repete. A produção dá margem para uma métrica mais espaçada e FBC tenta de tudo um pouco na sua entrega: prolonga as sílabas finais (mais uma vez); rimas pausadas; do nada estende o verso pra cair junto com o beat (ou seria o beat que teve que se adequar à confusão do MC?); até culminar no maneirismo da vez, o final em “eeeeeeeem” pra casar com o grave. Em oposição a esses retalhos, a convidada destrói entregando com cadência invejável um flow sujo e rimas elaboradas, a diferença na consistência das performances é surreal.

A mãe de todos as caricaturas é “THC”. Fácil uma das piores faixas do ano. Se antes as rimas eram todas com “mano”, agora são todas com “rolê”, mas dessa vez nem a levada salva. Somando-se a isso, há uma voz cartunesca construindo uma estética preguiçosa e sem sentido, só combinando com algo se levarmos em conta que toda a faixa é desprovida do mesmo critério.

“$enhor” é boa. Produção maravilhosa, pra variar. FBC soma de verdade, principalmente no refrão. Surpreendentemente, numa faixa com BK, o verso de L7NNON é que se destaca. Aqui tudo funciona, temos um tema interessante, uma relação de amor e ódio com idealizações e destruições de um alvo dúbio: a presença paternal ou o dinheiro? A ideia é simbolizada sabiamente no título pelo pronome de tratamento masculino junto com o cifrão. Eu gosto dessa faixa, de verdade, ela é inteligente. Mas é uma pena melhorar um pouco, só pra piorar mais ainda.

Vou falar de “Se eu não te cantar” e “Ode a tristeza” juntas, porque elas são unidas pela desgraça, além de fechar da pior forma possível este projeto. O trap sai de cena e na primeira da dupla temos guitarras com mais notas e melodias, linhas de baixo bem presentes, até um piano. Cenário perfeito se o FBC não resolvesse começar a cantar. Uma voz feminina não creditada (eu também teria vergonha) segura as notas mais agudas, indo nos buracos e falhas de tom do MC. Já na segunda, a completa desafinação é escancarada junto com um violão desperdiçado ao fundo. O álbum termina em tom baixo assim como o ouvinte atento, triste não por estar tomado pela emoção e introspecção, este sentimento catártico nem tem espaço, é completamente anulado pelas recorrentes falhas, o motivo real da tristeza é a má performance nestas tentativas de fuga da zona de conforto.

Padrim, de FBC, mostra que quando um projeto não tem substância de conteúdo e identidade para se manter, tem que se amparar nas muletas das caricaturas do gênero e esquemas forçados e batidos. Ou, quando não, tem-se uma queda de braço entre ser comum e passável versus tentar ser original e ruim, onde, seja quem ganha, quem perde é quem ouve.

É frustrante ver uma divulgação que surgiu como um meme no ano passado virar tendência dessa forma, ganhando um prestígio de movimento que empunhou valores tão pretensiosos para a cultura e cena do rap nacional, que encheu tanto o saco dos veículos, ganhando facilmente nas mídias sociais espaço e alcance que outros MCs batalharam e ainda batalham tanto para conseguir. Tudo isso para terminar num produto final decepcionante. Enfim, a melhor parte do álbum é quando começa o instrumental.