Bom dia/tarde/noite meus apreciadores de rollmops e pepino em conserva, suave? Shaq por aqui mais uma vez, depois de um pequeno hiato e dedicação à meditação para expurgar todo e qualquer tipo de música ruim da minha vida. Estou liberto do trap e hoje sou a universal, e sem mais delongas, vamos pra review do disco que ninguém tava esperando, e quem não gostou não é mais meu amigo, IGOR, de Tyler, O Criador.

Como de costume, abordando aqui a divulgação e construção da expectativa, Tyler soltou diversos snips com vídeos curtos das tracks com seu novo alter-ego (IGOR? Ou como eu prefiro: Alter-IGOR), acompanhado de uma maravilhosa peruca loira Chanel e coreografias misturadas com guardas de boxe, arte no seu mais puro estado contemporâneo.

Mais especificamente sobre a sonoridade, podemos leva-la de duas formas, IGOR é a evolução natural de Flower Boy, onde o MC explorou mais melodias ainda muito ligadas à estrutura do rap, porém extremamente melódicas, mesmo que dependentes de traços muito característicos, como uso de sintetizadores para a harmonia, por exemplo. A outra é como Tyler orientou a escutar o trabalho (pelo menos a primeira vez), nos levando a acreditar que se trata de um “capitulo a parte” na trajetória que deve ser analisado por suas particularidades. Eu prefiro a primeira.

Bom, partindo pro som, abrimos o disco com IGOR’S THEME e um samplerzaço do Jamiroquai, fiquei logo animado de entrada, com uma forma notável que Tyler depende cada vez menos de synths distorcidos e compõe vozes diversas com instrumentos. Inclusive, 98% (ETDK) das participações do disco são utilizadas com instrumentos, temos poucos “versos” e isso é muito bom, afinal, ele nos disse pra não esperar um disco de rap, é algo muito mais musical’esco’. Longe de mim dizer que o rap não é musical, vocês já viram o que JDilla, Kanye West, Madlib e outros podem fazer, porém, o que quero dizer é que Tyler conseguiu utilizar, por exemplo, uma ponte do Playboi Carti como suporte musical entre dois versos de uma música, não como um verso “comum” e isso é genial, gera precedentes.

Muitas coisas me lembraram o Flower Boy, como disse ali em cima, numa espécie preparação para o que vemos em IGOR. Mesmo que, como supracitado, Tyler não dependa tanto do que lhe deu notoriedade, ainda vemos muito do que deu certo em seu projeto predecessor: músicas sequenciais nas quais mal se nota a passagem entre si, muitas e muitas distorções e uma grande apelação emocional abordando relacionamentos. Inclusive, esse novo Tyler põe qualquer sertanejo no chinelo, só falta falar de chifre.

O uso de baterias convencionais aqui é bem moderado, em sua grande maioria já são parte dos samples utilizados, e uma ou outra faixa tem uma construção “convencional” com kicks e snares discretos (exceto a NEW MAGIC WAND que tem uma carinha de Cherry Bomb, e uma certa semelhança com o ultimo single antes desse disco, OKRA), sempre dando destaque às vozes como já citei. Apesar do trampo ser totalmente produzido, arranjado e composto por ele, não percebi (pelo menos até agora) nenhum vício característico de produtor que deixa todas as tracks com a mesma cara, tirando a dinâmica dos sons, muito pelo contrário, as músicas são bem complementares e funcionam de uma maneira muito coesa juntas, ao passo que também são boas o suficiente pra fazerem sentido sozinhas, contrariando o pedido do MC de ouvir o disco numa paulada só, sem pular, para que ele faça sentido (porém, numa primeira audição isso é sim muito necessário, pro entendimento do conceito do todo). Ainda, emendando esse assunto de produção, a utilização das participações no projeto foi muito interessante, como pincelei mais levemente ali pra cima, Mr. Okonma conseguiu utilizar as vozes das participações como instrumentos, onde várias vezes não foi possível identificar claramente quem estava na faixa, porém, não só pela falta da informação na tracklist, mas pela voz estar alteradas ou tão incorporada à construção da faixa que causa a impressão de ser um backing vocal ou um coro complementar, por exemplo na EARFQUAKE, dentro do coro do refrão, se a gente prestar muita atenção da pra pegar a voz do Charlie Wilson, muito bem composta dentro do som por sinal, ou ainda Kanye em PUPPET.

Assim como em seu projeto anterior, vemos aqui um Tyler muito mais emocional, mais aberto com seus relacionamentos e menos introspectivo, tratando das situações para com o espectador e não “refletindo” sobre ela de uma forma mais individual, de maneira que podemos nos relacionar e simpatizar com muitas das situações aqui. O fato de, desde de Cherry Bomb, o MC ser muito menos ácido e mais “pé no chão” a respeito de sentimentos marca uma grande evolução como pessoa e maturidade como artista, e algo que eu falei em alguns textos atrás, não me lembro qual, evolução artística é natural e necessária. E graças à nossa capacidade tecnológica, caso você esteja meio nostálgico, é só voltar nos álbuns anteriores, tudo que foi feito anteriormente para chegar até aqui ainda tá lá, é só ouvir.

Fechando a conta e passando a régua, IGOR é um belíssimo álbum, com músicas muito bem esculpidas, coesas e fáceis de simpatizar, nos resta saber se envelhecerão bem. A única coisa que me “incomodou” foi o fato de cada vez menos Tyler usar sua voz própria que é tão característica e reconhecível, modulando-a de várias formas, como que num jogo, nos mostrando até onde ele pode chegar, ora cantando, ora produzindo e brincando com sua própria extensão vocal, isso é bom por um lado, pois nota-se o talento como produtor, porém vai ofuscando a primeira coisa que o fez chamar atenção, além da personalidade.

No mais é isso aí mesmo, ouçam o Defecast, usem camisinha e adotem cachorros. Peace out!