Salve seus lista de final de ano. Direto do reino do desemprego e falta de matrícula, este filhadaputa conhecido como Dourado traz mais uma review pra esse site. Apesar das ameaças de diss do Dinho e do Kanye fazendo a gente gastar uma semana pra ele não lançar, tamo vivo. O trampo de hoje é contender pra melhor trampo nacional do ano, além de ser a parada mais emocionante que cê vai achar por aí. Só que exige de você, e não é pouco.

“Quando o mundo acabou era meio dia” é muita coisa. É uma puta frase dahora, é uma mixtape, é um nome grande de mais pra uma mixtape, é um nome marcante de mais pra tu ignorar a mixtape também. A proposta e motivação do álbum foi permitir que os ouvintes se sentissem menos só, se identificando em diversas gamas de problema psicológico e às vezes nem era problema, é um trabalho amigo.

Abrindo o trampo vem “Pedra Vermelha”, numa produção de Machion gingadinha que traz uma vibe meio rock. Na letra, Boca fala sobre São Paulo, o caos, o jeito que interage com isso e da um salve pra mulher que ama. Com menos de 2 minutos a faixa te deixa embalado, abre as portas pra todo tipo de abordagem e tópico, além de falar o que faz Rômulo viver. Bom trabalho de faixa 1.

Sem charme algum, o agito de guitarra e prato da faixa 1 é convertido num (já lançado) trap relativamente sombrio. Com um peso e obscuridade do beat, Boca rima sobre não ter certeza de o que o rap vai render, mas seguir botando a fé nisso. Oizys, deusa grega da angústia, ansiedade e afins é o título. Originalmente lançada em 2017, a track ganhou uma parte 2. Com as duas partes contando como uma só, é uma sessão de quase 5 minutos que te faz questionar suas escolhas, situação atual e pra onde ir.

A faixa 3 é um interlúdio. Caso cê não estivesse se emocionando, ou estivesse apenas se abrindo, agora fica todo arregaçado. O conceito e uma das maiores motivações da mix veio do falecimento da mãe de Rômulo. O interlude tem 4 minutos e é um áudio da própria, no leito de hospital, declarando seu amor pelo filho e passando umas visões. Caso a descrição não tenha sido clara o suficiente: é desesperador e tem uma pitada de inspiração; Único.

Quarta e quinta faixas podem ser vistas juntas. No famoso estilo ‘voz e violão’, o projeto apresenta o “Amor de Johnny”, que tanto pras condições climáticas como humanas, pinta um cenário quente e seco, mas carregado duma forma de frieza. “Seria seu ser” é também de 2017, voz e violão, e é um tanto quanto mais direta. É uma faixa de amor, gostosinha de ouvir com quem tiver na posse do teu coração, de ouvir pensando nela e afins. Pra quem tá passando por término não deve cair tão bem… Ainda vem um breve momento de reflexão sobre cena e indústria cultural.

Após o bloco de tristeza profunda, o bloco de esperança e leveza, vem a sessão trap delicinha. Nada muito pancada, mas nada que dê pra ouvir sem balançar um ombro ou pescoço. “Banal” com feat do Teagacê era pra ser Banal, mas a mente dos compositores (TM) não permitiu. Fecha com um áudio cômico-religioso.

“Novo Dia” é a reunião do A.L.M.A, com adicional de Chinv no mix. Wendeus e Lucas Felix se posicionam fora dessa cena toda, explanando as ambições para os dias que ainda hão de vir. Boca joga na cara que grande parte dessa cena ta na gozolândia e num sabe de nada. Chinv fala da relação crenças-passado com crenças-presente. O som no estilo clássico do A.L.M.A é dinâmico, onde os versos dialogam mas não necessariamente concordam. O ponto baixo é a transição Félix/Boca, já que o final do verso de Lucas é entregue de forma que destoa mais que o aceitável da entrega da entrada de Rômulo. Mas pra compensar isso tem a próxima faixa.

Felix, Boca e Masthif se unem pra falar um pouco de vida real. Todo mundo precisa ficar rico e tem planos um tanto maiores e mais importantes que comprar um “Balenciaga”. É uma das melhores músicas do trabalho. Tudo se casa muito bem, produção, transição de versos, temática, uma gracinha. Na mesma vibe, Boca fez uma solo, que entra muito bem. “Cromado Caro” ainda tem Masthif, mas só na produção. É a temática de balenciaga, aplicada a um relacionamento e alinhada com ele explicando que o rolê é totalmente outro. Basicamente, as ultimas 3 musicas foram abordagens diferentes pra mostrar que ta uma rapaziada na Disney, mas AQUI NÃO.

