Fala aí, seus “nunca escutei Defecast”! ESCUTEM!!! Tamo aqui, dia 22/04, aniversário de ninguém mais ninguém que Deus AKA Mano Brown, e vamos prestar uma singela homenagem ao analisarmos um dos maiores clássicos que esse gênero já ouviu. Vamos falar de “Sobrevivendo no Inferno”, álbum de 1997, do lendário grupo Racionais MC’s. Sem mais delongas, vamos a review.

Começamos com “Jorge da Capadócia”, uma regravação da música de Jorge Ben Jor, com um instrumental de KL Jay, esse que retorna em “Salve” para servir de background enquanto Mano Brown homenageia as quebradas. Se percebe na letra, trechos da oração de São Jorge, o pedido por proteção, proteção essa que vem em boa hora pois vamos embarcar em experiências pesadas e obscuras, que ficarão evidenciadas pelas linhas reais dos MC’s.

O álbum, em grande parte, quer nos ambientar no dito “Inferno”, que é definido logo no início do play com “Genesis”, essa que considero uma das, se não a melhor intro de todos os tempos e assim como o livro da bíblia relata as criações de Deus e a queda do homem para as tentações do Diabo, porém aqui essa narrativa é vista da perspectiva do homem, esse que tenta sobreviver nessa sociedade corrompida a qual ele decide chamar de “Inferno”. Vale enfatizar também na segunda linha onde o homem, criação divina, proporciona tudo de ruim para o eu lírico da faixa, ou seja, proporciona o próprio inferno. Isso nos leva a próxima faixa e ao relato de Primo Preto, onde percebemos que o “homem” em questão é o homem branco e a utilização desse termo nos faz perceber que o eu lírico, enquanto homem preto, não se sente uma criação divina, devido a tudo tem passado na sociedade ao longo dos anos (Assistam TW with Killer Mike, que toca nesse assunto e é muito bom). A mensagem é dada logo na intro, não espere uma visão romantizada e esperançosa do mundo nesse álbum.

Deus fez o mar, as árvore, as criança, o amor…
O homem me deu a favela, o crack, a trairagem
As arma, as bebida, as puta…
Eu?! Eu tenho uma Bíblia véia, uma pistola automática
E um sentimento de revolta
Eu tô tentando sobreviver no inferno

(“Genesis”)

A partir de “Capítulo 4, Versículo 3” começamos a ver esse inferno ser dissecado, a ser explorado em suas particularidades: Onde os jovens de periferia sofrem constantemente repressão policial e possuem poucas oportunidades, onde as pessoas de cor são julgadas pelo tom de sua pele. Nesse contexto, um homem exposto a essa violência reage agressivamente, na tentativa de sobreviver, isso reflete na tanto na escrita como na entrega dos versos de Brown. Nessas duas faixas, o eu lírico também nos entrega outro conceito importante pra construção do álbum, a posição do homem e como ela é fundamentalmente construída pelo ambiente ao seu redor, ele que no instinto de sobreviver no inferno encontra “disposição pro mal e pro bem”, muito depende das oportunidades que aparecerem, sejam elas quais forem.

Em sequência temos a primeira de algumas narrativas únicas da tracklists, faixas que são construídas a partir de um storytelling que nos mostram casos específicos, apesar de serem situações muito recorrentes no inferno. Essa é “Tô Ouvindo Alguém Me Chamar”, uma das melhores narrativas já construídas pro Brown, que toca de novo no que fora exposto acima, como o ambiente é um molde do humano. Na narrativa da faixa, o eu lírico de Mano Brown entra para o crime ao pegar de exemplo Guina, “seu professor no crime”, descrito como alguém que “tinha um certo dom pra comandar, linha de frente em qualquer lugar” com “condição de ocupar um cargo bom e tal, talvez em uma multinacional”, porém as situações as quais Guina foi exposto no Inferno não o permitiam mais que tentar sobreviver e o mesmo servia para seu “aluno”. Além da excelente história construída por Brown, alguns elementos da música ajudam a construir a narrativa, como o barulho do monitor cardíaco usado quase como um instrumento dentro da batida, e a repetição da falsa promessa de “se eu sair daqui, eu vou mudar”, sempre que uma situação extrema aparece, o personagem repete a frase, como se prometesse ao destino ou a Deus, algo que ele acaba por não cumprir e sofre as consequências disso.

