Sim, vocês não estão alucinando, estou de volta. Usei meus minutos livres de uma sexta-feira em que eu cabulei minha aula de Literatura Brasileira IV (desculpa, dona Simone) pra escrever essa reviu. Aproveitem!

Hoje lhes trago pra infelicidade da ODB niLL e seu quarto projeto, “Lógos”.

Se vocês se lembram da minha reviu sobre “Regina”, eu disse na época que niLL sabia flertar com o conceito nas coisas mais simples e isso facilitava muito no processo de identificação entre ouvinte e MC. Em “Lógos”, isso se mantém em sua essência e se diferencia em suas execuções. “Como assim, Askencio?”. Explico, o MC jundiaiense mantém sua simplicidade conceitual de forma calculada e comedida, mas, dessa vez, estamos diante de uma aventura protagonizada por um herói, dentro de um universo bem delimitado e com valores determinados.

Tá bem abstrato, eu sei. Vamos entender melhor.

O título. Lógos é, basicamente, a inteligência transformadora.

A capa. Levando a temática de uma loja de brinquedos, o nosso herói se destaca dos demais em duas esferas: estética e ação. Na primeira temos os outros brinquedos todos iguais, brancos vestindo roupas verde-amarelo, enquanto ele é preto e empunha o símbolo do fogo em sua blusa; Na segunda dimensão, a da ação, temos o nosso herói correndo/fugindo enquanto os demais se encontram estáticos dentro de suas embalagens. Vemos na arte a transformação de um estado de inércia pra um estado de movimento, uma mudança, “Lógos” tem como máxima este sentimento, representado pelo símbolo do fogo.

O álbum. niLL, durante o seu percurso narrativo, tenta imprimir essa ideia de transformação e mudanças por meio de diversas figuras de deslocamento, esta é literalmente a linha que abre o projeto todo em sua faixa homônima”:

“Faz parte de um grande plano eu sair daqui”

Temos aí a voz do herói, deixando bem clara sua narrativa de fuga em busca de algo melhor, ele não vai “morrer perto de casa, hoje”. Sem sair da faixa inicial, niLL já estabelece o paralelo entre o seu personagem principal e o fogo. Este é o elemento que trás a mudança, que se arrisca às intempéries do vento e não tem medo de tentar, e assim o é nosso herói:

“Nós somos como fogo, e se o vento apagar? / O importante é: não deixei de tentar”

Essa noção fica ainda mais forte quando vamos para a faixa “Toys”. Na belíssima voz de Callister temos as seguintes linhas:

“O dia passa, tudo bem/ Do meu céu chove também/ Fogo aceso se mantém/ Transformando-se porém”

Notem que, desta vez, o elemento antagônico ao fogo (e consequentemente ao nosso herói) é a água (representada pela chuva) e não mais o vento, mas não importa. Nem mesmo esse arquirrival pode parar o fogo que se mantém, novamente, por meio da transformação.

O MC prova ser diferenciado quando, mudando para o tema de relacionamentos, não deixa de abrir mão do conceito do álbum. Em “A Mulher do futuro só compra online”, por exemplo, o nosso herói diz ter que se dividir pela sua amada, como se sua existência fosse parcelada, da mesma maneira que a compra da TV mencionada na faixa. O mesmo se passa na track “Siri” (faixa que aborda a temática, recorrente no repertório do artista, de junção entre tecnologia e relacionamento), onde ele diz ter seu mundo repartido. Eis que lhes pergunto: o que se divide/reparte em mais de uma instância, se transformando ao mesmo tempo que se mantém? O fogo.

Falando de outras faixas, para provar a você, meu leitor, que é tudo proposital, temos em “Bullets” o personagem da nossa história dizendo não estar no “trânsito das 6”, pois está “voando”. Isso é uma metáfora em paralelo com a capa. O trânsito das seis da tarde em São Paulo se resume a uma penca de carros (todos cinzas iguais), parados, inertes (os bonecos brancos de verde-amarelo), enquanto nosso personagem que é o fogo, a transformação, está voando (boneco correndo, escapando, vencendo a inércia). Em “Embalagens”, temos uma “nova viagem”, mais uma vez, o descolamento para o novo que se contrapõe ao velho, ou seja, transformação.

Acho que vocês já entenderam, né? niLL, representado pelo seu herói, quer sair “do canto da sala” e “desistir de desistir” (Toys), tanto que, como vemos em “Siri”, ele espera a loja fechar para por em prática sua fuga e quando o procurarmos em “outra prateleira” ele não estará lá.

Nas aulas de Semiótica eu aprendi que, ao final de toda aventura, existe a sanção, uma fase do programa narrativo onde todas as ações do herói são julgadas e analisadas. Disso se tira uma aprovação, também chamada de sanção positiva, ou uma reprovação, a sanção negativa. É na última faixa que nos deparamos com estes elementos. “Sessão 26” é um olhar arguto de um destinador-julgador sobre o nosso herói e toda sua trajetória. Na track, apesar das incertezas no final, terminamos com o herói feliz, seu plano deu certo, ele mudou, se transformou e não somente isso, sua autenticidade fora tanta que transformou as coisas ao seu redor:

“O nosso herói trouxe novas tendências/ E a tropa usou de referência”

A produção. O jeitão da madeira vocês já sabem, né? Vaporwave, samples de jogos indies/arcades e por aí vai. OAdotado, que é o próprio MC em sua faceta de produtor, assina a maioria das faixas. Temos a participação, dessa vez, de novos produtores: CrimeNow, Yung Buda, Tan Beats e Nave. Os destaques vão para “Bullets” e seu ambiente suspenso e frio, combinando com a letra; “Embalagens”, uma obra prima dançante do Nave; o trap arrastado de “Siri” feito por CrimeNow e, principalmente, “Não Me Coloque Na Sua Loja” d’OAdotado, instrumental que destoa das demais, se tornando único numa atmosfera de prosperidade e ímpeto aí aí aí aí aí (*guitarrinha ao fundo*).

As participações: BK engole o dono da faixa em “Regras da Loja”, ManoWill deixa sua marca com linhas boníssimas, Melk faz sua contribuição também e, por fim, temos a presença dupla de Callister, que abençoa as músicas com sua linda voz.

Em suma, é isso. O irmão mais novo da família discográfica de niLL é um aprimoramento do trabalho conceitual na cena nacional, sem ser forçadamente cansativo e subjetivo. Diferente de um pessoal aí que faz um evento gigantesco pra explicar uma única faixa. “Lógos” é um mundo particular de beleza simples e valores fortes.

Agora eu vou fazer uma pipoca, porque o milho não vai estourar sozinho.