As próximas 3 músicas somam 16 minutos. Duas delas são duplas, então dá pra dizer 5 músicas, né. Yara é voz e violão, calma e fresquinha, na moral, tão ambientada que dá uma refrescada se ouvir em dia de calor. A dupla “A.C.O.A” (Amor Carmim, Ódio Azul) “S.A.O.V” (Sangue Azul, Ódio Vermelho) foi lançada em Abril. Com uns beats perturbados e cheios de variedade, com direito a Beautiful Girls, um funk de palminha e ódio(5x), é o escárnio da mente humana. Os nomes já implicam que a construção de imagéticas e exposição de sentimentos é mato por aqui.

Pisando um pouco fora do caos, mas nem tanto, “IntenCidade/Eu sou o Sol” entra com outra voz e violão. Em seis minutos pinta um quadro muito explicito de um estilo de vida. Acalmando na onda de músicas enormes, chega “Meninos”, com uma cara de rap dos começos de 2000 que passou pelos remakes da Disney e ta no mundo moderno. Essa música é resumidamente a passagem da Seleção Brasileira no Haiti em 2004, no meio das desgraças uma sensação confortável, uns sorrisos, a inocência das crianças e a vida sendo tocada.

“Multiverso (Eu Sou)” é uma reunião do underground. Tadela Sérgio Estranho reunidos na produção, niLL versando, uma maravilha. Unindo essas visões do universo, o multiverso é construído numa maneira tão íntima que da vontade de ouvir pelado de olho fechado. É o clássico som de se ouvir repetidas vezes pra entender cada palavra de cada linha.

“Liber Pater” além de um vinho caro e de uma operação que pegou um pessoal rico levando ilegalmente coisas dum estado pra outro (cof cof), é o nome da faixa 15. De longe a mais chamativa e de fácil acessibilidade, é uma diss num boombap simples com linha de baixo intimidadora. Fala sobre um bicho tosco ai, que plagia(va), passava a perna numa galera e tentava passar a mão numa outra. Em nome do Rap Shit preciso dizer que compactuamos 1000% com essa track e agradecemos Boca pela existência disso. Opinião mais detalhada sobre o assunto se encontra aqui.

Pegando emprestado o conceito do amigão da última, essa aqui bate que bate, ladrão! Fantasma de Gaveta conta com verso de Isaac de Salú ainda. Assombroso na onda de Super Mario, a casa que ta sendo atormentada e tendo as gavetas batidas é a cena. Uma AULA de construção imagética. Enquanto a entrega de Boca ta na posição ameaçadora que se diverte com tudo, Isaac vem no pleno desespero, rasgando pra fora de si todas as frases que podem/devem ser vistas em múltiplos sentidos.

Pra fechar o trabalho de 17(!!!!) músicas, nada mais lógico que um hardcore né. Esse hardcore, que estranhamente lembra o boombap suave que é a primeira música, serve principalmente pra mostrar a coesão digna de álbum que a Mixtape tem. “Retomarei” é sobre retomar a própria alma, sendo meta, já que Boca ta retomando suas raízes na música. É um dos raros casos em que botar rapper no hardcore ficou bom, créditos pra isso.

Este texto tem um papel importante na descrição da mixtape: Tá bem feito, com cuidado, se tu tiver muito afim e muito disposto tu vai curtir… Mas é enorme e isso vai espantar a grande maioria. Em 2019 uma mixtape com uma hora de duração é arriscado. O propósito de tocar e comover quem ouve é facilmente realizado, a obra é linda, cativante e moldada com carinho evidente. O conceito é forte e firme, a capa é linda e coesa, o tempo e ânimo, por sua vez, são escassos. Mas tem 17 musicas, 4 voz e violão, 2 com mais de 6 minutos. Não é feito pro público médio.

Na intenção de destrinchar trago aqui pra vocês as variáveis formas de adicionar o trabalho à tua playlist. Se tá apaixonado: Eu seria seu ser, Amor de Johnny, IntenCidade/Eu Sou o Sol. Se tá afim de ouvir um trapzin confortável e ficar summer nights: Balenciaga, Cromado Caro, Banal. Se quer refletir sobre a vida e precisa de um empurrão: Oizys, A.C.O.A/S.A.O.V, Multiverso Fantasma de Gaveta. Se tá com tempo, disposição e disponibilidade de mais de uma hora (porque algumas tu não resiste e ouve 2x) e curte uma experiência: ouve o trampo todo.

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Author: Andre Dourado

Rap Nacional é merda e eu sou o especialista das fezes