Como todo álbum clássico, a continuação de “Piñata” foi muito aguardada, lançado em 2014, o disco quebrou as barreiras do rap, trazendo uma roupagem nova ao estilo gangsta, mas com uma sonoridade mais atual, sem fugir do clássico. Muitos como eu aguardavam uma sequência natural, um Piñata “melhorado”,  ou mesmo diferente.

Mas a continuação não veio. “Bandana” tem personalidade própria, totalmente diferente de seu antecessor, o que é ótimo para o rap.

Vazado no dia 27 de julho (alô, Glenn!), mas lançado oficialmente na sexta-feira, 28 de julho, o disco tem uma mensagem clara: evolução e maturidade. A piñata quebrada na capa deixa claro que a vida no tráfico ficou para trás, mas as histórias de Gibbs – ainda vívidas em sua cabeça – precisam ser contadas. Um gangster não para, ele muda a forma de jogar.

O “Obrigado”, que inicia o disco, é como um agradecimento pela recepção do disco anterior. Mas é só o começo. “Now presenting my niggas Madlib and Freddie Gibbs. It’s time for Bandana, bitch” é o aviso de que uma nova era se inicia nos próximos 46 minutos.

E é em “Half Manne Half Cocaine” onde eu tomei o primeiro susto com o disco. “Como assim o Madlib fez um trap?”. Fez e, pra variar, ao seu modo. E ficou foda! E o público puritano e guardinha detestou – o que é bom para mostrar que barreiras precisam ser quebradas. Acredito que o trap seja o lugar de conforto de Gibbs, e ele deixa claro o que deseja: “Eu só quero encostar a cabeça em uma Ferrari 458, é o que eu mereço”. A mesma tranquilidade com que “Crime Pays” surge.

É algo que gostei muito em “Piñata” e aqui se repete: Músicas tranquilas que parecem pontes dentro do disco. Mas não se engane, pois é em cima dos samples de “Free Spirits” e “Teach Me How”, ambos da década de 70, que Gibbs solta fogo pra cima de Young Jeezy, mantendo a tradição.

Diferente da Pitchfork, dizendo que a participação de Mos Def foi a única a altura de Gibbs, acredito que “Palmolive” é o ponto alto do disco. São negros que viveram o pior da segregação e da situação do negro nos Estados Unidos, mas que hoje, após estarem fora das estatísticas, possam dar o seu melhor e contar o que viram, como se fosse um aviso. É tipo Pusha-T rimando sobre quando Obama o convidou para visitar a Casa Branca, mesmo ainda sendo um criminoso na época. E é essa dialética que me chama mais atenção, que existe desde o contraste entre Madlib e Gibbs, que criou um duo perfeito, até esses versos que tratam de transformação. Isso tudo é como quando, em 1995, Prodigy disse: “Então leve essas palavras para casa e pense sobre elas, ou a próxima rima que eu fizer pode ser sobre você!”. O recado foi dado e levado a sério.

Dentre todas as faixas que compõem Bandana, a sensação de vida e estilo se sobressai acima de todos os demais elementos. Freddie melhorou e muito sua lírica e a forma como aborda questões gerais, como o HVI e até mesmo sua entrada na Nação do Islã, em “Gat Damn”.

Tudo isso, segundo Madlib, cantado em cima de batidas feitas em um iPad e isso é um mero detalhe dentro do universo do “Beat Konducta”. A maioria das batidas já existiam muito antes de Gibbs convidar Madlib para essa empreitada, algumas delas presentes em algumas versões de beat tapes do produtor, e nada disso tira o brilho da produção. Pelo contrário, elas são tão atuais como DJ Premier soltando “Mass Appeal” em 1999. E um dos legados de Bandana é justamente o do rap que não envelhece, mas se renova. Ter Mos Def rimando neste disco é a prova disso.

A dupla conseguiu tirar Yasiin da sua estranha reclusão, anunciada tantas vezes quanto não cumprida. “A prisão superlotada, eles esvaziaram a escola”, é o recado que deixa o lendário MC do Brooklyn, e mais uma vez a dialética de Bandana se mostra, e a análise final é de que cada um é senhor de sua história, e então os conselhos são apenas visões de como podemos seguir caminhos cada vez menos tortuosos.

Gibbs, então, se coloca como um dos maiores da década, e, possivelmente, no santuário dos melhores MC’s da história do rap. Numa era de falsos gangsters, ele mostra que diversos fatores fazem dele um verdadeiro O.G, e ele sabe que esse caminho é frágil, e por isso a piñata se quebrou. Mas, para quem já enfrentou a cadeia, o tráfico e a quase morte, nada parece ser capaz de pará-lo. É como o Edmundo animal diante da pequena área em um Vasco x Flamengo.

Madlib, infelizmente, só agora tem sido reconhecido pela maioria dos ouvintes como a lenda que é desde 2000. O trap produzido é o que faz dele ser imbatível, capaz de fazer  qualquer tipo de música. Conhece tudo e de tudo – e isso tudo faz dele, com certeza, um dos 10 maiores produtores de todos os tempos. Bandana certamente será o disco do ano, um dos melhores da década, e quem ganha somos nós, pois, numa cena saturada e cheia de cópias, a dupla mostra que a simplicidade, autenticidade e o bom uso de boas referências vence qualquer mainstream.

Como disse Madlib na faixa “Jazz Cats”, em 2000: “Eu poderia citar muito mais, mas eu sei que vocês não irão samplear …”. Aguardemos, então, os próximos capítulos dessa série.

Ouçam “Bandana”!