Edi Rock chega com sua primeira faixa solo do álbum, a “Rapaz Comum”, essa que traz uma narrativa que traz semelhanças com a última, pelas condições que o narrador se encontra, na beira da morte, mas aqui, esse é muito mais reflexivo, na intenção de mostrar que tanto a forma de viver como a de morrer do eu lírico, são comuns na periferia ou melhor dizendo, no inferno. Em seguida temos um instrumental mais calmo de KL Jay que vai evoluindo e acrescentando synths mais agudos e barulhos de tiros, que serve tanto para o ouvinte digerir tudo o que foi exposto nas três faixas anteriores, quanto para se preparar para a faixa seguinte.

É então que recebemos mais um storytelling, talvez o mais aclamado e conhecido não só do rap brasileiro mas de todos os gêneros, “Diário de um Detento”. Nela, Brown mergulha fundo no cotidiano e nos pensamentos de um detento e na ambientação de uma prisão,  inspirado no diário de Jocenir, um detento do Carandiru que Brown conheceu ao visitar algum conhecido. Eu poderia estender aqui, mas basta ouvir algumas vezes pra perceber a genialidade do som, como o beat serve de ambientação pro clima tenso, e varia conforme a necessidade da história (como na pausa que serve de representação para o passar do anos), como a imagética de Mano Brown é talvez um de seus melhores atributos enquanto letrista e essa faixa o ajudou a tornar um dos maiores da história.

Na sequência, “Periferia é Periferia” e “Qual Mentira Vou Acreditar?”, a primeira que é uma faixa dedicada a explorar um pouco mais as nuances da periferia, bate de novo em vários aspectos já observados em outras tracks, no entanto com a visão única e as barras de Edi Rock; Esse que volta ao lado de Ice Blue na segunda, que é de longe a faixa mais descontraída do play, mas que não deixa de tocar em aspectos importantes da construção do álbum, como racismo, opressão policial, tráfico, etc. É a primeira e única vez que esses temas são abordados com um quê de leveza, como pode se perceber pelo “tem que saber curtir, tem que saber lidar” repetido no refrão, como se o sobrevivente fosse obrigado a ter que saber lidar com esse tipo de coisas se quisesse “curtir” algum momento da existência.

“Mágico de Oz” retoma com tudo o lado mais obscuro, tenso e pesado do álbum. A faixa que se inicia com um relato de uma criança, contando a forma que iniciou a usar drogas, exposta a violência doméstica por um pai alcoolatra, criança cujo o sonho era estudar, ter uma casa, uma família, algo que é comum a muitos de nós mas ela por viver e conviver com o pior do “Inferno” mal tinha contato. Ao final desse relato, pela primeira vez ouvimos a palavra “fé” nesse álbum, essa fé que é depositada nas crianças, na sua inocência e esperança de um dia transformar o inferno num mundo mágico tal qual o de Oz. Edi Rock explora esse relato e nos dá mais 8 minutos de um storytelling sensacional que culmina numa reflexão, e ao final dessa, a reafirmação da sua fé:

Às vezes eu fico pensando se Deus existe mesmo, morô?
Porque meu povo já sofreu de mais e continua sofrendo até hoje
Só que aí eu vejo os moleque nos farol, na rua, muito loco de cola, de pedra, e eu penso poderia ser um filho meu, morô?
Eu tenho fé…

(“Mágico de Oz”)

“Formula Mágica da Paz” pega essa fé e esperança de Edi Rock e dá continuidade, é uma faixa de vários momentos, como um resumo todo da obra, nela podemos perceber a violência, o crime, a cadeia, a relação problemática com as mulheres assim como em “Qual Mentira Vou Acreditar?”, mais uma história de um “Rapaz Comum” no terceiro verso, no entanto… Nessa faixa temos a esperança, diferentemente do que se viu em todo o restante do álbum, e fechar o álbum com essa mensagem de esperança depois de tudo que se ouviu é de fato, muito importante para quem tá tentando sobreviver no inferno.