Salve, seus rapper otaku. No último dia 31/10 o rapper, cantor e produtor Rodrigo Zin lançou seu quarto álbum, Grana Azul. Depois de um 2018 de incrível sucesso, onde Zin foi extremamente prolífico, lançando como seus dois primeiros álbuns solo os aclamados Francisco Oceano e Fazendo Grana Pro Meu Filme, além de colaborar com o produtor Will Diamond em Fazenda Diamante, o rapper teve seu ano reconhecido como o segundo colocado na premiação de artista revelação pela Genius. Em 2019 o MC mudou a estratégia: tirou o ano inteiro para trabalhar em seu novo projeto, perceptível pela complexidade com que o mesmo se apresenta, seja na produção, que demonstra diversas influências de funk, trap, neosoul, R&B e até gospel, seja na sobreposição de vocais e a narrativa sobre a qual o projeto inteiro se constrói.

Tal qual Francisco Oceano e Fazendo Grana, Grana Azul se caracteriza por uma ambientação de um mundo fictício, como que fechando a trilogia. A história, que nos álbuns anteriores se formava de forma totalmente subjetiva e muitas vezes imperceptível a um ouvinte que não conhecesse o artista, dessa vez toma o plano de frente: quase todas as faixas contam com diálogos entre o personagem protagonista dos discos, Imortal e O Rei Caído, como se fossem samples de um filme (talvez aquele para o qual Zin estava fazendo grana?) que guia a progressão das faixas do início ao fim.

A história se passa num mundo distópico em que a ‘grana azul’ é aquilo que a população vive para, enquanto tenta sobreviver sob um céu vermelho que retrata o caos que tomou conta ali, o que é colocado de forma simples, porém harmônica na capa do álbum: o plano de fundo num vermelho escuro e sujo e no ponto central o azul atrativo do dinheiro. Por meio disso o artista constrói suas reflexões pessoais, como relações com o amor, e sobre o mundo em que vivemos, onde o ser humano se deteriora em busca desse dinheiro sem perceber que não é de fato o maior valor que se deveria ver.

Embora seja muito importante a presença dos diálogos para amarrar as músicas e dar um sentido de progressão ao álbum, os melhores momentos vêm quando eles ficam em plano de fundo. A história do disco é iniciada na canção-título do projeto, com uma melodia linda e a escrita muito bem feita ao longo da faixa, tendo a carioca Gabz mostrando todo o potencial que possui na voz e na caneta e a banda Tuyo fechando a música bem, enquanto o Rei tem falas no fundo ao início e no fim da música, sendo este o lugar onde elas estão melhor colocadas ao longo do álbum. O mesmo se segue em talvez as duas mais belas faixas do projeto, “Gospel” (uma das raras músicas que não possuem participação dos narradores) e “Pequeno Céu Vermelho”, que contam com a contribuição de .enzo e Slashrr na produção pra formar melodias muito bem colocadas, com diversas camadas instrumentais e vocais.

A lógica do álbum começa a inverter na quarta track, “Grana Gama & Lana”, que parte pra batidas mais fortes e cruas, com mais influências de trap, menor predominância de instrumentais e a narrativa tomando mais tempo numa parte mais central nas músicas, tornando-se às vezes uma distração pro disco, deixando-o cansativo, “Toda Vez Que Eu Escuto Os Corais” é um exemplo disso. Além disso, duas faixas em sequência com mais de 6 minutos (com “Museus”, batendo 6:50) contribuem muito nesse sentido também. A porção central do projeto busca um tom épico, sendo como a trilha do clímax do filme, o que na grande maioria das vezes funciona muito bem e mantém a atenção do ouvinte sempre presa, como os sons de tiros em “Coroas & Violinos”, além da presença predominante de rappers convidados. Eu sempre vi Zin com uma característica comum a Kanye e Tyler: sabe alocar com maestria os convidados ao longo das faixas e álbuns, trazendo o melhor deles. Em “Museus” nILL rouba a cena com mais um verso repleto de significado por trás de suas linhas, como é de praxe pro rapper.

“Não importa quem vai filmar o take
A minha história, eu quem vou dirigir”

Delatorvi e WIU em “Caroço” (mais uma das diversas referências a Hora Da Aventura que o rapper faz em suas músicas, num álbum que também conta com a faixa “Rei Gelado”), Ardlez em “Coroas” e FBC e AKA Rasta em “Intocável” são mais dois artistas com grande destaque em seus versos que estão incluídos em faixas destaque, embora eu não possa deixar de dizer o quanto incômodo é ouvir o FBC, um rapper branco, usar a expressão “quanto a carne nossa vale no mercado”.

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Na reta final o ritmo musical do álbum cai novamente, simbolizando uma possível paz ao fim da batalha, até que os últimos dois minutos do disco retomam ao início do mesmo, onde o caos continua reinando. O final, no entanto, soa um tanto forçado e arrastado, tendo 4 faixas que poderiam ser reduzidas para o bem do projeto (tendo em conta que 62 minutos já é mais do que suficiente para contar uma história). O final de “Feitos de Água”, a melhor da sequência, com auxílio da banda Cidrais, funcionaria de forma linda como fechamento do álbum.

“O choro rega o jardim
É um lembrete que
Eu e você temos fim”

As ideias, embora visivelmente tenham sido muito trabalhadas, não soam tão inovadoras quanto as porções anteriores e às vezes parecem com algo que já ouvimos num dos álbuns anteriores. Aliás, essa retomada é uma constante ao longo do disco, onde quase todas as faixas possuem alguma interpolação ou sample de músicas do próprio artista, o que no começo é uma forma de criar uma ligação forte com os álbuns que também fazem parte da história, em certo ponto, se torna distrativo.

Embora ao menos um dentre Francisco Oceano e Fazendo Grana tenha figurado em praticamente todas as listas de melhores projetos de 2018, eles foram a entrada, os aperitivos para o prato principal que é Grana Azul. Um álbum minuciosamente trabalhado em sua instrumentalização, vocais e storytelling, é daqueles que se ouve dez vezes (vinte, trinta…) e em cada uma delas se percebe algo novo, se entende algum conceito ou atrai a atenção para algo que passou despercebido. O que, por sua vez, nunca passa batido é o talento de Zin, que cada vez mais vai deixando o status de underground e se estabelecendo como um dos mais talentosos artistas do rap nacional. O MC mais uma vez conseguiu seu lugar entre os melhores projetos do ano.